Um Homem Não Chora

Aqui não se vendem gravatas às riscas.

Monday, June 08, 2009

Coisas

A Dona Ermelinda, do 3º A, não me respondeu ao Bom Dia que lhe lancei, quando nos cruzámos no elevador. Estou triste. A Dona Ermelinda é possível que também esteja. Talvez seja por isso que não me respondeu - é provável que nem tenha ouvido o Bom Dia, perdida entre reflexões profundas sobre as causas da sua tristeza. A Dona Ermelinda provavelmente não se chama Ermelinda e nem sequer deve ser Dona de coisa nenhuma. Mas há que dar nomes às coisas e a coisa da Dona Ermelinda já deve andar há anos sem ver um néctar de pêssego. Ou de frutos silvestres. Se calhar é por isso que a Dona Ermelinda está triste.

Saturday, May 02, 2009

O dia do trabalhador

Qualquer dia, um dia destes, um dia qualquer no próximo século, não tem de ser já, hei-de ser porteiro de uma discoteca concorrida de Lisboa. Não é pelo dinheiro, que até acredito que seja interessante, nem é pela possibilidade de dar dois murros bem dados em gente imbecil, é pela questão do poder. Pura e simplesmente, o poder, sim. Não há gente mais poderosa nos dias que correm, tirando os arrumadores, que os porteiros. É poder por todo o lado e mesmo assim – e era aqui que eu seria vanguardista na arte – são todos macambúzios. Ao menos, se fosse eu o porteiro, ria-me de vez em quando, quem sabe não faria mesmo uma mini-actuação circense enquanto os bêbedos esperavam a sua entrada; cuspia fogo, engalfinhava 3 litros de cerveja em 10 minutos, despia-me, fazia o pino, entregava pizzas, cantava o fado, todo um manancial de possíveis diversões que os porteiros andam a desperdiçar com aquele ar sombrio de quem acabou de cagar as twin towers.
Isto, perguntam os leitores, vem a propósito de quê? Vem a propósito, queridos 3 leitores, da noite de quinta-feira, véspera do dia do trabalhador, noite no Cais Sodré, Musicbox, gente por todo o lado e uma fila. Uma fila que ia, de pirilau, desde o túnel até ao outro lado, ao Liverpool. Magotes de bípedes, quase todos entornados, olhando esperançoso para a porta da discoteca. Talvez pensando que um dia, um destes dias, um qualquer dia no próximo século, iriam finalmente poder entrar, beber um copo e dançar. Ideia de tal forma absurda que desde logo foi sendo aniquilada pelos porteiros do dito estabelecimento, enquanto iam abrindo cordinhas para os amigos passarem. E se eram muitos, os amigos! Dava para encher o Estádio da Luz com os amigos que os porteiros iam deixando entrar e talvez sobrassem ainda umas centenas para irem comprar roupas à Zara do outro lado da avenida.
Nisto estávamos, enfiados no pirilau da fila, anónimos sem capas vip nem cocaína para suborno, quando a lógica abstracção da noite ébria me deu a ideia – genial, admito – de ir beber um copo ao bar ao lado do Liverpool e dar tempo ao tempo, que os outros, os que estavam connosco, faziam o obséquio de pirilar. Copos aqui, cigarro acolá, mija nas escadas, tempo para fazer tempo para chegar a tempo de entrar no antro da caixa de música, conversa, isto e aquilo, pede lá mais uma, quanto é?, se calhar vamos ter com os gajos, se calhar já entraram, é chato eles estarem lá e nós aqui, esta está fresquinha, olha os gajos à espera mas esta está a entrar bem, fumamos só mais este e depois vamos. Fomos. Os bípedes tinham conseguido andar dois metros. Ficámos muito felizes e quase agradecemos ao porteiro tão grande gentileza de ter deixado entrar umas 7 pessoas em 40 minutos. Obrigado, porteiro.
Depois de 20 minutos a ter sede, conseguimos entrar. 8 euros para duas imperiais mijadas mas tudo bem, o que vale é que dia do trabalhador. Pista de dança, olhar em volta: o Sam the kid observava sobranceiro os restantes bípedes, Leonor Pinhão bebia o 50º vodka tónico da noite enquanto, no palco, à frente das imagens que pretendem ser alucinantes, João Botelho e uma corja de actores dançavam desenfreadamente levados de mansinho na crista daquele pó que é muito bom para as rinites alérgicas. Olha ali o gajo dos Cool Hipnoise de fato Gucci! E ali, naquele canto, o Rochemback com duas companhias voluptuosas, além da barriga! Viste a Beatriz Batarda? Não vi, não, que estava empenhado em conseguir em simultâneo dançar e segurar a imperial de forma a que não fosse ela a beber-me.
Gastas as rifinhas alcoólicas, mais uns passinhos de dança nos meus 30 centímetros quadrados de espaço, e a melhor ideia da noite: e se a gente bazasse daqui?
O porteiro desejou-me uma boa noite e agradeceu-me. São muito simpáticos os porteiros.

Saturday, April 25, 2009

O cri cri da crise

Como isto está, qualquer dia as pessoas começam a pedir autógrafos ao Camilo Lourenço e o Aimar não passará de alguém com um corte de cabelo parvo.
Acordo e atiro-me para o banho. Antes ligo o rádio e logo me inundam ondas cheias de pessimismo, lições sobre gestão financeira e possíveis conselhos para um suicídio em massa. Maço-me. Faço por esconder dos ouvidos as palavras dos especialistas na crise, deixo que a água corra sobre mim, inundo-me de optimismo. A vida, sem a frase montypythoniana, parece ser uma terrível construção de dias com destino traçado. Com ela, torna-se-me tudo suportável, até o peso do sono que se lava com gel de banho e duas ou três músicas cantadas a má voz, péssimo timbre e uma viagem de memórias que dura o tempo possível até a mão decidir fechar o banho numa torneira quente.
Puxo o elevador, e o som abafado do seu voo vertical traz-me e leva-me para a realidade. Sempre com o olhar, ressalve-se, de quem olha para o lado mais luminoso da vida. Para o lado bom.
Na rua, alguém lembra que o dia podia estar melhor. Rio-me. O rio que corre por dentro de mim não tem tempo para parar na margem das palavras inúteis e desesperadas. Sigo em frente pelo caminho mais longo das horas, enquanto dois cães se cheiram e não conhecem, nunca ouviram falar, numa tal de crise. É bom parar de vez em quando, fecharmo-nos no nosso próprio cinema, iluminar os dois cães com luz real, do sol, e ficarmos ali, espectadores das cenas que nunca chegaram a passar no filme. Este eu acho que o Ministério das Finanças não viu. Talvez tenha preferido um mais dramático.
No carro, empilham-se em frente, atrás, de lado, conjuntos de gente irritada, quase sempre sozinha, ouvindo as novas que o dia e as notícias trazem e têm para oferecer. Prefiro a velha cassete. Hoje vai o Camarón para o trabalho, amanhã o Hendrix, depois o Manu Chao e todos eles sem conhecerem o PIB nacional.
O Mundo anda tão preocupado com o que os outros têm para dizer que se esquece de se esquecer. Ontem, hoje, amanhã todos juntos num pacote noticioso que arma as pessoas para as conversas em corredores sem fumo e risadas entre twitters e messengers.
Amanhã levo um "Este dia está fabuloso" para as ruas. E espero que não me levem a mal.

Thursday, April 16, 2009

Kentucky fried entremeada

Ali, onde agora vive um senhor mamarracho de nome Colombo, era um baldio de terras aos solavancos, couves, armaduras de príncipes antigos e casas da idade do Fernando Pessoa. Ali, onde a esta hora senhoras elegantes e meninas petulantes encontram mais uma fantástica bugiganga para encher a vaidade dos quartos e salas de estar, foi, um dia, um parque arcaico de estacionamento, um caminho tortuoso até à catedral e uma enorme sala de repasto benfiquista. Ao ar livre, como tinha de ser.
O carro estacionava-se a 2 quilómetros do Estádio e a partir daí punham-se galochas e enfrentava-se o lamaçal. Antes de chegarmos ao repasto, deliciava-nos todo aquele benfiquismo em forma de gente: grupos de 10, 15 pessoas faziam círculos imperfeitos em volta de uma fogueira, de um fogareiro e de uma panelona digna de reis que no seu interior aquecia e amparava um bruto cozido à portuguesa ou, para os mais sensíveis às vicissitudes das transformações gástricas, um belo de um caldo verde, recheadinho com chouriço do melhor que podia haver; para beber, tinto, que era a cor e bebida naturais de quem, por dentro, levava acesa a chama imensa.
Normalmente, eram homens, pais e filhos, poucas mulheres e ainda menos filhas. No entanto, a equipa feminina de cada família tinha também o seu ofício, visto que vinham das mãos delas os repastos que tanto aconchegavam o estômago e o coração dos seus mais-que-tudo. A fome e a sede, ali, naquele sítio onde hoje ardem galinhas de Kentucky e carnes do Sr. MacDonald, não eram mais do que a medida certa para o impulso de noites de glória. Começava com o ritual de comer e beber; acabava em goles de golos.
Para quem não levava metade da casa atrás, esta era uma visão que aproximava e apaixonava e servia de entrada ao que viria a ser a refeição, sentados que ficávamos em banquinhos corridos de madeira rodeando as casas de repasto, quase sempre entregues a famílias inteiras. O ritual era simples: fazia-se um rectângulo de balcões, em volta bancos para os benfiquistas não comerem de pé e lá dentro era uma festa de cerveja, vinho e cheiros de carnes com muita gordura. Para os meninos, trina de laranja, para os pais, vinho em barda, que a noite era uma criança. Nos entretantos, enquanto se trinchavam pedaços de entremeada, febras e as sopas iam ao lume, e regados, bem regados, a cerveja, a tinto, a branco e, para os mais friorentos, a abafadinho, discutiam-se onzes, dizia-se mal do treinador (sim, já na altura acontecia) e ansiava-se pela hora da visão gloriosa de um relvado iluminado por 4 focos de luz. Os pais faziam a sua pedagogia, perguntando aos filhos o nome dos 11 heróis que iriam entrar em campo, os filhos acertavam em 3 ou 4 jogadores mais conhecidos e de tempos a tempos até aparecia um que falava no nome de um jogador de um rival nacional. O pai não gostava, batia com o copo com força na madeira e gritava: "esse é lagarto, filho!" e o filho, que nunca se tinha apercebido de que os homens tinham a capacidade de se metamorfosear em répteis, bebia mais um gole de trina enquanto dizia para dentro que nunca mais abria a boca para dizer o nome daquele jogador.
E o mais bonito de tudo era quando, na mesma mesa, se juntavam avô, pai e filho. E todos eles, ali sentados em redor de um objectivo, apesar das idades, a sentirem o mesmo: a pulsação acelerada, a ansiedade, o nervosismo, a paixão. Todos eles com o coração da mesma idade.

Wednesday, February 04, 2009

César Monteiro

Quer começar por apresentar o filme?

- O filme apresenta-se a ele próprio. A minha cabeça esvaziou-se. O filme saiu-me da cabeça e está registado. Não tenho a noção de conjunto, do que está feito. Se calhar daqui a uma semana já tenho; é que ainda não o vi.

Nesta fase de montagem não tem, paradoxalmente, uma ideia muito mais precisa? Há um visionamento do que foi feito.

- Mas é parcelar e descontínuo. Trabalha-lhe sobre parcelas e não sobre a totalidade.

Também se filma em parcelas. O filme corresponde ao que idealizou, ao que começou por existir na sua cabeça?

- Sim. É um filme cheio de peripécias que deveria ter sido feito em 92. Foi inicialmente pensado para ser rodado em Paris e depois andou em bolandas. Por razões que têm a ver com produção, orçamentos, etc, foi-me proposto que fosse feito em Évora. Mas achei que não dava, a minha relação com a cidade... Depois pensei no Porto; andei a ver lugares e chegou a ser escrita uma versão portuense. Mas faltaram-me alguns apoios locais, nomeadamente da parte de cenografia, e optei por Lisboa.

Não deixa de ser interessante que, apesar de todas as peripécias, Lisboa continue a ser a sua cidade; mesmo sendo uma cidade diferente da que filmou nas «Recordações da Casa Amarela».

- Sim, mas o filme tem muito pouco de Lisboa porque ao fim da primeira semana de rodagem levou uma grande volta. Apareceu-me um actor, muito bom actor, que vinha para fazer um papel pequenino; achei que seria uma pena desperdiçá-lo e resolvi confiar-lhe a parte que me estava destinada. Era para ser uma viagem numa carroça puxada por um burro, uma espécie de périplo joyciano com visita a vários lugares. Resolvi mandar tudo às urtigas e o périplo ser confortavelmente narrado.

Mas continua a ser um périplo joyciano, no sentido de atravessar a condição humana?

- Sim, sim. O filme é maioritariamente falado em francês. Ainda pensei em fazer uma versão portuguesa mas não pude contar com os actores com quem me apetecia trabalhar, não estavam disponíveis.

Voltando à essência do filme e ao périplo joyciano. Quais são, no filme e para si, os pontos chave do percurso?

- É preciso que eu faça um pequeno preâmbulo. O objectivo era fazer o filme para comprar uma casa, não sei se me faço entender, ganhar massaroca. A fórmula que me deu dinheiro foi um contrato, vantajoso financeiramente, que assinei com o meu produtor para fazer este filme.

Filma, então, para comprar casas?

- Fiz este filme para comprar uma casa. Pode ser que faça outro para comprar uma segunda residência. Portanto, parece haver da minha parte um certo interesse no chamado investimento imobiliário. Isto é uma coisa muito segura; o filme é mais duvidoso. Para já há um pequeno paradoxo: não faço a mais pequena concessão ao comércio, ao público, embora um filme seja um objecto comerciável, com um determinado valor enquanto mercadoria. Mas aí, já ganho muito pouco.

Como assim?

- Poderia ganhar se me fossem pagos os direito de autor, se houvesse uma sociedade que se ocupasse disso e não há. Posso dizer-lhe que até hoje, em direitos de autor, ganhei trezentos e quarenta escudos e tenho mesmo o recibozinho que vou emoldurar.

Mas vive-se hoje uma fase diferente no cinema português. Com este filme ganhou dinheiro para comprar uma casa.

- Ouça, se me pagam para poder comprar uma casa suponho que não é pelos meus lindos olhos... Suponho eu.

Nunca questiona o seu talento?

- Eu não sei se tenho talento, começo por aí. Não me ponho essa questão, nunca na vida, quero lá saber! A única coisa que faço questão... Como costumo dizer, é merda mas é a minha. Deixar as minhas marcas. Num filme, no mundo.

Mas esse é um processo que envolve prazer? Os filmes dão-lhe prazer?

- Não me dão nenhum particular prazer. A não ser episodicamente. Posso entusiasmar-me com determinados planos, porque sinto que há uma conjunção de factores múltiplos favoráveis a um bom resultado. Dá-me imenso prazer ver o jogo de actores e a relação que estabelecem com a luz e com o resto.

Faz filmes exclusivamente porque precisa de ganhar dinheiro, não os faria de outra forma?

- Não.

O que é que gosta de fazer?

- Nada. A sério.

O que é o seu ideal de um dia perfeito?

- [Hesita] Não sei se há dias perfeitos. Sou sensível aos ruídos, à luz, às pessoas, mas não sou antropocêntrico. Estou cada vez mais céptico em relação aos seres humanos.

Está desencantado?

- Eu nunca gosto de ser muito afirmativo... Digamos que estou pouco encantado. Desgosta-me a sociedade da qual me tento excluir na medida do possível. Mas isso tem um preço, não é muito agradável. Não tenho à minha volta as pessoas que queria.

Essa margem de desencanto foi-se agudizando com a idade? Deixou de ser ingénuo ?

- Não sei se perdi inteiramente a inocência. Se não perdi inteiramente estou em vias de. Mas tento preservar o meu lado infantil. O mundo é das crianças.

O princípio das crianças é o princípio do prazer.

- Não tenho tido muita convivência com crianças. Sinto-lhes a falta. Acho que é o meu mundo. A sua espantosa capacidade de curiosidade e a sua espantosa capacidade de verbalizar o que vêem, o que ouvem e o que sentem.

Olhando para si não se consegue imaginar como foi o João César Monteiro Criança.

- Venho de uma pequena cidade de província, uma pequena cidade chamada Figueira da Foz, e estabeleci logo uma reputação que não era boa, devo confessar. Diziam que tinha comprimidos atómicos dentro do corpo, que era muito endiabrado. E dizia-se pior ainda: que eu era o terror da cidade. Fazia, em suma, as piores patifarias, coisas mesmo atrozes. Uma vez pus uma cana na porta de saída do autocarro para as peixeiras caírem. Outra coisa que também me agradava muito era apalpar mamas, sobretudo a criadas. E por isso fui punido com um bofetão. Tinha sete, oito, nove anos.

Uma hiper-sexualidade?

- Não diria tanto. Seguramente era a sexualidade difusa da idade. Outra coisa que eu gostava muito de fazer era levantar saias às meninas. Fui suspenso do liceu quinze dias.

Dava-se com rapazes ou com raparigas?

- Com rapazes. As meninas era só para espreitar debaixo das saias.

Qual é para si a grande diferença entre ter uma amiga mulher e um amigo homem?

- Bom... A pergunta é embaraçosa. Como não tenho amigos, nem amigos homens nem amigas mulheres, isso coloca-me alguns embaraços. Aceito mal algumas expressões, como “gosta de mulheres, gosta de homens”. Não é verdade que goste de mulheres. É rigorosamente verdade que posso gostar de algumas mulheres. Poucas. E homens a mesma coisa. Mas isto não responde à questão da amizade. Tratando-se de amizade não há diferença nenhuma. Só que, às vezes, com as mulheres acontecem outras coisas que já não têm a ver com amizade. Têm a ver com desejo ou com paixão. Evito falar na palavra amor. A diferença entre amizade e amor é que o amor é sempre, sempre exclusivo.

É um homem de muitas paixões? O cepticismo de que falou também se estende ao campo amoroso?

- Sou sensível às fraquezas da carne e normalmente fico-me por aí. A minha rota é uma rota de gratidão, «Obrigadinho por este bocadinho». Vai-se além disso uma, duas vezes na vida. Sei do que estou a falar porque já tenho cinquenta e oito anos - embora não pareça... Homens, nada!

Transporta sempre essa sexualidade à flor da pele para os seus filmes?

- Ah! Pois concerteza.

Neste filme como se inscreve o desejo?

- O desejo está inscrito no corpo do filme e na cabeça das personagens masculinas.

Parece que na sua cabeça as mulheres não têm desejo, são só objectos de desejo.

- Trouxeram-me uma vaca francesa para este filme, o que é que poderia fazer? Não tenho culpa nenhuma. Os actores eram muito mais interessantes que as actrizes e isso conta. Digamos que este é o meu primeiro filme misógino. O que não quer dizer que suceda no próximo.

Na sua cabeça está sempre tudo a mudar.

- Ai isso está.

Ao cabo de uma semana de rodagem decidiu alterar tudo com a chegada de um actor francês.

- Repare que foi ele que decidiu. Se não fosse aquele actor...Foi ele que fez mudar o curso das coisas.

Mas foi você que orientou a mudança das coisas.

- Mas esse é o papel de um cineasta.

Qual é a sua atitude? Mudar diariamente, adaptando-se às circunstâncias?

- Exactamente. É um processo muito pouco egocêntrico, isto é, há um ego que não impõe nada, que se deixa visitar como uma fêmea e que recebe as coisas.

Eu diria que é terrivelmente egocêntrico, está nos seus filmes de todas as formas. Mas enquanto cineasta há aqui uma pequena incoerência. No começo da nossa conversa falámos de si enquanto general e da equipa que existe para executar as suas ordens; agora estamos a falar das sugestões da equipa e da sua relação com o general.

- Eu faço uma distinção entre equipa e actores. A um fotógrafo peço que seja feita uma fotografia assim e não assado; isto é acordado e não tem discussão. Este é um filme feito com um projector e o resto com luz natural. O som acordou-se que era directo. Isto são coisas traçadas desde o início do filme. O relacionamento com actores é de outra ordem. No meu caso recuso a palavra director de actores, não sei dirigir actores, não quero dirigir actores. É uma relação de cumplicidade e empatia para que as coisas funcionem. Ou não. Se não se estabelece uma troca não há funcionamento possível. Foi o que aconteceu com a vaca francesa que me foi impingida pelos produtores. Neste filme, por circunstâncias várias, houve um óptimo relacionamento.

É mais sensível ao talento ou à componente humana?

- Sou sensível às duas coisas, tenho preferência por uma humanidade talentosa. Ainda agora tive um susto com um actor. Sabia que era talentoso, simplesmente apareceu-me num estado inconcebível, a cair de bêbedo e sujo. A minha primeira reacção foi «Este tipo vai para Paris, já!», e cheguei a falar-lhe nisso. Depois dormi sobre o assunto e preparei-me para o aguentar três ou quatro dias, era um papel pequenino, podia transformar a personagem dele num bêbedo insuportável. No dia seguinte ele apareceu-me lavadinho, vi-o num primeiro plano, fulgurante, pensei que ia bem com o outro e poupava-me trabalho a mim porque era eu que ia fazer o papel...

Não gosta mesmo de trabalhar, pois não?

- Não tenho o direito de dizer que não gosto de trabalhar porque o meu trabalho num filme é privilegiado, sou omni-senhor. Nesse sentido gosto. O que acontece é que não estava em condições físicas de suportar a dureza de um filme. Adaptei-o à minha debilidade física e até, de certa maneira, psíquica. Fiz um filme em cinco semanas trabalhando quatro horas diariamente.

Qual é o seu esquema, ensaia as coisas, prepara-as minuciosamente?

- Nem sempre sai, mas tento filmar à primeira. As coisas estão devidamente preparadas, sobretudo neste filme com sequências bastante longas- alguns planos têm dez minutos. Para os actores é formidável, nem sequer têm aquele aparato da luz...

A luz e a música são elementos fundamentais nos seus filmes.

- Sob esse ponto de vista, este tem coisas fabulosas. Tive sorte, apanhei dias de nuvens com vento e, como os planos são longos, as variações luminosas são muito grandes.

Filmar com a luz natural...

- É o grande iluminador, o Nosso Senhor...

Isso prende-se com uma ligação maior à vida e às pessoas de todos os dias?

- Sobretudo permite rodar com uma grande rapidez. Chegámos a filmar vinte, vinte e cinco minutos por dia. É mais que nas telenovelas sem ter o ritmo das telenovelas. Há só um ângulo, que foi aquele que escolhi, e não há mais nada, não há rede.

As coisas já estão grandemente definidas quando chegam à montagem?

- A montagem de imagem fez-se numa semana. O som dá mais trabalho.

Voltando à luz e às pessoas. De que estímulos é que se alimenta para a sua construção, enquanto cineasta e enquanto pessoa?

- Onde vou beber? Tirando a parte alcoólica da questão, alimento-me do que fui sedimentando ao longo dos anos, das minhas memórias, das coisas com que me fui cultivando. Livros, músicas, filmes, bacalhau com batatas...

E observa muito as pessoas?

- Agora menos.

Não me diga que as personagens da «Comédia de Deus» ou da «Casa Amarela» saem todas desses livros, dessas músicas e desses filmes. Está com essas pessoas?

- Um bocadinho. Quer dizer, há umas camadas sociais que não aprecio assim muito. O que resta de certas camadas populares, certas tascas antigas...

Porquê essas camadas populares? É a procura da simplicidade?

- Há um certo modo de estar, que curiosamente não é preconceituoso, um certo à vontade, até no modo de expressão, por vezes grosseiro, que me agrada. Não é um modo simples, é um modo franco.

Todas as entrevistas suas que li foram feitas por homens; a sua linguagem era, por vezes, grosseira - para usar o seu termo-, e mais próxima daquela que é a sua linguagem fílmica.

- Mas eu posso ser extremamente delicado.

O que é que o faz ser delicado?

- A alteridade, isto é, o reconhecimento do outro.

Significa que se eu fosse um homem e usasse outras palavras...

- Não, significa que eu posso ser extremamente delicado quando sou afectuoso, quando há um embrião de afecto. Sou uma pessoa doce, de um modo geral. Mas também tenho fúrias.

Tem um conhecimento e um controlo de si na doçura e na agressividade?

- Normalmente controlo-me; ou faço as coisas deliberadamente. Quando não gosto de uma pessoa, cinco minutos depois dou-lhe a entender isso mesmo, para que não haja equívocos; e quando gosto, utilizo os meus estratagemas.

Vai treinando?

- Um bocadinho. Agora como descobri que sou actor, um péssimo actor, mas enfim...

Acha mesmo que pode dizer isso de si? Até já ganhou um prémio muito sério...

- Acho que não sou um bom actor.

E realizador?

- Acho-me francamente bom, atendendo ao que há para aí...

Agora é actor...

- Sim, faço os meus exercícios. E como criei uma personagem, dá-me um certo prazer, na vida real, de vez em quando, comportar-se como o Senhor João de Deus.

Mas ele não é uma parte de si, um dos seus heterónimos? Há o Max Monteiro- Actor, o João César Monteiro- Realizador, o João de Deus- Personagem...

- É um personagem com determinadas características, um ser livre. Praticamente tudo lhe é permitido. Utilizo-o como um teatro. Por vezes torna-se chocante. É verdade que isto incide sobretudo em meninas ou em senhoras.

E como é que elas reagem ao seu treino de Senhor João de Deus?

- Digamos que em cada dez há uma que marcha. As outras nove manifestam pouco interesse na personagem e a personagem não se torna demasiado insistente. Não vale a pena pregar no deserto.

Você é muito mais lúcido do que parece.

- Toda a gente que me conhece sabe isso. De maluco tenho muito pouco.

Gosta de representar, então.

- Mas não acha que o nosso quotidiano é muito cinzento? Eu raramente me aborreço. Um dos meus prazeres é olhar para as meninas, vê-las passar, cheirá-las, extasiar-me com elas.

É uma relação unilateral.

- Felizmente é uma relação unilateral, senão não tinha mãos a medir!

Esse é o seu primeiro pensamento? Estamos aqui na esplanada...

- Sim, pode dizer-se. Se eu fosse um sucesso total, tinha de abdicar, não fazia mais nada. Tenho de catar melhor a vizinhança, talvez haja alguma mãe solteira nas redondezas...

Poderia viver num outro país, numa outra cidade?

- Pensei em ir viver para o Porto. Noutro país nem pensar! Não me imagino a viver em Paris ou em Barcelona.

É assim tão português?

- Sim, sim.

Os nacionalismo preocupam-no?

- Os nacionalismo preocupam-me. E o Bundesbank também. Não sou um nacionalista, tenho é ligações com isto. Por acaso, não especialmente com Lisboa.

Não especialmente com Lisboa? Quase parece um contra-senso, depois de o ver e de o ler.

- Cheguei à conclusão de que podia viver no Porto. Não poderia viver, ou viveria mal, em Évora ou na Figueira da Foz.

Do que é que precisa nos sítios para lá viver?

- Preciso de uma casa.

Também pode ter uma casa em Évora.

- Uma segunda residência, para os fins de semana. Preciso de uma ou duas mulheres, não mais, e de crianças, que até já podem estar feitas.

E crianças um bocadinho mais crescidas? Raparigas tenras como as que apareceram nos seus filmes.

- Gosto de crianças crianças. As adolescentes da «Comédia [de Deus]» sabem mais do que eu, foram muito bem industriadas e não são assim tão novas como parecem. Não é que tenha um gosto especial por crianças...; gosto de algumas. Até suponho que tenho uma; por acaso é rapaz.

Se fosse rapariga mudava alguma coisa?

- Mudava porque se trataria de um outro ser.

O que é que tenta passar ao seu filho?

- Tenho uma boa relação com o meu filho. Neste momento não faço grande coisa com ele porque não o tenho visto. Mas gosto de levá-lo a passear, impingir-lhe umas coisas, o gosto pela leitura, desviá-lo da televisão na medida do possível _ o que é difícil para um pai hoje em dia. Temos alguns gostos comuns, não necessariamente cinematográficos.

Ele vê os seus filmes?

- Vê, não estou seguro de que goste de todos. Mas isso para mim não tem importância nenhuma.

Há alguém a quem mostre os seus filmes e cuja apreciação crítica seja relevante?

- Tenho imenso respeito por alguns críticos de cinema. Que já morreram. Aqui há uns dez anos atrás havia uma pessoa que tinha bastante importância a quem eu mostrava os argumentos que escrevia, o Carlos de Oliveira. Morreu e não encontrei substituto.

Não me diga que nunca se sente inseguro?

- Acho que sim. Num filme, por exemplo, é uma coisa que toda a equipa sente. Tenho uns truques. Normalmente passam por... Bom, não devia estar a revelar isto... Faço umas birras e não sei quê. O intuito é, quase sempre, ganhar tempo, se se trata de uma cena mal pensada ou qualquer coisa no género.

Além da insegurança, revela sentimentos como a sensibilidade extrema ou a comoção?

- Por vezes sinto-me empedernido, mas ainda me consigo comover.

Lembra-se da última vez que chorou?

- Lembro-me que chorei depois de ter sido agredido por três ou quatro polícias. Chorei de raiva e de humilhação. Ainda por cima foi uma história disparatada. Eu encontrei um tipo que é deputado do Partido Socialista, por acaso um rapaz do Porto, e entrei com ele em S. Bento, na Assembleia, a conversar; depois, ele deixou-me num corredor e eu andei para ali sozinho até que, de repente, me saltam três ou quatro polícias em cima.

E agridem-no sem você fazer nada?

- Exactamente.

Está a falar a sério?

- Estou a falar a sério. Chamei-lhes logo Filhos da Puta, uma expressão que utilizo muito. Gosto imenso da expressão Filho da Puta. Tenho uma engatilhada há anos. O meu sonho é ser julgado em tribunal e quando o juiz disser «levante-se o réu», a minha resposta é «levante-se você, seu filho da puta». Agora, como para chegar até ao tribunal é uma maçada, estou a pensar metê-la num filme.

Seria óptimo para si viver numa anarquia.

- Seria bom para todos. A anarquia é uma coisa muito ordenada.

Qual é o seu ideal de sociedade?

- Sou por uma transformação radical da sociedade, por meios violentos. Se pudessem ser pacíficos tanto melhor, mas já se sabe que assim não se vai lá. Vai haver uma nova revolução, mas não nos mesmos moldes das fracassadas revoluções.

Não se sabe é quando.

- Todo o sistema capitalista está agónico, é um sistema autofágico. A revolução será menos classista e, se calhar, serão os próprios ricos _ deixe-me usar esta linguagem simples _ que vão ter de a fazer. O mal estar está perfeitamente instalado na classe dominante. A classe dominada tem os problemas do costume, de sobrevivência, etc; a outra tem toda a estrutura familiar desfeita, os filhos tresmalhados... Se não lhe quiser chamar revolução chamo-lhe, pelo menos, reciclagem do sistema.

Consegue imaginar-se daqui a vinte anos, com ou sem essa revolução?

- Consigo. Imagino-me na mesma.

Há vinte anos imaginava que iria ser o que é hoje, fazer o que faz hoje?

- De maneira nenhuma. Fazia uns filmezecos, sem pretensões nenhumas. Eu não melhorei; os outros é que pioraram. Piorou o cinema. Emergi por desmérito dos outros, não tanto por mérito próprio.

Vai fazer o culto do antigo? Dantes é se faziam bons filmes, escreviam bons livros, compunham boas músicas. Não há coisas que agora se façam que aprecie?

- De um modo geral não. Não vou ao cinema. Gosto de um iraniano, o Kiarostami, até lhe mandei um telegrama a dar-lhe os parabéns pelo prémio [em Cannes]. Na poesia fiquei-me pelo Herberto Helder, e gosto do Joyce.

Nós começámos por falar de um périplo joyciano. Se tiver de procurar a essência de si, como o Ulisses, o que é que encontra?

- O que encontro é uma coisa muito confusa e muito diversificada. O ser humano é múltiplo, tremendamente contraditório e não gostaria de catalogá-lo em termos de Bem e de Mal.

Quem estipula as balizas de Bem e de Mal?

- Como sou evidentemente ateu, sou eu que estipulo as minhas balizas de Bem e de Mal.

Nunca se agarra a nada quando se sente desesperado?

- Agarro-me à Ana! [a namorada, que está ao lado]. E agarro-me a uma garrafa de whisky. Enquanto cineasta é a mesma coisa; só que não me agarro à Ana, agarro-me aos filmes. Não é importante ter uma mente sã; só é importante ter um corpo são. Odeio a ideia de ser imobilizado pela doença.

Tem medo da doença?

- Tenho medo por várias razões. Inclusivamente porque não tenho assistência social, os médicos são uma fortuna, os hospitais, como diria o Baudelaire, são matadouros, e, como tenho medo, nunca adoeço. Apanho umas bebedeiras e no dia seguinte estou bom.

Do que é que tem medo, além da doença?

- Para ser franco, da miséria, da fomeca, de não ter onde cair morto e não tenho medo de morrer.

Tudo isto vinha a propósito das noções de Bem e de Mal.

- Sim. As noções remetem para uma atitude moral, não exclusivamente da esfera pessoal, também toca o cinema. Para mim o cinema não tem nada a ver com a moral, mas sim com o que é sagrado e o que não é sagrado.

O seu cinema, curiosamente, está cheio de rituais. O que é sagrado para si?

- O sagrado é o que toca a criação. Quer seja um filme, quer seja um filho. São os meus limites, a fasquia que não devo ultrapassar. Ultrapassar isso é matar, ou, se quiser, matar-me matando.


Entrevista por Anabela Mota Ribeiro (Dna), 1997

Wednesday, January 28, 2009

E o que é que o cu tem a ver com as calças?

Não é preciso ver programas de humor para andarmos entretidos nesta vidinha. A situação que ontem se passou com este que vos fala (sou eu, para que conste), tem tanto de hilariante, de caricato e de inverosímil que cheguei a pensar em agarrar num comando de televisão, se o tivesse ali, para aumentar o som. E é isto:

estando eu em labor árduo, transportando os meus bens do carrinho de compras para a passadeira rolante de uma caixa do Continente (duas garrafas de vinho, uma cola barata, azeite, carne picada, queijo ralado, dois pacotes de leite, pão caseiro, esparguete, polpa de tomate e manteiga, tudo 15 euros que até nem é muito), quando vejo que o gajo à minha frente era polícia. Estava todo aperaltado com a farda do trabalho, pistola e tudo, e um ar algo constrangido por estar a comprar, além de fraldas, um enorme embrulho de papel higiénico. O gajo era alto e forte e talvez sentisse culpa de não estar, como eu, a levar álcool mas coisinhas necessárias para a criança e para o cu. Até aqui tudo bem, os polícias também o limpam devidamente, nada a apontar, embora tivesse reparado que o papel escolhido não era dos mais meigos para a sensibilidade anal mas ao preço que as coisas estão a gente tem mais é de aceitar e pouco barulho que o respeitinho é muito bonito. Estávamos, portanto, nisto quando do seu rádio vem a notícia: pii pii pii atenção que o BPI foi assaltado, todas as unidades à esquadra pii pii pii.
Era de esperar que o papá dedicado mas, acima de tudo, oficial em serviço e excelente no apoio aos bípedes alheios, saísse dali a correr, sem pagar sem nada, esperando, claro, o apoio inequívoco de todos os outros cidadãos e do próprio caixa - quando o BPI está a ser assaltado, convém que todos nós façamos um esforço, está bem de ver. Mas qual quê! A preocupação maior do nosso agente era procurar pelo cartão Continente! Dado este, veio a pergunta inevitável: "quanto é que já tenho no cartão?" ao que o caixa, competentíssimo na arte, respondeu: "8 euros" e perguntou: "quer descontar?" sendo que o polícia responsável (e prezador da boa higiene, já foi dito) anunciou: "deixe estar, fica para a próxima".
Não fosse o facto de o BPI estar a ser assaltado, esta teria sido uma conversa banal, sem interesse e desprovida de espectacularidade humorística. Não tendo sido pelas razões apontadas atrás, ganhou contornos nunca antes pensados por quem, simplesmente, se desloca a uma caixa de supermercado.
Ele ainda disse mais qualquer coisa mas nessa altura eu já tinha mudado de canal.

Tuesday, January 27, 2009

A estúpida com nome de livraria.

Uma tal de Sofia Buchholz escreveu esta coisa (http://31daarmada.blogs.sapo.pt/2094159.html?page=2#comentarios):

"Acabei de ver a "Grande Entrevista" da Judite de Sousa com o Cristiano Ronaldo. Nunca o tinha ouvido falar mais de alguns minutos. Confesso que até fiquei confrangida de o ouvir. Tive pena do rapaz. Não há ali um raciocínio claro, uma construção gramatical correcta, o mínimo de eloquência. Atrever-me-ia a dizer que aquilo já é iliteracia. E se é assim em português, pergunto-me como será em inglês?!"

Isto pode parecer ingénuo, pode parecer escrito por alguém que, além de ser uma imensa e inequívoca imbecil, acha que do futebol não vem nada de positivo para a sociedade. Pode parecer. Mas não é. Esta arrogância, esta estúpida necessidade de exigência aos outros (afinal, o homem é só o melhor do Mundo naquilo que faz) que não exigimos a nós próprios, fazem parte do mais intrínseco que corre nas veias de grande parte dos bípedes que vêem ser-lhes dada a nacionalidade portuguesa.

Isto não é só mais uma idiota pseudo-pseudo-pseudo-pseudo-culta com manias de superioridade moral, estética ou de conhecimento. Isto é a face mais absurda, néscia, estulta e degradante da nossa pátria ao espelho.

Wednesday, October 22, 2008

Há onze anos apostaria todo o dinheiro em Deco?

«Podia ter chegado num barco atolado de imigrantes ilegais, famintos e desconfiados, que também ninguém teria dado por si. O rótulo dispensava a presença de holofotes, de jornalistas empilhados e comprimidos como sucata em pirâmide, com câmaras no topo. Era ele e outro, também brasileiro, com nomes bissílabos. Vinham para a Luz, mas nunca lá chegariam. O primeiro contacto com um novo futebol, mais agressivo e rápido, e sobretudo muito mais exigente, aconteceria poucos quilómetros a norte, no «satélite».
Mais do que a desconfiança que a sonoridade dos nomes Deco e Caju criava na cabeça das gentes, o próprio clube de onde vinham não era de fiar. Um Corinthians sim, mas da paradisíaca Maceió, em Alagoas, fundado apenas seis anos antes, que não competia, apenas geria os talentos que aí apareciam antes de os redireccionar. Ninguém espera que esse miúdo franzino de 20 anos com aspirações a ser o número 10 do Benfica, e que pisa pela primeira vez a Portela, seja um dia grande figura do campeonato, da Selecção e do futebol mundial. Quem seria capaz de apostar todo o dinheiro em alguém assim?
Primeiro Alverca, com Maniche, Hugo Leal, Diogo, Ramires e Caju. Depois, o Salgueiros, apenas como ponte para algo de outra dimensão. Finalmente, o F.C. Porto - onde Caju o vai reencontrar por um ano, antes de voltar a Alverca -, os títulos, a explosão, a dupla nacionalidade e a chamada de Scolari. Tudo em Deco parecia finalmente fazer sentido, com a bola sempre colada ao pé direito, fazendo vírgulas entre frases curtas, saindo a seguir curvada para dentro, com força e jeito, envolvida num passe ou num remate fatal. Depois, havia mais qualquer coisa. Não se contentava em ser estrela, arregaçava as mangas e também ele era operário.
A verdade é que pouco tempo depois de ter chegado, ainda na Honra, já havia quem sussurrasse O melhor é o Deco! Sabia-se que havia futebol ali, que podia crescer até ser um bom jogador do primeiro escalão. Mais do que isso era um tiro no escuro, um prognóstico atirado para o ar sem algo que o sustentasse. No entanto, essa capacidade de ambientar-se rápido ao novo mundo, como se fosse a sua casa desde sempre, de ir perdendo o sotaque ganho em São Bernardo do Campo, nos arredores da gigante São Paulo, e de ser capaz de fazer parte de um futebol diferente daquele que aprendeu a ver perto de si deram-lhe a dimensão que poucos atingiram. E, afinal, houve desde o início tanto contra si...
Aos 31 anos, e depois do fim precipitado num Barcelona a querer forçar novo ciclo, tem ainda o Chelsea e a Selecção para uma boa recta final. Requintado, parece determinado a ficar por mais algum tempo na memória de todos os que foram adeptos incondicionais desse futebol em que a inteligência e o talento andaram sempre interligados. Por ser como é, por poder ser dez e oito, ou médio direito se necessário, na mesma equipa e com o mesmo valor, o jogo promete ainda ser generoso com ele por mais tempo.
A sul, em Alvalade, já há muito lhe arranjaram um sucessor: João Moutinho. Fisiologicamente parecidos, com idêntica capacidade de entrega no ataque e na defesa, e muito inteligentes em campo. No entanto, com diferentes capacidades de improviso e, infelizmente, de talento. O capitão dos leões terá pensado a certa altura que é Portugal que lhe limita a evolução. Que em Inglaterra ou em qualquer outra liga de nível superior ganhará outra dimensão. A verdade é que lhe falta a diferença para Deco: ser decisivo. O 28 de Alvalade não chegou ao fim da linha, está longe de o ter feito aos 22 anos, mas será que vai crescer muito mais? Ou será sempre este grande futebolista, jogando sempre no limite máximo que os deuses lhe concederam. Afinal, eles não ficaram conhecidos por dividir o talento em partes iguais.»

Luís Mateus, MaisFutebol

Tuesday, October 14, 2008

Hoje, fiz-me sócio do Benfica. Ontem (vi-te no estádio da Luz), é o lugar em que discuto, mais dois amigos, essa coisa de ser benfiquista. E pronto. É isso.

Monday, October 13, 2008

Um caso de bipolaridade

Eu sempre gostei do Quaresma e acho-o um jogador fora de série - em termos de criatividade, acima do Ronaldo, claramente. Não deixo é de criticar aquilo que se vê. E aquilo que se viu, tirando um ou outro lance em que decidiu bem, foi uma atitude estúpida que podia ter valido muito caro à Selecção, se ficássemos em inferioridade numérica e uma péssima decisão nos últimos minutos de jogo, quando decidiu rematar com outras soluções bem mais inteligentes. Há quem defenda a tese imbecil de que "um avançado remata à baliza", como se a solução de passar a bola fosse estúpida só porque se está com a mira apontada. Acho essa teoria das coisas mais aberrantes que já li, vi e ouvi sobre futebol. E continuo a achar, mesmo em peladinhas (nas quais me criticam "Eh pá Ricardo, tu não rematas à baliza, passas sempre!"), que se eu estiver de frente para o guarda-redes, isolado, e tiver um gajo da minha equipa ao lado, o melhor é simular que remato, fazer cair o guarda-redes e meter para o meu companheiro, mas isto sou eu. Aliás, há cerca de uma semana saiu no "A BOLA" um texto do LFL sobre essa temática, referindo-se, na altura, ao Marcelinho da Naval e a uma situação idêntica. Dizia ele, Freitas Lobo, que por vezes ficar mais perto do golo é não rematar. Concordo totalmente. E isso o Quaresma algumas vezes parece não querer ver.

Quanto a ele ser genial, não tenho dúvidas sobre esse aspecto. Até acho que é uma ofensa alguém dizer que o Quaresma não o é.

Saturday, October 11, 2008

Indignação (à atenção do provedor)

Não me pareceu nada bem que o Visconde da Apúlia tenha recebido o prémio Capitão Moura vestido daquela forma. Digo mais: revelou uma péssima noção de como devem ser recebidos os convidados especiais (ainda por cima quando eles nos vêm dar presuntos, que é uma coisa que não se vê muito por aí). Aquele fatinho ridículo e amarelo do Apúlia entrou em feroz contraste com o fato engomado e limpo, capaz e eficaz, do muito mais visconde excelentíssimo senhor Capitão Moura. E subiu-lhe à cabeça, ao apuliense de gema, toda aquela festa circense e mediática - o homem queria, sem o conseguir, passar por engraçado e tudo, o que me chateou bastante, tendo em conta que o normal e justíssimo sucessor do Capitão Moura deveria ser, como é óbvio, o próprio Capitão Moura. Se isto continua assim, escrevo um mail ao Paquete de Oliveira. Este programa é uma afronta aos portugueses limpinhos.

Pergunta-masturbação

Teremos de esperar mais quantos séculos até que alguém se digne a admitir que o João Moutinho, apesar de ser bom, nunca será um grande jogador?

Thursday, October 09, 2008

Bom, bom, mas bom mesmo, está o último post do Bruno Nogueira.

Saturday, October 04, 2008

é como querer nadar sem ter o braço direito

Devo dizer que há já alguns anos que me irrita profundamente aquela ideia parola que os nossos comentadores tendem a vangloriar à punheta que, basicamente, defende que os adeptos ingleses é que são uns gajos que percebem de futebol. E isto porquê? Pois bem, como estes iluminados nos querem fazer crer, parece que os gajos são os melhores do mundo porque cantam mesmo quando a sua equipa está a levar 4 batatas na tromba. Eu, se não fosse parvo, diria que estar a levar 4 secos em casa não é lá grande coisa que me puxe a garganta para delírios vocais. Se eu não fosse completamente burro e mau adepto, diria mesmo que cantar quando a minha equipa está a perder por 4-0 é... estúpido. Mas mais do que a estupidez que se revela nessa espécie de coro da tristeza, é aquela sensação que um adepto burro como eu tem de que os gajos britânicos não estão nada a ser bons adeptos mas a dar uma de civilizados porque em todo o mundo toda a gente fala neles como o exemplo a seguir. E devo dizer, com todo o respeito que gajos bezanos sempre me merecem, que essa atitude é de uma parolada sem par. Eu no ano passado, quando estava na Luz a ver o Benfica enfardar 3 da Académica, estava muito pouco virado para desatar a cantar e a puxar pela equipa. Desconfio até que, se começasse a cantar, alguém ao meu lado puxaria de um cartão de sócio e, como um cartão a passar na ranhura, me rasgaria o cérebro como manteiga quentinha. Viva o direito a estar deprimido.

Friday, October 03, 2008

Urge não chegar aos 80 para não voltar ao 8

Correndo o risco de meter alguma água na fervura, numa altura em que a euforia nos inunda, devo dizer que o principal adversário do Benfica neste momento é o próprio Benfica, a sua grandeza e o estado bipolar com que tendemos todos a ver a realidade do nosso clube. Se a equipa nos faz sonhar? Sem dúvida que faz! Se perspectivamos um futuro MUITO melhor do que aquele que aturamos há 15 anos? Não tenho dúvidas! Mas (e há sempre um mas) talvez seja o momento certo para relembrar o mesmo que se dizia quando os resultados não apareciam: esta equipa e este projecto estão a ser construídos. Tenhamos calma, há ainda muito a fazer. Eu repito que, para este ano, não peço o campeonato, peço, acima de tudo, a clara noção por parte de todos de que no Benfica se trabalha e bem - até agora tenho visto isso. Não peço mundos e fundos porque, em futebol, as grandes equipas não se fazem de um momento para o outro. Tal como esta semana vimos uma equipa personalizada ganhar dois jogos difíceis, certamente aparecerão resultados e exibições menos exuberantes - será nessa altura importante não voltar ao 8, depois deste 80. Relembremos sempre o facto de termos um novo director desportivo, nova equipa técnica e muitos novos jogadores. Basta dizer que ontem a equipa titular tinha 5 novos jogadores mais 2 que entrararam ao longo do jogo. O Benfica parece estar a caminhar finalmente para uma ideia clara, organizada, metódica, inteligente e segura de sucesso, mas é muito cedo para a desmedida euforia. Importa consolidar o jogo da equipa - e nesse aspecto, parece-me que, ofensivamente, o Benfica está mais capaz e mais rotinado do que no sector mais recuado. A defesa ainda não oferece a seguança que qualquer grande equipa do mundo deve oferecer. Os laterais de ontem estão muitos furos abaixo da restante qualidade do plantel, o eixo defensivo continua algo permeável (se Canavarro ou Zalayeta não tivessem tido azar naquele lance da primeira parte, como ficaria o jogo? se Djaló tivesse marcado nos primeiros segundos do jogo de Sábado, o Benfica teria ganho o derby?) e as transições defensivas continuam por consolidar (Amorim, Katsou e Yebda completam-se bem mas parece-me que o grego continua a revelar algumas insuficiências no lugar de "6"). O que eu quero dizer, meus amigos, é que, apesar de toda esta alegria por uma semana de sucesso, sonho, exibições de qualidade e muita emoção e golos, o Benfica está em CONSTRUÇÃO. Se tivermos isto presente, será, primeiro, mais fácil continuar a ganhar e, segundo, quando não ganharmos, saberemos ter a noção de que é o projecto que interessa. Um campeonato é bom, mas só se tiver futuro. Prefiro ganhar 6 ou 7 vezes numa década. Para isso, não me importo de ver, na primeira época, um projecto ser consolidado. Com pés e cabeça.

Thursday, September 25, 2008

Entre a ideologia e a realidade

No Benfica, é chegado o tempo de lidar com um dilema táctico. Por um lado, Quique Flores pretende fazer desenvolver e rotinar um sistema que comporta 4 médios (que, na prática, são 2) e dois avançados. Para isso, opta por jogar com dois alas bem abertos, na maior parte dos jogos, e dois jogadores no miolo que, simultaneamente, defendem e atacam e são responsáveis por organizar e estabilizar o jogo encarnado. Por outro, a questão que se levanta - e que a realidade tem confirmado - é a extrema fragilidade de que o jogo do Benfica parece ficar refém. Os dois homens do meio (Yebda e Carlos Martins) são forçados a encarar a equipa adversária e, especificamente, o seu meio-campo, quase sempre em inferioridade numérica, o que os desgasta e faz com que a organização da equipa se desintegre por volta dos 60, 70 minutos de jogo. Basta lembrarmo-nos dos 4 jogos oficiais do Benfica para confirmarmos esta tendência de desgaste físico destes dois homens e, por consequência, de toda a disponibilidade colectiva. Quique, em recente entrevista a "A BOLA", vem reforçar a ideia de que é este o seu modelo de jogo mas, curiosamente, após a mesma entrevista, fez entrar em Paços de Ferreira um modelo relativamente diferente, "puxando" Amorim para a direita, como interior no apoio ao trabalho defensivo dos dois jogadores do meio-campo (ao contrário do que gosta de fazer, ou seja usar um ala vertical e menos interventivo nos movimentos interiores da equipa), deixando na esquerda, o único verdadeiro extremo, Reyes. A equipa ganhou solidez defensiva, soube subir no terreno com maior certeza e as trocas de bola acabaram por ter maior segurança do que, por exemplo, em Nápoles. No entanto, o espanhol pareceu mais uma vez algo inadaptado aos seus jogadores e algo desagradado com este modelo, uma vez que na segunda parte, quando o Benfica deveria estar a gerir tranquilamente o jogo e não, como se verificou, extremamente pressionado, decidiu retirar os dois melhores jogadores (Nuno Gomes e Amorim), entrando para os seus lugares Aimar (que vinha de lesão e não soube entrar bem no jogo, apesar de pormenores que sempre tem que revelam a sua grande qualidade) e Balboa, um jogador que parece não vir acrescentar nada de novo à equipa, nem como ala ofensivo, nem como apoio aos processos defensivos. A equipa recuou, partiu-se, voltou a ter apenas dois homens no meio (já muito desgastados) e o Paços acabou o jogo com grandes possibilidades de empatar um jogo que, ao intervalo, parecia sentenciado.A questão que deve ser colocada a Quique Flores é esta: a época que está a decorrer serve, essencialmente, para desenvolver e melhorar o seu sistema preferido (442), sendo que os resultados serão os que forem possíveis conseguir, apostando claramente na próxima época para ter sucesso, deixando que nesta a equipa seja rotinada da melhor forma OU terá - como a realidade, insistentemente, grita! - de adaptar as suas ideias aos jogadores que tem e à necessidade que o próprio jogo exige de apoiar o seu meio-campo de outra forma, se não quer usar uma táctica suicida em vários jogos? É que se a equipa do Benfica, no plano ofensivo, parece estar a trabalhar cada vez melhor, em termos defensivos, às vezes dá ideia de defender como se defende nos regionais. Está na altura de Quique Flores submeter a sua ideologia à realidade. Se o fizer, parece-me que pode formar uma grande equipa, com grande futebol e alternativas mais que viáveis para uma época de sucesso ou, pelo menos, para uma que prepare convenientemente o futuro do clube. Definitivamente. Se o não fizer, o público mais imediatista do Benfica pressioná-lo-á até se tornar insustentável a sua permanência à frente do grupo de trabalho. E isso seria uma consequência trágica para o futuro a curto e médio prazo dos encarnados.

Friday, September 19, 2008

As memórias escorrem, como sangue viscoso, por nós abaixo. Primeiro, quase sólidas, fogem-nos devagar, como se quisessem - e pudessem - aparecer-nos ao presente, por uma estranha e mágica e surreal realidade; depois, nas segundas instâncias do pensamento, descem-nos até aos pés como lava irequieta, embora lenta, que vai perdendo solidez montanha abaixo. As memórias, como lava ou como sangue ou como água, escorrem-nos e deixam pedaços de si nas zonas baixas das marés, nos fundos de poços, nas estranhas planícies das noites em branco. Acontece pararmos. Olharmos um resquício de memória junto a uma pedra, num dos vales por onde correu e desaguou uma delas. Ocorre pegarmos-lhe, como coisa inusitada, curiosa e fria. Um meteorito de rememorações passadas, um corpo em decomposição? uma única e possível sobrevivência. Pode ser até que, tal como uma ou mil crianças fazem neste momento, peguemos numa dessas pedras, numa dessas porções deixadas em nós pela correnteza rude do passar das horas e dos dias e dos séculos, e a atiremos à água, na vil esperança de a afundarmos no fundo do fundo do fundo de um oceano. Pode até ser que ela, esguia e persistente, antes de descer aos baixios do mar, saiba repetir-se, em saltos cada vez menos distantes, soltando círculos e círculos que ninguém sabe quando - se - têm um fim.

Monday, September 01, 2008

O diabo anda à solta... e é grunho!

Por mim era cancelar imediatamente o cartão de sócio do animal e impedir a sua entrada no Estádio da Luz... para sempre. Se mesmo numa situação de roubo descarado, nunca entenderia que um adepto entrasse no relvado e agredisse (ou empurrasse, o que queiram) um fiscal de linha, muito menos entendo quando a acção é totalmente despropositada, visto que o referido fiscal de linha não cometeu roubo algum. Animais desta estirpe não devem nunca ser identificados como benfiquistas. Ponto final.
Já agora, uma chamada de atenção para aquela puta que se diz chefe da Polícia: muito ela fala, muito ela discursa e sorri mas, mais uma vez, a desorganização e falta de segurança foram evidentes. A Polícia não tem reuniões com os stewards? Não lhes faz ver o que devem fazer? Como é que um adepto sai tranquilamente da bancada, passeia-se por largos metros do relvado, empurra um fiscal de linha e volta, todo lampeiro, ao mesmo sítio, sem quem ninguém o detenha? E, pior, depois começam a descascar em gajos que não têm nada a ver com o sucedido. Ridículo.

Saturday, August 16, 2008

Faz-me espécie

Portugal é um país simpático. Minto, Portugal é um lugar simpático. Minto, Portugal é um lugar que faz por parecer simpático, não o sendo. É uma espécie de país e é uma espécie de lugar simpático, mas nem é simpático nem é país. É uma espécie. É quase. Podia ser, podia ter sido mas nunca foi nem é. Esteve quase. Morreu na praia e morreu bem.

Conto-vos uma história de muitas deste género que podiam ser contadas:

Estava eu em Moledo do Minho, no topo do, lá está, quase país, perto de outro, esse sim, um país, quando se decidiu ir visitar um país a sério, Espanha. Apesar da cumplicidade linguística e cultural que todos sabemos existir entre a Galiza e o quase país - mais concretamente, entre a quase região, o Minho -, as diferenças, já o sabíamos, são evidentes. Então a história, muito resumida, é assim:

A fome pedia tapas. Não pedia feijões, cozidos, arrozadas, carne à bruta, guisados ou batatada, pedia uns pratos com coisinhas gostosas para picar. Para ir picando. Obviamente acompanhadas por cerveja, que de outro jeito a vida não vale a pena. O cenário era o mesmo de sempre: um bar-cafetaria com um balcão grande de madeira, muitas mesas, máquinas de jogos e vidros para a rua que os nossos irmãos gostam pouco de sentir o bafio das paredes empurarrem-nos para dentro deles próprios (como no quase país). Ocorre que, além dos bípedes que me acompanhavam, passeava-se, baixinha, uma quadrúpede de barba branca, que infelizmente (ela já o sabe) não pode entrar nos sítios de repasto dos donos - coisas de humanos. Como desde sempre estive habituado a passar temporadas largas entre os irmãos do outro lado do mundo, entrei, disse quantas pessoas eram e perguntei se fazia mal que aquele ser anão ficasse quietinho aos nossos pés. Como é óbvio, pressentindo o galego uma boa maquia entre tapas, cervejas, gelados e tudo o mais que aparecesse à vontade, fez um ar quase escandalizado e disse: "No, nada, el perrito puede venir". É lógico que já se esperava aquela reacção, mas nunca deixo de ficar surpreendido com a forma desprendida como esta gente vive. A vida e as leis obtusas. O "perrito" entrou. Ficou sossegado, enquanto nos atirávamos ferozmente a tortillas, presunto, espargos e croquetas (tudo - já foi dito - regado a cervejinha, claro está). Findo o banquete, estava na hora de fumar. No quase país, estava na hora de ir rapar frio juntamente com dois ou três desconhecidos, que bateriam o dente e falariam, olhando para o chão, como se estivessem na última hora das suas vidas: "é o vício". Não ali. Bebido o último gole de cerveja, levantei-me, fui até ao balcão e perguntei, ainda com aquele medo que temos de uma resposta ríspida do tipo "não há moedas, caralho!", se me podia trocar. Recebi 20 dentes brancos de volta e uma moeda de 10 euros em trocos. Gracías, amigo. Cheguei à máquina e estava pronta a receber moedas. Não, não precisei de pedir a um rancoroso qualquer que me fizesse o favorzinho, se pudesse ser faz favorzinho, que me ligasse a máquina. Pus as moedinhas mas pelos vistos pus moedas a mais. Pois é. O Lucky Strike custava 2.65. "Nós vivemos mesmo bem", pensei eu. Fumados uns cigarros, com mais cerveja à mistura, conversa e bem sentadinho, sem frio, numa cadeira almofadada, lá saímos do bar e do país. Não sem antes parar para encher o depósito do carro. Ah sim, sem chumbo 95 a 1.20. Realmente vivemos como lordes, devia ter pensado, mas não pensei. E lá voltei ao quase país com gasolina galega.

Monday, June 30, 2008

Somos os melhores? Somos. Mas ganhámos alguma coisa? Não. Mas somos os melhores? Somos.

Estou farto de treinadores-pais, de treinadores que, se for preciso, dormem com os seus jogadores para eles não fazerem chichi na cama; estou farto, em suma, de treinadores com a velha escola do «balneário». Quero gente competente a liderar tanto o meu clube do coração como o meu país. Para ganhar, não bastam rezas, santinhas, "salir a ganar", caravaggio, Roberto Leal ou Tony Carreira, como é óbvio para qualquer bípede. Para ganhar, é preciso... sim, isso mesmo, competência. Nem Scolari, nem Camacho revelaram tê-la para que saíssem alguma vez vencedores nos seus projectos portugueses. Um treinador não pode - que me desculpem os scolarianos, mas simplesmente NÃO PODE!!! - levar uma lição de como defender por parte da Grécia, sem ter planos ofensivos alternativos, sem ter uma ideia que fugisse do caos organizado que os próprios jogadores construíam, por sua iniciativa e qualidade, em campo. Não chega rezar a santas nem acreditar que um guarda-redes, por ter defendido penalties em eliminatórias importantes, serve, ad eternum, a uma Selecção. Não chega ir à final de um Europeu, quando esse Europeu é em Portugal e o adversário é uma equipa chamada Grécia, que defendia bem mas que tinha limitações evidentes. Não, não chega. Não me venham com os resultados de Scolari. Que resultados? Aragonés tem resultados; foi criticado por várias escolhas (entre elas, a mais polémica, a questão Raul) mas apresentou resultados no fim. E agora? Calaram-se as bocas? Claro que calaram. Quem ganha merece calar todas as bocas do mundo. Perder com a Grécia, em casa? Ser fraco, fraco, fraco a ler o jogo? Alguém viu os programas que foram dando antes do Euro, na SIC, sobre as campanhas de 2004 e 2006? Alguém viu aquele homem a falar antes dos jogos da Grécia (final) e da França (Mundial) para os seus jogadores? Estou convencido que até o Madaíl terá pensado: "isto é um treinador que estudou os adversários ou um pastor do Reino de Deus?". Absolutamente ridículo.
Não, meus amigos, no Benfica largámos um daqueles treinadores com teias de aranha e "cheiro a balneário" e trouxemos um jovem, que vê o futebol para além da proporção que conseguirão atingir as manchas de suor debaixo dos braços. Façamos, por favor, o mesmo na Selecção. Já chega de prestidigitadores. Queremos um cientista.

Wednesday, June 25, 2008

A verdade inconveniente

Às vezes fico com a sensação de que os benfiquistas ainda não se deram conta de que o Benfica já não é um dos mais fortes clubes europeus. As exigências são tantas, que eu dou por mim a perguntar-me se há algum russo ou um Sultão do Brunei por aí, a financiar o clube e a permitir aos adeptos legitimidade suficiente para que possam pedir grandes jogadores de top mundial e que possam exigir ao clube que os melhores do plantel fiquem.
Meus amigos, o Benfica está em crise. A um grande jogador, não é minimamente interessante vir para o nosso clube. O campeonato é fraco, os ordenados são baixos e o Benfica que nós vemos quando nele pensamos não é o Benfica que esses jogadores vêem. E, espantem-se, eles é que têm razão! O Benfica, no momento actual, é um clube de segunda linha europeia. Meus amigos, nós acabámos a merda do campeonato português em 4º lugar. Ouviram? Em 4º lugar!!! Quem é que está interessado em representar uma equipa que fica em 4º no campeonato português? (pensem lá um bocadinho) Pois, os medíocres e os bonzinhos. Se conseguirmos bonzinhos, já temos muita sorte. Espanta-me a crítica incisiva a tudo o que mexe, como se fosse possível poder negociar com o homem do momento, por exemplo, Arshavin ou ir a Londres buscar o Joe Cole ou ir a Milão trocar um nosso pelo Pirlo. Isso é para outros campeonatos! Nós, se queremos voltar ao patamar em que já estivemos, temos de ser inteligentes e ter um plano (que é coisa que ainda não percebi se há neste projecto de Rui Costa e Quique; espero para ver). Um plano que procure apostar nos jovens de qualidade que temos (e temo-los, não duvidem), juntamente com um bom departamento de prospecção, que nos faça aproveitar mercados menos explorados e com bons jogadores. Por isso, não devia ser de espantar que jogadores desconhecidos para nós acabem no Benfica - até pode ser positivo; caso tenham qualidade, significa que o Benfica procura alternativas visto que não tem dinheiro para contratar os que toda a gente já conhece de trás para a frente (Yebda poderá ser um desses jogadores; como Binya e Sepsi o foram no passado).
Depois há o outro problema: a pressão dos adeptos leva a que quem está responsável pelo Futebol (neste caso, Rui Costa) sinta a obrigação de trazer nomes sonantes para o clube, muitas vezes em detrimento de jogadores para as posições que estão deficitárias. Eu só oiço e leio e vejo falar em «10» e atacantes, mas alguém lê ou vê ou ouve falar num central de qualidade? Num lateral direito de qualidade? Num extremo direito de qualidade? Ninguém. Porque isso não vende. Nós andamos a fazer críticas a quem trabalha no Benfica por aquilo que lemos, vemos e ouvimos nos órgãos de Comunicação Social. Alguém dizia que estranhava que o "Record" tenha posto hoje a agenda de Rui Costa na capa do jornal. Eu pergunto: que fiabilidade tem aquilo? Até parece que o "Record" nos tem dado motivos, ao longo dos anos, para acreditarmos no que eles escrevem. É que é exactamente esta bipolaridade de que todos sofremos que nos faz analisarmos mal o que se vai passando no clube: umas vezes, dizemos que é tudo mentira o que está nos jornais; outras, para criticarmos opções, dizemos que estamos a ir pelo mau caminho, baseando a nossa análise apenas e só no que vemos escrito em jornais que nos não merecem qualquer visão de qualidade ou isenção.

É um período em que importa esperar para ver. Mas ver mesmo, ver os jogadores que se sentarão na cadeira numa conferência de imprensa, ao lado de Rui Costa e Quique Flores. Não é analisar com base em jornais mentirosos e intriguistas. Eu espero para ver. Porque é o que me resta, por uma questão de respeito por quem trabalha e porque sei que, neste momento, ser director-desportivo do Benfica não deve ser uma tarefa nada fácil. Andar por aí a apregoar a História, a Glória, os títulos do Benfica e tentar encobrir a realidade actual, tentando convencer um bom jogador, não é, seguramente, tarefa fácil. Por isso, Rui, até prova em contrário, estou contigo.

Friday, June 20, 2008

Ponto final, parágrafo.

Que o Ricardo não tem qualidade nem categoria para jogar na Selecção, já toda a gente sabe; que o Ricardo iria sofrer golos decisivos pela sua incompetência, já toda a gente esperava e era uma questão de tempo. Mas eu não posso concordar com este atirar o Ricardo para uma fogueira que comunicação social e opinião pública decidiram fazer. Alguém, no seu perfeito juízo, é capaz de achar que os 3 golos são exclusiva responsabilidade do GR? No primeiro, quem é que não travou Podolsi? Quem é que deixou o Schweinsteiger cruzar metade do campo, desde a ala até ao poste mais distante para aparecer sozinho? No segundo, alguém marcou Klose? No terceiro, apesar de empurrado, Paulo Ferreira chegaria àquela bola? Marcação entre a bola e o jogador? Não deveria ser entre o jogador e a baliza? Sim, é evidente que se fosse um guarda-redes mais competente, pelo menos uma das 3 salvava, mas não me venham com merdas, não se descubra agora o bode expiatório que serve para expiar todas as nossas frustrações.

Já agora, e Scolari? Sabe o que são bolas paradas? Sabe ver jogos? Sabe brincar com papelinhos com as alturas dos jogadores, mas, pelos vistos, não sabe preparar uma equipa para estar alertada para essa mesma altura adversária. É que isto era tão expectável, mas tão expectável - bolinha parada, pelo alto. Estava tão visto e foi o que aconteceu. Uma equipa que tem dificuldade nestes lances tem de ter, ao menos, o máximo de concentração. Nem isso.

Scolari sai pela porta pequena. Não sou ingrato - acho que fez um bom trabalho. Mas estou muito longe de embarcar nos endeusamentos que alguns fazem do brasileiro. Perder uma final contra a Grécia, em casa, é uma mancha grande demais. Não perceber minimamente o que é o jogo (o que nos custou eliminações, sempre), é uma mancha grande demais. Ser arrogante é uma mancha grande demais. Ter anunciado que saía, depois de ter dito, armado em grande apaixonado por Portugal, que quando foi o Benfica a chamá-lo antes do final do Euro ele teve de, imediatamente, recusar, é gozar connosco. Depois de ter dito que não queria jogadores a pensar em contratos, trata ele do próprio contrato e vem dizer que foi porque não lhe deram mais dinheiro. Tudo bem, cada um é livre de ganhar o dinheiro que quiser, só não venha armado em sentimental (e não devia ser tão pouco que ganhava na Selecção) porque nós não somos parvos. Depois do seu anúncio, perdemos duas vezes. Curiosamente ou não.
Vai muito bem. Já é tarde, até.

Ricardo? É medíocre. Mas quem é que lhe deu a titularidade indiscutível desde 2003?

Wednesday, June 18, 2008

Li esta frase no Estado Civil:

«nessa altura ela ainda tinha um corpo e não era, como agora, apenas uma voz».

É bonita, não é?


Saturday, June 07, 2008

Portugal -2 Turquia -0




















- Quero agradecer humildemente aos factores ocasionais que fizeram com que o Pai e a Mãe de Deco mandassem uma foda. Assistir ao futebol do produto dessa cópula tem sido das coisas mais saborosas que na minha vida tenho visto.

- Agradecer também ao coito entre Pai e Mãe de Bosingwa, Ricardo Carvalho e Moutinho. Humildemente.

- Agradecer a Petit. Que surpreendeu todos com a sua forma espectacular!

- O lance do segundo golo é a inteligência em movimento. Obrigado Moutinho.

- O Cristiano - reafirmo - está cansado. Além disso leva com 3 e 4 de uma vez. Ainda vais a tempo, puto. Mas se não fizeres um grande Euro, a gente perdoa-te. Uma época brilhante.

- Quando Pepe se antecipou a meio-campo, no lance do primeiro golo, a jogada tinha o cheiro do golo, não tinha?

- Bom jogo do Nuno. Uma assistência e muito azar nas duas bolas ao poste e trave. Que faça um grande Euro e seja vendido, é o que desejo.

- Gosto de Meireles. E gosto de Paulo Ferreira.

- Rui Costa, sem falar em basculações, esteve bem a comentar o jogo.

- "Oh what a magical right foot Deco has" - gajo da BBC Sports

Depois de tudo isto... ainda não ganhámos nada. Parem lá com os directos. A TVI é ridícula.

Friday, June 06, 2008

O estilo não é tudo mas ajuda

«O estilo não é tudo, como quer a frase batida, mas ajuda. José Mourinho sabe que o essencial é dirigir bem uma equipa, mas sabe também que algum acessório (o tal estilo) cai bem. Daí que ele trabalhe o acessório. Deixem-me lembrar um episódio acontecido na segunda-feira. O treinador do Roma, Luciano Spalletti, foi convocado a Paris por um representante de Roman Abramovich. O encontro não passou deste diálogo: "Fala inglês?", perguntou o enviado do patrão do Chelsea. Respondeu, o italiano: "Bem, quer dizer..." Não lhe pediam que declamasse Tennyson, mas que soubesse dizer a Drogba: "Me, mister. You, forward." Tendo-se atrapalhado, Spalletti perdeu o convite da sua vida. Dois dias depois, José Mourinho, em Milão, deu o espectáculo que se sabe em italiano. Até meteu uma ou outra palavra em dialecto lombardo. Tudo encenado em algumas semanas de aula em Setúbal. Estilo mostrado, agora até pode fazer só gestos, que é a melhor maneira de falar italiano.»

Ferreira Fernandes, "DN"

Friday, May 30, 2008

O Debate Quinzenal

A tarde estava triste. Não chorava mas envolvia-nos com aquele bafo frio de nuvens densas, a que é costume chamar-se de "um dia de merda". As pessoas, no entanto, pareciam não estar preocupadas. Afinal, o dia era de Debate quinzenal! Logo muito cedo começaram a chegar à Praça de São Bento os costumeiros vendedores de cachecóis com as famosas imagens da Assembleia e as bandeiras a vermelho, com a cara do melhor jogador da casa: José Sócrates, exímio driblador de questões incómodas e maestro na arte de, no semi-círculo de discussão, falar mais no que as equipas adversárias não fizeram no passado do que debater os assuntos da sua própria equipa - um génio com a gravata ao colarinho. Confesso que estava nervoso. Era a minha primeira experiência na "Casa da Democracia" e tinha sérias dúvidas sobre as prestações de António Pereira Coelho e de Ribeiro Cristóvão. Sobre o primeiro, a minha inquietação maior residia em saber se seria capaz de servir de tampão às transições económicas a que, muito provavelmente, estaria sujeito por parte da bancada adversária; já sobre o segundo, questionava-me se seria homem capaz de funcionar, em apoio, com profundidade na hora de assistir o nosso grande goleador. Para acabar com o nervosismo, eu e uns amigos, empolgados pela multidão eufórica e por uma sede indesmentível, estacionámos ao pé de uma barraca de cerveja e ali ficámos, em alegre cavaqueira, até perto do início da contenda. Estava um ambiente algo conturbado: viam-se, ao longe, os primeiros adeptos socialistas e, não fosse a imediata intervenção da autoridade, teríamos saído dali todos à batatada - continuo a dizer que as Juventudes em nada dignificam a Política, são bandos de delinquentes sempre em busca de motivos para a violência. É certo que apoiam, que gritam muito, que têm barba e que têm megafones, é certo também que, na arte da demagogia e ignorância mais suja e mais baixa, eles são peritos - afinal, estão bem instruídos desde muito novos, logo que entram nas faculdades. Por mim, deixava a política entregue aos adeptos, apenas e tão-somente aos adeptos apaixonados pelas causas; os que se sentam nas tribunas do Parlamento, não gritam e são civilizados.
Quando faltava meia-hora para o debate, acabámos a cerveja de um trago e dirigimo-nos para a entrada. Como tínhamos bilhete, estávamos tranquilos e não havia motivos para preocupações, certo? Errado. Hoje em dia, já não se pode ir à política sem que sejamos apalpados por todos os lados e olhados com descrença por energúmenos de coletes fluorescentes, como se fôssemos alguns criminosos que decidiram ir ver política, sem outro intuito que a violência gratuita. Senti-me indignado! Para além da normal apalpadela, ainda me retiraram dos bolsos um isqueiro que o PSD de Abrantes me tinha dado há mais de 10 anos, o mp3 que tinha uma música cubana sobre o "Comandante" e a fita no cabelo por revelar - nas palavras do energúmeno e cito - "razões suficientes para uma batalha campal, devido à cor alaranjada". Bom, lá entrei sem isqueiro, sem mp3 e com o cabelo desgrenhado, na esperança, porém, que o debate valesse a pena e pudesse esquecer mais uma atribulada entrada no semi-círculo do poder.
Chegados, o mesmo de sempre: alguém estava sentado na minha cadeira. Blá, blá, blá, "o seu lugar é na tribuna em cima do Luís Fazenda", "não é nada, é perto do Portas", "é sim, veja, A 22, lugar 18, tribuna bloquista". Lá saiu o barbudo, com cara de quem não comia, não dormia e não f... ingia há uns bons meses e eu, finalmente, pude encostar-me e esperar o espectáculo. Meus amigos, e que deprimente foi! Sócrates, na zona central, felizmente não fez um único passe a rasgar a bancada da direita; sempre em movimentos circulares, atirava para trás, grunhia para a frente, voltava a meter a bola no passado, chegava-se à entrada do semi-círculo direito mas logo recuava e voltava a empatar o jogo. Do lado da nossa equipa, um jogo de cintura assinalável; muita táctica, muito empolgamento, muito sorriso irónico, mas política... nem vê-la. Parecia que nenhuma das duas equipas queria ganhar. Absurdo! O mais interessante da contenda foi observar como anda o "Sistema" por estes dias em Portugal. Meus amigos, a arbitragem foi escandalosa, do princípio ao fim! Jaime Gama, que já me estava atravessado desde aquela ida a um mercado, em que não beijou nenhuma das peixeiras, foi igual a si mesmo: gritante desigualdade de critérios, autoritário em demasia com os nossos e caseirinho como sempre. Há um lance no debate que não deixa dúvidas a ninguém: quando Pedro Santana Lopes se preparava para rematar contra a baliza de Manuel Pinho, atirando-lhe com um remate em "os portugueses não têm dinheiro para comer", aparece Pedro Silva Pereira, já na primeira bancada à entrada para o átrio, que ceifa o nosso líder parlamentar com um "não diga mentiras, pá!". Punições? Nada! Nem um "Ministro da Presidência, estamos na Assembleia da República", quanto mais um "Pedro Silva Pereira, faça o favor de abandonar o Parlamento e ir tomar banho mais cedo". Escandaloso! Mais tarde no debate, já perto do fim, outro lance em que Jaime Gama, arguido no processo "Apito socrático", mostrou toda a sua tendência para a equipa da casa: estava Alberto Martins a gastar tempo, tecendo loas infinitas ao goleador José Sócrates, quando do seu lado direito um seu companheiro de bancada se vira e diz: "muito bem, muito bem", aplaudindo, meus amigos, aplaudindo! O que fez Jaime Gama? Fingiu não ouvir nada e foi complacente: "faça o favor de terminar, deputado Alberto Martins". Se isto não é um roubo de Parlamento, então não sei o que é! Muito triste. Assim não vale a pena vir à política. Se é para isto que sofremos e gastamos dinheiro, quando podíamos ter ficado em casa, confortavelmente a ver o debate pela televisão, então não vale a pena.
Quando acabou o debate, ficámos algum tempo a olhar no vazio - com aquela cara anestesiada de quem acaba de ver um debate de merda e não ganhou - e à espera que os adeptos da casa saíssem. Para meu espanto vejo, no interior do semi-círculo, Sócrates e Santos Silva numa galhofeira pegada sacarem de um cigarro e começarem a fumar em pleno terreno de debate. Eu, que tinha ficado sem isqueiro e farto de andar a fumar ao frio, sempre que me decido a sair de casa e quero - veja-se a heresia - ir comer fora, questionei o segurança que, com um ar sábio e algo arrogante, me respondeu: "Devem ter fretado a Assembleia". E eu tudo bem.

Sunday, May 25, 2008

Isto é bom. Tão bom que é crime não ler. Dá 300 anos de ignorância. Com bom comportamento, talvez chegue metade da pena. Mas só em Portugal. Ou no Brasil.

Eh pá um espanhol... mas em bom.

Com um treinador chamado Flores, parece-me que tanto o Nuno Gomes (maria amélia) como o Di María têm razão para sorrir: a cumplicidade feminina com o treinador fá-los-á titulares, com toda a certeza...

Mais a sério: acho que foi uma boa escolha. E, acima de tudo, gostei do discurso. Faço a tradução de treinadorês-realidadês: "Ó meus estúpidos e imbecis adeptos de um grande clube que está em ruínas: vamos trabalhar muito e bem para sermos vencedores mas, NÉSCIOS e broncos, vocês têm de perceber, nessas cabeças de atrasados mentais, que estamos num processo de criar uma grande equipa, com tempo e competência. Por isso, filhos da puta boçais, vamos ter calma e se não ganharmos este ano, ganharemos nos próximos. Importante é que vocês se deixem de merdas e, em vez de serem estúpidos e pedirem a minha cabeça nos primeiros meses, ganhem inteligência e acreditem neste projecto."

Eu gostei. Acho que, pela primeira vez na História do Benfica, alguém chegou e disse: o primeiro objectivo do Benfica, para este campeonato, NÃO é ser campeão. E isto, no Benfica, como se sabe, pode ser o primeiro indício de que seremos campeões.

Força Flores!

Friday, May 23, 2008

O escriba que jogou com Deus conta-nos tudo...






T
wenty years ago today the hand of God smote England

My entire qualification for writing this column is that on that day, at that time, I was there. And I

must say that I was bored stiff because we couldn't get a grip on the match. When we wanted to play fast we were inaccurate, when we wanted to be accurate we were tedious. Eleven functionaries on each side trying not to make a mistake.

On a day like that nobody expects a visit from history, but in that office full of bureaucrats there was one crazy man capable of anything. A crazy Argentinian, to boot. It is important to consider the nature of that person because, from that day on, Maradona and Argentina became synonymous. We are talking about a country with a clearly extravagant relationship with football, a country which made a deity of a footballer with a decidedly extravagant relationship with football. And that afternoon, which began so boringly, Maradona made extravagant through football and through Argentinian character.



Divine intervention

It all began with a long slalom, which was Maradona's natural way of running with a ball. Just before he reached the area, he found only opposition legs in his way and, seeing no way forward, knocked the ball up to me and looked for the return.

The problem I had playing with Diego as a team-mate was that he turned you into a spectator and, when he passed you the ball, it took a moment to remember that you were like him - a footballer. Well, perhaps not like him, but a footballer none the less.

The fact is that when I woke up, I shook a leg to try to play the one-two but did it so unskilfully that the ball was knocked forward by my marker. Looking at it in perspective, it was a smart move on my part because if I had touched it Maradona would have been offside. The fact is that nobody recognised my singular contribution, partly because I fell to the ground so clumsily that it embarrasses me to remember.

Fortunately, the eyes of the people were not on me. Because from the ground myself, and the rest of the world, from wherever they were, saw that ball rise in slow motion and then begin to come down on the edge of the six-yard box where Peter Shilton and Maradona went to challenge for it in the air. There something happened which I couldn't understand but which was called a goal and had to be celebrated as wildly as such an unpleasant match, a World Cup, England deserved. Maradona ran and celebrated without much conviction, as if his cry contained a doubt within. Strange goal, strange cry - I still didn't understand much until I got to the huddle and found out why.

From my position I suspected that Diego could not have reached up there with his head but at no point did I see his hand, nor God's. Any ethical scruples? Twenty years on we can have them, but at that moment we only felt joy, relief, perhaps a forced sense of justice. It was England, let's not forget, and the Malvinas were fresh in the memory.

In the days before the game I said that we had "a good opportunity to confound the idiots" but that was just playing the intellectual. When emotions come into the equation, nearly all of us are idiots. Also we shouldn't forget that we were Argentinians, representatives of a country that rationalises with the word "exuberance" what in other places is called cheating.



The other goal

The office was now turned upside down but the crazy man had only just begun. Shortly afterwards he received a very difficult ball in the middle of the pitch with his back to goal. He turned, took off and got into a series of tight scrapes from which he escaped perfectly.

I was accompanying him level with the far post as if I were a television camera tracking him. Diego assures me that he meant to pass to me several times but there was always some obstacle that forced him to change plans. Just as well. I was dazzled and I thought it was impossible (it still seems that way to me) that in the middle of all those problems he would have had me in mind.

If he had passed me the ball as it seems Plan A called for, I would have grabbed it in my hand and applauded. Can you imagine? But let's not deceive ourselves, I am convinced that Diego was never going to release that ball. Throughout those 10 seconds and 10 touches, he changed his mind hundreds of times because that's how the mind of genius in action works.

That celebration that put intelligence, the body and the ball in tune was an act of genius - but also in the most profound way, in footballing terms, of being Argentinian. What Maradona was doing was making Argentinians' football dream a reality: we love the ball more than the game and, for that reason, the dribble more than the pass.

When the ball went into the net I knew, in that instant, we were present at a moment of great significance: Maradona had just put on Pele's crown. Aware of the historical moment in which I was living, I did something that humanity has still not recognised. I, ladies and gentlemen, took the ball out of the net where Maradona had put it. The focus, fortunately, was still elsewhere. In fact, 20 years on, the ball keeps going into the net time and again in the memories of those who love football . . . and there was me thinking I'd taken it out. Jorge Valdano


Sunday, May 18, 2008

O tipo que vinha salvar o futebol português

Um homem que está em vários cargos - e que, portanto, tem de falar sobre vários assuntos - está muito bem e muito protegido. Tendo de falar sobre vários assuntos, não fala em nenhum. É a velha conversa do tipo que fala e não diz nada. Mas este leva aura de salvador do futebol português, dizem eles. Quem é que diz? Pois, os mesmos de sempre. Diz-se que veio revolucionar o futebol português, que, finalmente, trouxe alguma verdade à mentira que grassa(va) por estes meios desportivos. O que é que ele fez até agora? Atirou com o Boavista para a segunda divisão (sem que o Marítimo, que, segundo as leis, cometeu as mesmas ilegalidades, fosse punido de igual forma) e castigou o clube corrupto com 6 pontos (num ano em que são totalmente irrelevantes para o contexto), igual punição que teve o Belenenses por jogar com um jogador que não podia jogar. O Loureiro salvador? Deixem-me rir. É mais um agarrado aos tachos. E consta que nem sabe cozinhar...

Monday, May 12, 2008

Obrigado Rui... e Léo.

Acabo de chegar do Estádio. Ainda trago comigo a mistura de sentimentos que este dia, este jogo, esta despedida me trouxeram. Se, por um lado, assisti a uma celebração de um fantástico jogador, e o seu fim de carreira, por outro não param de assaltar-me as imagens a que, no fim do, jogo assisti. Imagens essas de um contraste absurdo, dignas, claro, de tudo o que o futebol pode oferecer: de Rui Costa, idolatrado até ao âmago por toda aquela gente, aplaudido, gritado o seu nome, cantadas as suas músicas mas também de Léo, de tronco nu, no meio do relvado, sozinho, encaminhando-se, a passos curtos, para o balneário. Não deixei de pensar - e ainda estamos para saber se será, de facto, assim - que aquela também era a noite de despedida do brasileiro e fiquei triste. Fiquei triste porque Léo, no jogo de hoje e quase sempre nos 3 anos que representou o Benfica, foi sempre o elemento que mais correu, mais quis vencer, mais lutou, menos erros cometeu. Durante estes 3 anos e hoje, no jogo de hoje, foi ele, como sempre, dos que mais carrega aquela camisola com orgulho.
Falo-vos deste contraste e não quero, de modo algum, ferir susceptibilidades: basta dizer isto: apenas e tão-só isto: Rui Costa foi e é o maior ídolo que eu tive, enquanto jogador benfiquista que eu vi jogar. Não pretendo "ensombrar" a noite de despedida do Maestro; quero, antes, deixar-vos com estas duas imagens, tão díspares, que hoje vi no Estádio da Luz. Para que pensemos. Pensemos no valor do passado e no respeito, admiração e memória que deve sempre haver num clube como o nosso, o glorioso, mas pensemos também que sem ambição pelo futuro, sem critérios definidos baseados na competência, no profissionalismo, na real valia de quem nos representa, seremos "apenas" um glorioso clube que já foi.

Tuesday, April 29, 2008

Há coisas muito fodidas nesta vida. Claro que há outras mais filhas da puta que estas, que são só fodidas, mas ainda assim... puta que pariu. Claro que a perda, a tristeza, a puta da nostalgia e a incompreensível morte são de um gajo se atirar pela janela, não fosse a janela ter uns olhos grandes de 8º andar, mas há coisas mais pequenas, menos evidentes, que nos fodem o juízo. Isto a propósito daquilo que ontem vivi, na minha própria casa. Tudo por culpa da filha da puta da preguiça. Ora bem, o caso é o seguinte: chegado a casa num final de tarde, deparo-me com a estúpida realidade de não ter absolutamente nada para comer. Não, não, não havia latas de atum, nem esparguete, nem sequer um pão castigado pelo tempo que desse para umas torradas mais duras que duras. Não entendeste leitor, não, nem tinha óleo nem douradinhos nem ervilhas nem favas nem uma merda de pacote de arroz; nem leite nem salsichas nem a puta de uma bolacha ressequida que esperasse ansiosa, dentro de uma caixa de biscoitos, atrás de atrás de atrás de uma merda qualquer na cozinha. Absolutamente nada. Entendeste? Mas sabes o que é mais grave, leitor? É que eu tinha uma coisa na cozinha: preguiça. E a puta fez o meu estômago roncar até não poder mais. Depois de sofrer estupidamente, deitei-me. Há gajos muito estúpidos. Alguém avise o meu cérebro que eu já sou adulto, se faz favor. Tenho 26 anos e tal, a meio caminho dos 27. Isto é idade para ter, pelo menos, algum amor ao bem-estar. E ódio à preguiça filha da puta.

Friday, April 25, 2008

Reler

Não há muitas formas de entender que envelhecemos. Mas há algumas. Poucas. Dessas, a que mais gosto, talvez por achá-la menos dolorosa e mais, digamos assim, artística ou bonita ou poética, é a forma que se revela nos livros. Nas linhas que sublinhámos nos livros. As frases que achámos de tal maneira perfeitas que tivemos de encontrar um lápis ou uma caneta e sublinhá-las. Com muito devoção, simplesmente sublinhá-las. E deixá-las ali, entregues e à espera de um novo leitor que chegue, ávido e sedento de leitura, àquelas mesmas palavras que nós um dia, num dia de chuva ou num dia sem chuva, achámos perfeitas para serem sublinhadas. Às vezes, e talvez demasiadas vezes, o leitor que chega é o mesmo leitor que partiu. Nós. E olhamos as linhas sublinhadas, perguntamo-nos a razão, tentamos descodificar dentro de nós o leitor antigo e procuramos compreender o que fez esse mesmo leitor amar de tal forma essas palavras para que as tivesse sublinhado. Raramente compreendemos. O leitor que as leu, as amou, as sublinhou, as devorou é já um leitor que deixou de nos pertencer. É nesse momento que envelhecemos e temos noção disso. Mas de uma forma tranquila, quase ternurenta, minto, ternurenta, compassiva, paternal até. Nasce-nos num lado da boca um esgar de afecto e passamos as linhas em busca de outras linhas. Talvez cheguemos a um ponto, a uma frase perfeita e voltemos a procurar por um lápis ou uma caneta, e sublinhemos, da mesma forma que o leitor antigo, outras linhas que o outro leitor não viu ou não quis ver ou, melhor do que tudo, não soube ver porque não lhe eram destinadas. E rimo-nos dos maravilhosos momentos que o leitor antigo deixou escapar, muito provavelmente – pensamos nós – por ingenuidade, por imaturidade, por desleixo, até por preguiça. Mas há sempre um novo leitor, que é mais velho, que vai rir de nós e das coisas que sublinhámos. Há sempre um novo lápis ou uma nova caneta que irão prolongar as mesmas linhas, descobrir outras, inventar novos momentos perfeitos no livro. E a vida, como a leitura, nunca pára para sublinhar por cima.

Wednesday, April 23, 2008

Do blogue "Benfiquistas desde pequeninos", um texto lúcido sobre o Benfica, escrito pelo escriba Pelicano:

«A Manifestação

O Sport Lisboa e Benfica é, sem sombra de dúvidas, um clube sui generis.
Começou por ser fundado nos fundos de uma farmácia. O seu principal promotor e entusiasta exerceu todas as funções possíveis e imaginárias excepto aquela que lhe seria mais obviamente destinada, a de Presidente. Um clube de futebol, sem campo de futebol, que se juntou a outro que possuía um campo mas não tinha equipa.
Mais tarde, poucos anos depois da edificação de um campo magnífico para a época, vê-se expropriado do seu estádio devido à construção de uma auto-estrada em troca de um montante muito inferior ao recente investimento e de promessas ainda hoje por cumprir.
Uns anos depois, venceu a taça latina - embrião da taça dos campeões europeus, no único ano, em 8, que lhe foi possível participar.
Uns anos depois, torna-se definitivamente o maior clube português devido à superioridade avassaladora em relação aos seus adversários durante 2 décadas. Para a história do futebol, ficou a conquista de duas taças dos campeões europeus e a presença em mais 3 finais da mesma competição em 8 épocas apenas.
Uma destas finais perdidas foi disputada no campo do adversário e outra no país de quem o derrotou. Numa delas, jogou com 10 jogadores e com um defesa-central a guarda-redes porque ainda não eram permitidas substituições.
Pelo meio, foi a única organização do país a ter eleições livres em pleno período fascista, relegando para segundo plano as proveniências sociais dos seus associados e privilegiando o benfiquismo de cada um.
Muitos anos mais tarde, sucederam-se os casos de puro espólio ao nível das arbitragens beneficiando um adversário directo. Os seus dirigentes foram provada e repetidamente alvos de intimidações e até agressões de capangas a soldo do porto.
Os anos passaram e o Benfica foi entrando numa lenta sportinguização, processo esse, que vai tomando forma cada vez mais visível. Desde a construção de uma capela porque a esposa de um presidente assim o desejava à intimidação física de associados em assembleias gerais a mando da direcção em exercício de então, parece que tem acontecido de tudo.
A campanha "Fica Amaral", a "Operação Coração", a destruição de uma equipa campeã porque se endeusou um treinador que havia tido sucesso 10 anos antes num rival, os cheques que estavam constantemente a caminho de Manchester, a hiper anunciada surpresa aos sócios num jogo de apresentação e que se consubstanciava na chegada de helicóptero da bola de jogo, o roubo descarado de um presidente em compras e vendas de passes de jogadores e terrenos e a contratação quase obsessiva de gente ligada, quase sempre de forma triste, a clubes rivais, são apenas alguns dos inúmeros exemplos demonstrativos do percurso, vá lá, caricato, do Sport Lisboa e Benfica nos últimos 15 anos.
Mesmo na bancarrota, foi possível construir-se um novo estádio, excelente, diga-se de passagem, e, contrariamente ao que seria de se esperar face aos acontecimentos desde 1994, o Sport Lisboa e Benfica tornou-se no clube com mais associados no mundo.
O Benfica é, sem sombra de dúvidas, um clube sui generis!
A contribuir para esta ideia, surge agora uma iniciativa de alguns associados. Esta iniciativa consiste numa manifestação e surge da necessidade de insurgência contra aquilo que os seus promotores chamam de "crise profunda".
No manifesto pode ler-se que o grupo é constituído por sócios indignados. Indignados com "a situação de crise profunda". Esta "crise profunda" deve-se, de acordo com quem lançou a iniciativa, depois de inúmeras promessas, à ausência de um "projecto concreto". A inexistência deste "projecto concreto" é reconhecida nas "mudanças constantes de treinadores, jogadores e perda de títulos". O objectivo da iniciativa é impedir que o mesmo suceda na próxima época.
Sinceramente, eu acho que é de louvar que os benfiquistas se preocupem e façam o que entendam ser o melhor para o Benfica. Considero igualmente que o estado de apatia em que a maioria de nós, associados do Sport Lisboa e Benfica, se tem deixado cair, é muito prejudicial para o clube. No entanto, gostava que as pessoas pensassem um bocadinho antes de tentar fazer alguma coisa.
O desejo de marcação de eleições antecipadas é, com base nos motivos evocados, simplesmente ridículo.
- A ausência de títulos não é de agora. Nos últimos 18 anos, ganhámos apenas 3 campeonatos e 4 taças de Portugal;
- A constante mudança de treinadores deveu-se, num dos casos, à iniciativa do treinador em exercício;
- O entreposto de jogadores já nasceu em 1994;
- As várias promessas (neste âmbito, leia-se "programa eleitoral") foram feitas para um triénio que ainda não terminou;
- A ausência do "projecto concreto" está por provar. A meu ver, o problema é que existe um projecto concreto, descentrado da principal razão de existência de um clube desportivo, desenvolvido por incompetentes.
Não me parece que a marcação de eleições antecipadas seja a melhor forma de não se voltar a repetir a "mesma situação" na próxima época. Que "projecto concreto" teria o Benfica na próxima época? O "projecto concreto" inexistente da direcção cessante ou o "projecto concreto" da nova direcção empossada lá para Agosto?
Esta manifestação, legítima do ponto de visto legal e estatutário mas ridícula no seu objectivo e razões apontadas, torna-se ofensiva por ser a primeira. Como é que num clube, que andou a ser roubado indecentemente por um presidente e em que sócios foram agredidos em assembleias gerais, se tenta fazer, pela primeira vez, uma manifestação devido apenas a maus resultados da equipa de futebol e que, infelizmente, já nem sequer são uma novidade?

p.s. Não precisam de mil assinaturas... dos 170 mil sócios, talvez 100 mil sejam sócios efectivos com mais de um ano de filiação, talvez 80 mil destes tenham as quotas em dia... neste caso, precisarão apenas de umas 400 assinaturas... e eu estarei lá, na assembleia, para votar contra, assim como estarei presente nas próximas eleições para votar em quem quer que seja desde que não se chame Luís Filipe Vieira e não apresente sintomas de vale-azevedite.»

Tuesday, April 15, 2008

Versões

«Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido. Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (“Unzinho e eu ganhava a sena acumulada”), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito “sim”, dito “não”, ido a Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste… Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é “Imaginário” – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou.

- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.

E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo. Por quê? Sua vida não foi melhor do que a minha?

- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia…

- Eu sei, eu sei… – disse alguém sentado do outro lado dele.

Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:

- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.

- Como é que você sabe?

- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como mandei para o ataque com tanta precisão que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um “herói”, me atirei. Levei um chute na cabeça. Não pude mais ser goleiro. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INPS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…

- Ele chutaria para fora.

Quem falou foi outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.

- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…

- E o que aconteceu? – perguntamos os três em uníssono.

- Lembra aquele avião da Varig que caiu na chegada em Paris?

- Você…

- Morri com 28 anos.

Bem que tínhamos notado a sua palidez.

- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…

- Nem sair do gol naquela bola…

- E ter levado o chute na cabeça…

- Foi melhor – continuei – ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado…

- Você deve estar brincando – disse alguém sentado à minha esquerda.

Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.

- Quem é você?

- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As consequências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.

- Quem é você? – perguntei.

- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.

- E?

Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo.»

Luís Fernando Veríssimo, “Versões”, do livro “Novas comédias da Vida Privada

Tuesday, April 08, 2008

Uma tal de besta

Se há coisa que me põe capaz de saltar para a frente de um carro é a estupidez de um bom jogador. Então quando é a estupidez de um jogador assim-assim, fico capaz de meter a cabeça no forno. Vem isto a propósito de umas declarações a dar para o imbecil de um tal de Nélson, que - parece - joga na lateral direita da equipa do Benfica. Um tipo que foi contratado estava eu e uns amigos a beber copos às tantas da manhã. Alguém leu e telefonou, mandou mensagem? Já não me lembro. Alguém apareceu com a boa nova: "O Nélson é nosso!", disse alguém. Entreolhámo-nos, benfiquistas à volta de uma mesa com uma espiral de copos vazios de cerveja (talvez gin-tonic e whisky também por lá andassem), e fizemos a pergunta que, obviamente, se impunha: "Mas quem é esse gajo?". Era um gajo do Boavista. Esse tal de Nélson jogou o primeiro jogo e logo vimos nele o próximo Cafu, melhor, o Cafu com pé esquerdo. Aquilo era cruzamentos de esquerda, direita, nem sei se o homem não chegou a cruzar de cabeça. Todos de uma qualidade que dava para um gajo perguntar se estava a ver o Benfica ou o Milan. O homem fez um jogo em Villarreal tão bom tão bom que dava a sensação de que a conta bancária desse ano iria aumentar aí nuns 50 milhões de euros, no final da época. Na época seguinte, apareceu nos treinos do Seixal outro gajo: um tal de Nélson. Um gajo mais ou menos rápido, péssimo a defender, HORRÍVEL a cruzar e, acima de tudo, tinha uma qualidade excepcional: quando chegava ao meio-campo decidia adiantar a bola e começar a correr atrás dela. Geralmente ia cruzá-la 20 metros depois dos placards publicitários, ali entre o último centímetro de relvado do Estádio da Luz e a primeira cadeira vermelha onde, estranhamente, nunca estava ninguém sentado. Passou este tal de Nélson uma época inteira a tratar mal a bola e a reclamar com os colegas. Chegado o Verão, o desespero era tanto que para substituir esta aventesma, o Benfica foi buscar uma aventesma pior (mas que se julgava ser um bocadinho melhor), um tal de Luís Filipe. O outro, o Nélson, parecia estar tão deprimido que o "Record" chegou a noticiar (não se sabe se uma notícia fidedigna) que Chalana lhe apresentou um belíssimo Psicólogo, conhecido por recuperar cabeças de perdiz e cérebros de milhafre. Também tinha um bom currículo na arte de recuperar capacidades "cruzamentais" nos jogadores. Não se sabe se Nélson aceitou o repto, mas a verdade é que Luís Filipe saiu da equipa (diz-se que também começou, a partir daí, a frequentar as mesmas sessões) e lá começou o tal de Nélson a jogar. Assim-assim. Nem bom nem mau, estão a ver? Bem pelo contrário. Ora, estávamos nisto, neste assim-assim, uns dias sim, outros não, quando o tal de Nélson vem a público dizer isto: "Sou ambicioso e o desafio [jogar no estrangeiro] seria enorme. Mas sinto-me preparado, pois não tenho medo de jogar numa grande Liga da Europa". Mas isto agora é assim, é? Já não é só com os gajos bons (não digo muito bons, porque carne dessa os nossos dentes não sentem há muito tempo) que nos temos de preocupar? Agora até os assim-assim abandonam-nos por dá cá aquela palha? Eh pá metam-me lá. Eu levo uns amigos. Raios me partam se a gente quer "desafios" ou jogar em "Ligas da Europa". Não prometo resultados. Mas raios me partam todo aqui e agora se a gente queria sair do Benfica!

Thursday, April 03, 2008

Às vezes faz-me falta alguém a quem dar rosas.

Ai Portugal, Portugal, de que é que tu estás à espera?

Sinceramente, começo a perder o interesse por certas coisas no futebol. Não que estivesse à espera de uma pena pesada para o F.C.Porto, porque não estava; até fiquei surpreendido que tenha aparecido a Liga a poder castigar o clube, mesmo que com uma pena absolutamente ridícula e bastante ajustada à realidade para que não suspeitemos dos reais interesses que estarão por detrás desta sentença (?). Enfim, acho que estou a começar a perder o interesse no futebol ou em certas coisas do futebol. E é uma junção de factos: um Benfica deprimente, sem lei, sem organização, sorumbático, com um Presidente que mente, engana, atraiçoa os adeptos, fá-los de parvos e sorri, sem que ninguém o questione das razões de tão evidente gozação com todos nós, que amamos e choramos e rimos e sofremos pelo Benfica. É este Benfica e esta merda deste país que tem uma justiça ajustada ao século XV, em que as leis estão desajustadas da realidade, em que os homens que as fazem, fazem-nas para salvaguardar futuros problemas. E então estamos nisto. Nesta lama, nesta água suja. Por um lado, o desencanto desde clube que morreu; por outro o desencanto de um país que teima em não acordar.

Vou ouvir o Camaron de la Isla.

Saturday, March 29, 2008

O que será (À flor da pele)

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque

Para ouvir na versão cantada pelo Chico e Milton, de 1976 (especial da Rede Bandeirantes). Um luxo.

Friday, March 14, 2008

Um pesadelo de 14 anos

Digam-me uma coisa: vocês têm a certeza absoluta de que não estamos em 1994, acabámos de ganhar o campeonato e "isto" que pensamos que é a nossa situação não é só um pesadelo generalizado de todos os benfiquistas? Vocês têm a certeza de que, amanhã de manhã, não vamos acordar, olhar os jornais e ver que o Isaías, o Veloso, o Rui Costa (com 21 anos), o Schwarz, o Paneira, o João Pinto, o Mozer, o Kulkov, entre tantos outros fizeram um treino duro, em que trabalharam a finalização e as bolas paradas? Vocês têm a certeza de que não somos o Benfica, mas uma equipa medíocre que é eliminado pelo Getafe? Vá, deixem-se de merdas, digam-me que isto é um pesadelo. Vou acordar agora, beijar o cachecol e ficar preocupado porque o Damásio disse ontem que o Toni não é o treinador ideal para o Benfica; que o que precisamos é de um Artur Jorge e de uma limpeza de balneário. E vou rir-me da piada...

Tuesday, March 11, 2008

Sobre a saída de Camacho...

... apetece-me dizer que, pela primeira vez desde que chegou ao Benfica, o espanhol foi tacticamente perspicaz.

Friday, March 07, 2008

Esqueço-me tantas vezes do céu, longe que estou entre prédios sujos, pessoas e dias, que quando por um acaso o meu olhar sobe ao cimo dos telhados das horas olho-o como se fosse a primeira vez. Espanta-me sempre essa promessa de poema.

Thursday, February 21, 2008

Tenho a certeza absoluta da inocência de camacho. No entanto, isso não o impedirá de ter de responder, no Julgamento de Nuremberga, pelo holocausto futebolístico que dizimou, cruelmente, milhões de Benfiquistas.

Título do "Record":

"CAMACHO RENDE-SE AO PATRÃO - «Rui Costa é o melhor jogador do Benfica»"

Portanto, temos um patrão que aceita receber ordens do seu empregado. Se o Carvalho da Silva sabe desta, ainda se candidata a Presidente do Benfica. Para receber ordens, claro.

No desamor e na morte, dói tudo. Dói tanto, tanto, tanto que até as coisas que não temos doem. No meu caso, doem-me os ovários.

Saturday, February 09, 2008

Francisco do Carmo Silveirinha

Na sala, estão quatro homens. Deitados. Alguns ligados à vida por tubos que vêm de cima até às veias. Sempre o sangue. E a falta dele. Olho-os a medo, culpado de estar de pé, culpado de respirar aparentemente bem, aparentemente sem precisar de tubos ligados às veias ou máscaras a cobrir a cara. Ninguém parece importar-se, além de mim, com a minha condição de saúde, supostamente impecável. Além de mim. Culpo-me por estar de pé ou culpo o mundo por estarem os outros deitados? Não encontro resposta.
Ao canto, ao lado da janela que timidamente deixa entrar uma luz baça, encontro o homem que é meu. Mais do que os outros três, aquele é o meu homem. O meu lugar. Beijo o homem na testa, inundado de medo e de carinho. Nunca na vida tivera esta mistura explosiva dentro de mim: medo e carinho. A questão, nas próximas horas, será saber quem ganhará o duelo das emoções. Pretende-se que seja capaz de estancar as lágrimas, de esconder os mais secretos medos, para que o carinho de dentro de mim leve o homem a viajar, sem percalços ou hesitações. O homem olha-me, triste, quase indiferente. Sabe quem sou? Sabe que em manhãs e tardes e noites iguais às que agora vive, deitado numa cama, me teve nos braços, ancorando-me à vida, prendendo-me nos braços o meu coração pequeno? O tubo, gota a gota, respira, respiram os pulmões do homem, devagarinho, respira a luz, baça, para dentro do quarto, respiramos em uníssono, os quatro homens e eu, na certeza de uma luta pelo sangue. Pela vida. Num esboçar de dor, o homem vem pedir-me, olhando-me, que o levante. Levanto-o. O seu corpo que treme, magro, exige-lhe uma força que ele não tem; seguro-o por debaixo dos braços e iço-o como uma grua iça um telhado de uma casa. Ele abraça-me. Não por carinho, mas pela necessidade que o seu corpo tem de uma âncora. Sou eu agora o ancorador. O porto seguro daquele corpo, daquele homem, daquela vida, daquele sangue que luta, contra todas as previsões, por uma réstia de esperança. Por um resto de luz. Por mais um pequeno nada. Levo o homem devagar, apalpo-lhe o peito, as costelas, as ancas, osso e tecido e, talvez, uma gordura que eu já não sinto, mas que existe, e ainda o faz poder mover-se. Antes de sair do quarto, com o homem ancorado a mim, revejo o quarto e os três homens deitados: é isto a vida, penso. É isto a morte. No corredor, duas ou três enfermeiras, muito brancas, tratam o homem como uma criança. Brincam com ele, provocam-no, à espera de uma reacção. Não há, ou quase não há. Há um olhar que se perde, muito mas muito além dos limites daquele andar, daquelas paredes, do chão, das portas, das janelas, do mundo. É um olhar para dentro. Quando o homem olha as enfermeiras, quando o homem me olha, ele não nos olha, ele olha-se; olha a luz que parece esvair-se dentro dele, mas procura ainda no escuro, ou quase escuro, um último refúgio. Levo o homem pelo corredor, digo-lhe banalidades, mentiras, esperanças, digo-lhe e digo-me, digo-nos, pequenas verdades estilhaçadas que não chegam para que o homem me reconheça. Ele só reconhece o lugar onde está. O quarto escuro em que o seu sangue se move. Ancorado a mim vai, pé ante pé, levado pela inércia da sofreguidão humana, em direcção a uma janela. Dessa janela, só a noite entra. A noite e luzes. Umas mexendo-se, por caminhos e estradas, outras estanques, como se estivessem a velar a noite. Como se nos velassem naquela noite. Chegados à janela, abro-a para sentirmos o vento e uma chuva miudinha que vem molhar-nos as pontas dos narizes. Penteio o homem, passo-lhe gotas de chuvas pela cabeça e pelo cabelo ralo. Encosto o seu corpo fraco junto ao meu, para sobrevivermos. Sobreviveremos? Sem saber a resposta, é o corpo do homem que me responde: levantando os dois braços sobre os meus ombros, o homem abraça-me. E parece que aquele abraço é o fim e o princípio de tudo. Naquele abraço, estão dias, meses, anos abraçados. Anos abraçando meses. Meses abraçando dias. Dias abraçando horas. Horas abraçando uma luz. Choro. De medo, mas mais do que tudo, de carinho.

Sunday, February 03, 2008

Ão Ão

Há quem diga que o Homem nunca esteve na Lua. Não vejo o que isso possa importar. Se nós, admiradores sagrados da transcendência, mesmo que em solo terrestre, nos satisfazemos com a precariedade solene das coisas pequenas, se nos engrandecemos com a mais simples promessa de mar para quê olharmos para o cimo do cimo? Para o alto que está além da distância que vemos? O céu, espécie de manto transparente de todas as coisas, chega-nos.
Há quem diga que o Homem nunca esteve em Terra. Que tudo não passa de uma ilusão mental colectiva, um sonho absurdo e louco de um cão que, entre refeições, decidiu estender as pernas, estender o corpo, estender o cérebro muito além do que o planeta em que vivia imaginava. E imaginou casas, coisas, árvores, gente, pedaços de terra, água, estradas sinuosas, animais, fontes, prazeres, divindades, igrejas, cruzes, sonhos, fadas, ideias, legendas, pensamentos, traduções, conversas, dunas, atalhos, vidros, esmolas, fronteiras, países, ondas, marés, paixões. Não vejo o que isso possa importar. Se respiramos, se representamos na loucura sórdida de um cérebro de um cão, então somos. Sem ponto e vírgula, sem reticências, sem exclamações ou interrogações, então, até sem ponto final somos, imagine-
se

Tuesday, January 22, 2008

A história de um Rei gordo que, triste, chora num castelo



Quanto a mim, Camacho nunca foi, nem será um bom treinador. Na sua primeira passagem pelo Benfica, não era um bom treinador. O que tinha era humildade e vontade de provar que tinha algum valor, uma vez que todos os lugares que tinha ocupado antes se tinham revelado autênticos fracassos. Chegado ao Benfica, e apoiado por uma grande maioria de adeptos, sentiu motivação e passou-a aos jogadores que conseguiram entender o que o treinador queria e tiveram alguns êxitos. Melhor, um êxito, num jogo em que tivemos sorte. Então... qual a diferença da primeira passagem de Camacho pelo Benfica para esta segunda aventura em terras lusitanas?

Não é muito complicado: Camacho continua o mesmo (mau) treinador. Além das questões que se prendem com o estudo intensivo e sabedoria do jogo (que não mudaram, continuam más), Camacho perdeu aquelas que eram as sua grandes virtudes: a garra, o querer, a disciplina, a liderança, a capacidade de motivação, a união. Porquê, pergunta-se. Haverá, certamente, várias justificações. Deixo aqui a minha:

Quando Camacho chegou ao Benfica era um treinador a perder prestígio. Depois de passagens sem êxito por dois clubes espanhóis e selecção espanhola, Juan Antonio precisava de mostrar serviço. Empenhou-se com unhas e dentes em mostrá-lo ao serviço do Benfica, com abnegação, espírito de luta, garra (afinal, as características que revelou sempre como jogador). Mesmo assim, apesar dessa vontade toda, não conseguia resultados que satisfizessem os adeptos, não fosse dar-se o caso de uma tarde de Maio em que viria a defrontar um FC Porto que - e nunca é demais lembrá-lo - pensava 3 dias à frente desse dia, na final da champions league. Com muita sorte à mistura, lá ganhou a Taça e o povo, sedento de títulos e odiando Mourinho, proclamou aos sete ventos que estava encontrado o novo Rei do Benfica, capaz de lutar até - imagine-se - contra o poderoso Porto de Mourinho, campeão europeu. O Rei, seguindo uma linha de traições digna de qualquer monarquia, deixou o povo nas ruas e lá foi ele para Castela, reinar no clube do coração. O povo chorou, chorou-o, pediu o seu regresso. Afinal, as nossas tão típicas saudade e nostalgia. Mas teve o Rei capacidade para REALmente governar? Não teve. Desculpou-se com o povo, com os nobres e saiu do trono. Terá sido por causa da nobreza, pela boçalidade do povo ou terá sido por o Rei ir (ser) nu? Aceitam-se duelos.

Numa noite de nevoeiro, em que o luso Santos perdia a batalha em terras do Douro, estava o Rei Camacho muito sossegado em mui nobre descanso, quando o povo e seu ícone máximo (Vieira) lusitano clamou por ele. E ele veio. Mas terá vindo humilde e com vontade de governar esta terra com esforço, garra, altruísmo? Pois está claro que não! O Rei veio inchado, afinal já REALmente governara. Enquanto os seus súbditos lhe beijaram os pés, andava o Rei feliz e espirituoso, mas quando o povo se apercebeu das suas incapacidades claras de líder gritaram-lhe à janela do castelo que queriam mais do seu Rei, que queriam ver aquele Rei que os abandonara uns anos atrás. O Rei, muito indignado com tal descrença nas suas capacidades, fechou-se no quarto, cabisbaixo, ausente, numa auto-comiseração sem precedentes, furioso com a vida e com aquele povo que o não entendia. O povo está hoje lá fora, em redor do castelo, a pedir que o Rei volte para terras de Castela e, ele, o Rei espera apenas que adormeçam os súbditos para sair de cavalo desta terra sombria.

Saturday, January 19, 2008

Para aqueles que almoçam e/ou jantam fora e saem à noite em Lisboa e gostam de fumar, não no frio, mas numa mesa entre amigos:


Snob (Rua do Século), A Casa do Bacalhau, A Fogueira, A Gaivota (Ericeira), A Lareira (Aveiras de Cima), A Severa, A Tasca do Careca, Adega da Tia Matilde, Albapólvora, Apuradinho (Campolide), Areias (Paço de Arcos), Bacalhau de Molho, Bar do Bairro (sala própria), Bar do Guincho, Bar do Rio, Belém Bar Café, Bica do Sapato (espaço próprio), Bonjardim, Blues Cafe, Brasileira do Chiado, Buddha Bar, Café Astória (Parede), Café de São Bento, Café do Coliseu, Café Império, Café Inn, Capricciosa, Caruso, Casa da Dízima (Paço de Arcos), Cervejanário (Parque das Nações), Cervejaria Trindade, Charcutaria (Rua do Alecrim), Chimarrão (Monsanto), Churrasqueira do Campo Grande, Cima's (Monte Estoril), City Café, City Lounge, Clandestino (Bairro Alto), Coccinella (Paço de Arcos), Come Prima, Culto da Tasca (Sintra), Cup&Cino (Entrecampos), Delfim, Doca de Santo, Dois ao Quadrado (Sintra), Eclipse, El Corte Inglés (restaurante do 7º piso), Estado Líquido (Santos), Favo de Mel (S. Sebastião da Pedreira), Faz Figura, Finalmente, Fonte da Arcada, Forno Velho, Fonte do Cabo (Ericeira), Fox Trot, Frágil, Galito (Carnide), Gambrinus, Gôndola, Grande Elias, Grilo (Carcavelos), Grogg´s (Bairro Alto), Incógnito, Jamaica (Cais do Sodré), Japa, La Moneda, Lábios de Vinho, Ladeira, Lamosa (R. Salitre), Les Mauvais Garçons, Lounge, Lux, Mah Jong, Maré Alta (Massamá), Maria Caxuxa, Maria Moranga, Marina Club (Cascais), Monte Mar (Guincho), Orange, Mãe d'Água, Masstige, Mata-Bicho (Carcavelos), Mercado do Peixe, Mercearia Vencedora (Cascais), Mercearia Vencedora (Amazónia, Lisboa), Mezzoggiorno, Music Box, O Bem-Disposto (Rua Tenente Ferreira Durão, 52), O Cantinho dos Caracóis, O Carteiro, O Funil, O Paladar (Carcavelos), Old Vik Bar (Av. Roma), Olivier, Os Arcos (Paço de Arcos), Pabe, Pancitas (Queluz), Panorama (Guincho), Papo Cheio, Pastelaria Flor das Avenidas, Pátio do Lenhador (Cascais), Peixe na Linha (Parede), People (Campo Pequeno), Piazza di Mare, Pizaria Lucca, Plateau, Portugália (Cais do Sodré e Almirante Reis), Procópio, QB (Quinta da Beloura), Recanto de Emoções, República da Cerveja (Parque das Nações), Restaurante Alfândega, Rodelas, Sacolinha (Cascais), Salt & Pepper (Campo de Ourique), Santa Marta, Santo António de Alfama, Sem Palavras (Av. Rio de Janeiro), Solar de Carnide, Solar dos Presuntos, Solar Pombalino, Stop do Bairro (Campo de Ourique), Suave (Parede), Tertúlia do Paço (Paço do Lumiar), The Taste Maker, Tório (na Tomás Ribeiro, em frente ao Pingo Doce, um piso inteiro para fumadores), Via Graça, VirGula, Xafarix.

Wednesday, January 16, 2008

Super Manchester

De facto, é um novo fenómeno esta forma de apresentar a equipa. Ferguson apresenta um 442 altamente ofensivo, com dois alas de ataque, dois avançados móveis, e dois médios, sendo que apenas um (Carrick, ou Hargreaves, como substituto) é um médio defensivo. À frente de Carrick, Anderson, um jogador fabuloso mas que ninguém pensava ser capaz de ser o segundo jogador de meio-campo. PALMAS PARA FERGUSON E QUEIRÓS! Grande equipa, processos interiorizados nas transições, os alas (Ronaldo, Giggs) recuam em harmónico quando a equipa perde a bola, os avançados (Tevez, Rooney) pressionam logo na primeira fase de construção do adversário, permitindo assim que a equipa suba e pressione toda em bloco, criando pouco ar para que o adversário respire. Se a equipa adversária sobe no terreno, o Manchester recua, sempre em bloco, para o seu meio-campo para depois lançar os contra-ataques mortíferos. Não sei se vai ganhar a Champions League este ano, mas já não há dúvidas: é a equipa mais espectacular do planeta! Ainda por cima numa época em que se elogiam tanto as questões defensivas, é de elogiar quem apenas tem um jogador com essas características, o que vem provar que um futebol, quando bem jogado, é um jogo colectivo: ataque e defesa, todos os 10 em sintonia, recuo e avanço, um harmónico perfeito.

Nesta equipa, brilha o Cristiano. Só os eternos lobbies não o deram como o melhor de 2007. Só falta para o ano darem a Robinho ou a Messi. Acordem, senhoras da FIFA! Cristiano Ronaldo leva 22 golos (16 no campeonato), e ainda estamos em Janeiro, leva assistências, fulgor, rapidez, magia aos campos de futebol. CRISTIANO RONALDO é o melhor jogador da actualidade, como o foi o ano passado. Até o Kaká sabe disso.

Let the poor boy be

Coitado do Camacho. Sinceramente, tenho pena dele. Calhou vir para o Benfica, onde ganhou uma taça de Portugal e foi considerado o D. Sebastião quando saiu. O Real, que é como o Benfica nestas merdas, lá lhe deu a oportunidade de treinar a equipa principal. Ele por duas vezes saiu, com a desculpa de que lhe não davam condições. Vem o Vieira, chama o gajo e ele vem todo contentinho a pensar que seria eternamente considerado o herói castelhano que veio salvar os pobres lusos em dificuldade. Quando começou a ver que os lusos são tão malucos como os madrilenos amuou e agora deve estar a pensar em ir treinar para outro lado, que não a Península Ibérica, cheia de malucos que gostam de futebol e sabem um bocadinho mais de tácticas do que o vizinho dele em Múrcia. Agora vêm de Inglaterra notícias sórdidas dizendo que o Newcastle está de olho no ex-lateral sarrafeiro. "Agora é que eu sou amado", pensa o espanhol, enquanto chora a distância dos murcianos, que ainda há poucos dias lhe ofereceram um Pata Negra excelentíssimo para se deliciar na "longínqua" Lisboa. Já está Camacho sonhando com céus cinzentos e público entusiasta quando se lembra de que ainda treina uma equipa de futebol e tem problemas para resolver. Coitado. Deixem o homem sair. É um favor que faz a toda a gente...

Monday, January 14, 2008

Uma gestão desportiva burra

Quanto ao valor do rapaz romeno não digo nada porque não o conheço. É importante deixarmos que, pelo menos, os jogadores joguem, antes de criticarmos a qualidade dos mesmos.

O que critico, ou questiono, é a gestão desportiva. Pelo que tenho acompanhado, o trabalho na formação tem sido dos pontos mais positivos desta direcção (ainda ontem os Juvenis foram, ganhar a Alcochete, deixando o Sporting a 7 pontos). Além de criar boas equipas, nota-se, nos escalões de formação, uma tentativa honesta e inteligente de recrutar jovens talentos, muitos deles de África, que possam vir a crescer no seio do clube e que se identifiquem com a mística benfiquista. Se há este trabalho de qualidade na formação terá de, necessariamente, haver uma continuidade no momento de transição para a equipa principal. Se Miguelito foi vendido, e tendo Léo até, pelo menos, o final da época, parecia-me muito mais acertado ir buscar o jovem Ruben Lima aos júniores e prepará-lo para, em um ou dois anos, surgir na equipa principal. É assim que se dá continuidade ao (bom) trabalho que se faz na formação. Se, de repente, vamos à Roménia contratar um jovem (e poderá ser excelente, não é isso que questiono), é óbvio que bloqueamos o processo aos jovens benfiquistas que saem da equipa dos júniores. Além disso, o Benfica tem optado por contratar jogadores muito jovens, o que, quanto a mim, é um erro. Demasiados jovens não podem fazer uma boa equipa. O Benfica tem uma falta de ideias gritante como colectivo. Só com uma boa dose de experiência pode dar a volta a esta situação. Os jovens têm de ir entrando, paulatinamente, com precaução e inteligência. E se se aposta em jovens, aposte-se nos que cá estão, e conhecem já o clube, sem que necessitem de adaptação a longo prazo.

A questão é: o Benfica precisa assim tanto de um lateral esquerdo? Sabendo que Léo é o dono do lugar, e fica até Junho (pelo menos), não é mais importante contratar um extremo-direito e um médio de intensidade alta, forte nas transições ofensiva e defensiva, que saiba fazer jogar a equipa e dar-lhe velocidade? Esses dois lugares serão colmatados? E, se sim, chegarão em 31 de Janeiro, para passarem dois meses a entender o que é o Benfica, e quando entenderem (se entenderem) já está a acabar a época?

Por mais que o romeno valha, a verdade é que custou 1,7M de euros. Junte-se-lhes os 3,7M de Diego Souza e temos 5,4M. E pensar que Miccoli não ficou por menos...

Gestão Desportiva inteligente, meus amigos. Não existe.

Friday, December 21, 2007

Benfica, 3 E. Amadora, 0


Uma primeira parte vergonhosa. Digna de um Sertanense ou de um Abrantes. É isto que o Benfica tem para oferecer aos seus adeptos, depois de lhes pedir que compareçam? Para a próxima estão lá 10.000 e depois 5.000 até ficar só a família do Mantorras e o Adu a aquecer, na linha lateral.

Este jogo trouxe-nos (indirectamente) um bom motivo de análise. A diferença do futebol jogado de uma parte para a outra, traz (MAIS UMA VEZ, BURRO CAMACHO) mais uma vez o confronto de estilos e modelos de jogo. O 433, impossível com estes jogadores, contra o 442, bem mais coerente. Alguém levantou uma questão interessante: em 442 Rui Costa terá de ser preterido? Em minha opinião, não, mas colocá-lo no banco em certos jogos acho que não é heresia nenhuma, pelo contrário, Rui Costa tem de começar a ser poupado se quisermos que ele chegue até ao final da época com capacidade para desequilibrar. Em casa, a solução passa por aproveitar (CASO CAMACHO TIVESSE MAIS DO QUE UMA PUTA DE UM NEURÓNIO) o (quanto a mim, bom) trabalho em torno do losango que Fernando Santos realizou. Petit (Binya) ao centro, Katsou como interior direito, Rodríguez (mais vertical), Rui, Cardozo e Adu (acho que está na altura de lançar o americano. Como Camacho gosta de vê-lo a correr, mas do lado de fora, Nuno Gomes para segundo ponta-de-lança). Em casa, esta equipa é a melhor. Um 442 com dois médios mais defensivos e outros dois ofensivos. Nesta táctica, a capacidade de Rodriguez ser tacticamente disciplinado para ajudar o Léo e os dois médios mais defensivos é a chave. Ganharíamos poder de fogo, dinâmica para nos chegarmos à frente com mais perigo e forçaríamos o adversário a ter de recuar o trinco para posições mais defensivas, abrindo espaço para que Rui Costa (preferencialmente), Katsou e Petit pudessem aparecer a desequilibrar, os trincos mais em segundas bolas, o Rui em jogadas de progressão. Colocar Petit (Binya) e Katsouranis de perfil parece, cada vez mais, um erro crasso. O grego sobe de produção se puder subir no terreno e não ficar preso, "colado" ao trinco (hoje, com a saída de Rui Costa, notou-se a melhoria do seu jogo quando pôde ter menos amarras ao centro defensivo da equipa). Este jogo, em ida de férias, parece ter vindo na melhor altura. Dá as bases para se compreenderem as diversas opções que o plantel tem. Será que Camacho entendeu alguma coisa? Ou, no próximo jogo, voltará a apostar no seu perro e imbecil 433? Eu diria que vai continuar a marrar, qual touro de Pamplona, mas, se por um brilhante milagre, Camacho tiver hoje entendido os jogadores que tem, poderá (digo poderá) ter-se aberto uma janela de esperança sobre esta época, até agora, desastrosa. Jogadores de qualidade temos, não muitos, mas suficientes para fazermos bem melhor. Sem dúvida que a má época é responsabilidade de Camacho, por não entender as qualidades e defeitos dos jogadores que treina (ou arbitra peladinhas, não sei se treina de facto).


A questão Adu: começa a ser angustiante. Lá foi o homem aquecer 30 minutos para jogar... 10. E será que El Gordito não se lembra de outra, além dessa de o colocar na faixa esquerda? Será complicado entender que deve testar Adu como segundo ponta de lança, móvel, sobre toda a área ofensiva? Tocou 3 ou 4 vezes na bola. Numa, viu que não podia subir, e recuou para Léo, noutra fez um bom passe para o centro da área, onde estava Nuno Gomes e outra, em velocidade, fez um excelente drible e acaba por ser puxado, sem que se possa considerar penalty. Que água na boca para ver Adu jogar na Luz aí uns... hmmmm peço 25,30 minutos? Será muito? Peço 45 minutos, vá.

Di Maria, que eu tenho criticado por ser sempre primeira opção em relação a Adu, virou o jogo. Entrou muito bem, é sem dúvida um jogador com talento, e parece estar a aprender a ser jogador de equipa. De qualquer forma, o seu habitat natural é na esquerda, apesar de hoje se ter destacado à direita, com duas excelentes assistências (uma deu golo, outra Cardozo falhou). Posicionar os jogadores onde eles rendem mais e pensar uma ideia colectiva onde cada um, individualmente, renda o máximo, e a equipa, colectivamente, saiba aproveitar as várias características e qualidades dos seus jogadores. O futebol é isto. Avisem lá o Camacho.


Monday, December 10, 2007

Uma equipa em busca de ideias

A equipa venceu, mas nota-se claramente a falta de ideias por parte de Camacho. Além de lances de bola parada (como o de Petit para Luisão, na lateral, cabecear para o centro da área), dá a ideia que os treinos do Benfica são iguais aos do Abrantes, quando eu lá jogava nas camadas jovens - corrida, uns exercícios com bola, peladinha. É absurdo que esta equipa não tenha mecanismos ensaiados, tanto a defender como a atacar. A defender, defendem apenas 6 (os quatro da defesa, mas os dois trincos), o que, em 4-4-2 é um suicídio com equipas mais poderosas. Neste sistema, os alas têm de "cair" logo sobre os laterais adversários e, se for caso disso, acompanhá-los até ao nosso, e os avançados têm de servir de tampão, logo que a equipa adversária comece a construir jogo. Nada disso se vê. A atacar... bem, a atacar é o caos completo. Vale-nos termos jogadores que desequilibram, mas não há ideias treinadas de como sair a jogar. A equipa parece um mau jogador de xadrez, na entrada começa a lançar os bispos e os cavalos e a abrir peões para cima do adversário, mas depois tem de recuar porque não sabe o que fazer. As bolas perdidas nas transições ofensivas são mais que muitas, não há um único movimento interior do ala que permita que o lateral suba, os avançados não mostram entendimento na hora de um ficar mais fixo e o outro deambular. Há quem diga muito mal de Nuno Assis, eu pelo contrário acho que ele pode ser muito útil a esta equipa como "10" e, jogando onde joga (Camacho tem um atraso grave), ou seja, a extremo direito, é dos poucos que ainda se lembra de "queimar linhas", para que a superioridade numérica possa aparecer por algum lado. Binya começou bem a época, é um bom tampão de meio-campo, mas é limitadíssimo. Além disso, faz muitas faltas. Não me parece uma solução credível. Para que joguemos em 4-4-2 (o sistema que, sem dúvida, tendo Nuno Gomes e Cardozo, mais se adequa às características dos jogadores que temos) é necessário ter alas que funcionem no colectivo, que saibam atacar bem, com velocidade e técnica para ir à linha, mas que saibam também fazer diagonais e trocar com Rui Costa (esse sim, sabe bem deslocar-se a uma ala, quando vê o ala chegar-se ao meio) durante o jogo. O único que faz isso é Rodriguez. Tanto Dí Maria, Adu ou Coentrão (ainda?) não o sabem fazer. Maxi é um bom jogador se quisermos dar estrutura ao meio-campo, mas é muito mais lateral do que será algum dia ala. Gostaria de ver duas opções alternativas, e confesso que inesperadas, no Benfica, mas acho que Camacho teria de trabalhar e pensar além de fazer de árbitro nas peladinhas para que isso acontecesse: Bergessio à direita. Acho que é um jogador com características parecidas com Lisandro. Aguerrido, veloz e com capacidade para aparecer, em diagonais, na área para finalizar; Adu como segundo ponta-de-lança - a forma como aparece a finalizar parece ser mais de um homem de apoio ao atacante do que um ala. Um João Pinto, digamos assim.

Estamos na próxima eliminatória da Taça, mas ainda há muito a fazer...

Tuesday, November 27, 2007

Importa?

Não há melhor exemplo que explique o fanatismo e a irracionalidade dos adeptos de futebol (e do seu clube) do que a forma de funcionar do Benfica actual. Que importa se a equipa joga aos tropeções, sem leis, sem uma ideia minimamente construída sobre a evolução da bola em campo, que importa se Camacho erra consecutiva e permanentemente no pensamento do jogo, que importa se desloca Rui Costa para extremo direito, se joga com Luís Filipe a titular, se escolhe Maxi Pereira para acelerar o jogo à direita, que importa se Adu é imaturo para o espanhol e Di Maria não, se não entendeu a lição mais básica da equipa que é a de que Cardozo não deve nem pode jogar sozinho, feito gigantone perdido no mundo de anões, na frente de ataque… se a bola, caprichosa, teima em furar as redes adversárias a cinco minutos do fim, numa ousadia sádica e brincalhona? Sim, que importa tudo isso, se o Benfica ganha?

Camacho – já se sabe – não é nenhum génio do futebol, não o foi como jogador, não é como treinador. Camacho é, aliás, muito pouco genial em tudo o que faz, a forma emotiva e aos soluços com que gere o jogo do banco prova-o, irrefutavelmente. Corro o risco de dizer que – na teoria – eu saberia colocar as peças no rectângulo de jogo (no FM sou um génio, tenho posições e setinhas construídas de forma a que a equipa funcione na perfeição, a liberdade nas alas própria do perfume sul-americano, atacantes possantes ao estilo italiano, um criativo na zona de magia, laterais alemães, guarda-redes checo, futebol de eleição) de uma maneira muito mais inteligente do que aquela que, semana a semana, o espanhol teima em fazer, mas… que importa? Se, de repente, um guarda-redes sai desvairado da baliza, se de repente uma bola ressalta e pára na zona de penalty e encontra um central desajeitado de frente para ela e de costas para a baliza, se esse central tem cabeça de melão e calcanhar de força, se a bola vai (não sem antes sofrer um desvio para o cantinho das redes por parte do tal guardião) para a baliza, que importa? O golo foi consumado, a multidão saltou, saltaram os cachecóis, saltou aquele velho sentado no sofá, o prédio saltou, o país saltou, saltou o empate para a vitória. Importa a táctica, num momento desses? Importa. Mais cedo ou mais tarde, a táctica vai exigir explicações, mostrar-se ofendida por tão desinteressado desdém com que a brindam, com que Camacho a brinda, semana após semana. Pode, então, criticar-se Camacho? Arrisco, com a permissão dos benfiquistas, a heresia:

O plantel do Benfica resume-se a isto: três ou quatro jogadores experientes, um génio, quatro ou cinco jogadores de talento ainda por lapidar e vinte jogadores medíocres. Suficiente? Insuficiente, mas a vontade (dê-se essa valia ao espanhol) e uma luz mística do Espírito Santo têm suprido as óbvias limitações do plantel. Lembro-me várias vezes de treinadores com equipas medíocres que conseguiram ter grandes êxitos e tenho a esperança de que este seja o caso, mas não é. Camacho não consegue aproveitar o (pouco) que tem. Olhando para os jogadores à disposição, uma ideia nasce logo e chama-se 4-4-2. Com um ponta-de-lança como Cardozo e outro como Nuno Gomes, com Bergessio (eu, ao contrário da maioria, acredito neste argentino) e ainda com Mantorras, com Rui Costa com 35 anos – ou seja, necessitado de uma boa solidez atrás de si e ao mesmo tempo de largura e gente na frente para espalhar a sua arte – com um extremo esquerdo que deambula em diagonais como Rodríguez, com o génio enlatado na juventude de Adu e Di Maria (e, quem sabe, de Coentrão), com defesas sólidos e laterais ofensivos (penso em Nelson para a direita; Léo, esse, não necessita de apresentações), que sistema, meu santo protector, que sistema melhor do que o belíssimo 4-4-2, clássico ou em losango? Mas não. Camacho aposta numa espécie de 3-3-2-1. 3-3-2-1? Eu explico: 3 (Léo, David Luís e Luisão; Luís Filipe é invisível, não existe, ou quando existe é para fazer passes geniais para os atacantes adversários ou os deixar correr sozinhos até à linha de fundo) 3 (Petit, Katsouranis e Maxi Pereira (sim, Maxi é muito mais um médio defensivo no esquema de Camacho do que um extremo direito, anda para ali, a tapar buracos e a não fazer o que se lhe exige e que ele não pode dar, que é abrir na ala direita) 2 (Rodríguez e Rui Costa, deambulam os dois, e têm salvo a equipa) 1 (umas vezes Cardozo, outras Nuno Gomes, parece que a Camacho causa aversão jogarem os dois, quando obviamente são jogadores que necessitam um do outro, um porque precisa de ter alguém ao seu lado que recolha as bolas que cabeceia, outro porque sempre rendeu mais com um atacante fixo ao lado). A lógica se mandasse (mas atenção… ela foi desprezada) dir-nos-ia para aplicarmos a este grupo de jogadores um 4-4-2, mas Camacho descobriu o 3-3-2-1 e parece que vem para ficar. Tenhamos pena e compaixão. Reze-se para que a luz divina continue a iluminar estes homens, até ao dia (que não estará longe) em que a bola não entra nos últimos cinco minutos. Fica a pergunta: e nesse momento, o que fazer? Será que importa?

Saturday, October 06, 2007

O voto de silêncio...

...está feito. Silêncio.

Friday, September 07, 2007

Lembro-me que era Sábado. Não havia no dia nada de novo. A sala estava quieta, com os vestígios de Sexta-feira em cima de uma mesa. Se parasse e olhasse com atenção, poderia adivinhar pequenos gestos que tinham sido feitos na noite anterior: o movimento dos braços e mãos a segurar cigarros, da boca para o ar, do ar para o cinzeiro, pousando a cinza na cama de vidro; uma capa de um disco parada, em cima de um sofá (o disco saindo da capa, pelas mãos levado ao gira-discos, pelo ar enchendo a sala de som); três copos com uma réstia de vinho no fundo, um no chão, outros dois juntos em frente à travessa que - imagino - seria de um bolo de chocolate; livros de poesia no chão e imaginar os livros abertos, na mão de alguém, enquanto as palavras ordenavam silêncio a quem ouvisse. Era Sábado, mas a sala estava ainda Sexta-feira. Sentei-me no sofá e fiquei imaginando mais e mais movimentos, gestos, pequenas conversas, a disposição das cadeiras, as pessoas levantando os pratos, recolhendo a cinza dos cinzeiros, arrumando os discos, limpando os copos, despedindo-se, e alguém que, em silêncio, fechou a Sexta-feira naquela sala. Levantei-me, olhei em volta. Assinei a parede: Sábado, e fui tomar banho.










Para quem chega de viagem, a vida - tal como ela era - já não existe. A transformação do mundo, enquanto estivemos fora, deu-se a uma velocidade exasperante. Nada está no lugar. As casas, os rios, a cidade vista de cima, continuam os mesmos, mas há um novo acordar: os olhos: a vida: os olhos: os olhos: os olhos. Da visão que tínhamos, sobra um resquício; o resto é novo. Viemos com as pessoas que conhecemos no horizonte e o horizonte alarga-se à nossa frente. Viemos com os lugares onde estivemos e, debaixo de nós, vemos abrir-se um e dez e mil novos poços de água, onde podemos ir para um mergulho nocturno. Da terra que deixámos (e à qual voltamos), a presença apenas de uma fronteira, de uma linha invisível de separação, já orfã dos olhares antigos. Agora, o mar abre-se-nos como se nunca tivessemos sido outra coisa senão caravela. Somos navegar e navegamos. Dentro e fora de nós, navegamos. E viajamos e vagueamos e vagabundeamos. E anoitecemos e amanhecemos e renascemos. Todos os dias. Os países somos nós.

Monday, July 16, 2007

Um mês e uma semana de puro sonho

Vou tentando escrever ao longo do caminho, para que acompanhem a viagem o melhor possível. Não prometo muito, porque não sei qual a disponibilidade para, primeiro, escrever, segundo, passar a matéria escrita para aqui; mas prometo empenho, caros amigos, empenho. O resto é... sonho.

Friday, June 29, 2007

Pode por vezes parecer que o “monstruário” não desaparece. Pode parecer que o voo é rasante àquilo que fica entre as costelas, para mais tarde se revelar. O ritmo descoordenado, arritmia em solfejo, mas o dom de sangue ninguém lho pode tirar. Entre murmúrios, antes de nascer, caminhou resistente para um sol que já não era. E parece que não tem fim essa música ecoando, batendo asas no dentro de dentro que é ele por dentro. Um som. Um tiro. E então pode ser que o monstro obituário tenha chegado ao fim da linha. Mas não há cura para este compassado entristecer na noite que, por dentro, diz segredos a quem quer ouvir.

Monday, June 18, 2007

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz nocoração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado detristeza
Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí?
Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Cartola, a benção, Sinhô
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pinheiro
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção,Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá!
A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Samba de Benção, Vinicius de Moraes

Tuesday, June 12, 2007

Fim de carreira

Provavelmente nunca contei isto a ninguém, mas eu já ganhei por 5 vezes a Champions League. Mentira: a Taça dos Clubes Campeões Europeus. Perdi duas finais também, mas isso deveu-se ao acumular na barriga de pães com tulicreme e manteiga, levando-me a falhar os penalties decisivos por clara dor de estômago e desconcentração na hora de apontar por duas vezes (e em dias consecutivos!) os lances capitais do jogo. A bola não quis dar-me a alegria das 6ª e 7ª taças por capricho: na primeira, saiu alta demais, esvoaçando por cima do muro, indo rebolar pela barreira abaixo, apenas parando lá no fundinho, onde o Zé Careira vivia com os dez cães; na segunda vez, eu estava avisado, e decidi – no penalty que decidia tudo – bater a bola a meia altura, com efeito para o lado esquerdo, para que ela não subisse – saiu perfeita, longe do alcance do guarda-redes, mas, infelizmente, vi-a esbarrar-se no vaso com orquídeas. “ao poste!”, gritou o guardião, e eu fiquei na zona de penalty marcado com uma bola branca de cal no chão a olhar o prédio em frente: estava perdida a segunda final da minha vida.
Apesar da desilusão por ter perdido em dias seguidos duas finais dos Campeões Europeus, sabia que o meu trajecto como jogador estava, ainda assim, muito acima do que era esperado. Tinha vencido por 5 vezes o troféu mais ansiado por todos, tinha sido considerado o melhor jogador de todas as 7 finais que havia disputado. Estava na hora de arrumar as botas.
Nesse dia em que a sorte não quis nada comigo, enquanto das varandas dos prédios as pessoas me aplaudiam de pé, enquanto o cão vinha pedir uma festa e consolar-me, no meio do pátio, em cima da linha de meio-campo, eu agradecia aquele apoio incansável ao longo de duas longas semanas àquele público fantástico, agradecia especialmente à senhora que bebia suminhos de laranja na varanda do topo sul, agradecia o apoio incansável daquela empregada que esticava a roupa na varanda da Central e, emocionado, abandonava o campo com o sentido de dever cumprido.
Abandonava o futebol já veterano. Sentia que a minha altura tinha chegado. Os meus 12 anos não me permitiam manter o nível exibicional que até ali tinha deliciado a plateia. Saía triste por abandonar o futebol, mas feliz por tudo o que o futebol me tinha dado. Tive propostas para jogar em campeonatos menores, como o campeonato semanal em Vale de Rãs e o 24 horas no pavilhão do Pego, mas achei, na altura, que o pão com chouriço e o sumol de laranja com que me acenavam para prolongar a minha carreira era insuficiente. Apesar de tentadores, não os achei suficientes para que a bola continuasse a rodar sob os meus pés. Além disso a família pedia-me encarecidamente que voltasse. Que voltasse a casa. E eu acedi. O jantar já estava frio.

Monday, May 21, 2007

Era Dezembro e toda a gente falava numa «provável precisão de presentes». Eu não entendia a precisão provável, mas entendia a palavra «presentes». A árvore grande no canto parecia-me um monstro com mil bolas nas mil mãos e pernas finas, juntas, dentro de um vaso. Era provável que se precisasse de presentes, mas a comida ainda não estava na mesa. Eu olhava as bolas vermelhas nas mãos do monstro e toda a gente ria e falava em coisas que tinham santos, Jesus, e o menino sobre as palhas deitado. Era provável que precisasse de uma cama nova, mas o cabrito – ao que se sabe – estava de morrer. Depois dos corpos estarem bem nutridos com doces, deus e a provável azia dos enfeites vinícolas, eis que alguém relembrou a mesa que urgia a “provável precisão de presentes». Eu entendi a última palavra e fui-me sentar debaixo do monstro a comer alguns dos seus – seres de barrete vermelho que sabiam a chocolate. Quando os presentes jaziam em cima de cadeiras e um cemitério de papéis e laços inundava o chão, foram todos para a cama dormir mal e sonhar com os presentes que deviam ter recebido, reflectindo sobre o desconhecimento triste que todos os outros tinham de cada um. Era provável que a precisão fosse outra, pensei. Mas como eu não conhecia as palavras «provável» e «precisão», brinquei com o carrinho azul até de manhã.

Thursday, May 10, 2007

A liberdade é que é! A democracia é que é! O direito de voto é que é! A igualdade é que é! Perdemos? Abaixo a Democracia! Bora queimar carros!

Há coisas que eu não entendo: os meus olhos vêem, de facto, na televisão imagens de carros queimados nas ruas de Paris; os meus ouvidos ouvem, com toda a certeza, que os responsáveis por esses mesmos actos são os que não aceitam que Sarkozy tenha ganho as eleições; sinto que a notícia é invariavelmente dada como “apenas” mais uma confusão gerada por um núcleo “pequeno” de arruaceiros e dizem-me que, na sua maioria, o grupo é constituído por imigrantes em França que – ressalve-se o subtil pormenor – dias antes tiveram o direito de exercer a sua opinião, votando em quem bem quisessem e em quem achassem que defenderia da melhor forma os seus interesses.
A juntar a esta informação que me chega aos sentidos diariamente há também o passado político e ideológico de quem comete a façanha: gente que defende a igualdade entre os vários grupos culturais e étnicos da França de todas as liberdades; que defende, acima de tudo, o valor da democracia.
Penso. Juro que penso. Reflicto, mas há qualquer coisa que persiste em conflito. Será que queimar carros todos os dias é uma forma legal de afirmar convicções? – fico ruminando, ingenuamente, enquanto os órgãos de comunicação vão procurando atenuar a notícia.
Eu já disse várias vezes que não tenho escolha política. Não quero. Cheira mal. Sabe-me a azedo. Eu não hei-de chutar com o pé direito nem receber a bola de pé esquerdo, estou, aliás, bastante fatigado com esta questão de ter de ser de alguma coisa, de ter de escolher. Eu não escolho e não me importo nada com isso. Mas façam-me um favor: se é para reprimir idiotas, ao menos reprimam com método.


Wednesday, May 09, 2007

A nova era da democracia hipócrita

O atentado inqualificável por parte de uma nova elite moralista, que emerge por todos os lados do globo, chegou a Portugal. Afinal não estamos na cauda do mundo. E se fazemos leis contra os fumadores, que as façamos ainda mais rígidas, discriminatórias e hipócritas!
João Pereira Coutinho disse e bem:

«Em 1959, o filósofo Isaiah Berlin publicou um ensaio que se transformou em peça clássica do pensamento político. Intitula-se ‘Two Concepts of Liberty’ e, para resumir uma longa conversa, Berlin escrevia que, historicamente falando, é possível divisar dois conceitos de liberdade que, semelhantes na aparência, acabaram por evoluir em sentido contrário. De um lado, o conceito de liberdade ‘negativa’, caro aos liberais clássicos (como Stuart Mill), e que procura definir o espaço onde eu posso agir sem a coacção de terceiros.
Do outro, o conceito de liberdade ‘positiva’, onde a preocupação já não está no espaço do agente, mas na acção do agente: uma acção considerada livre se for racional. Berlin explica como o segundo conceito, estimável na teoria, acabou por ser usado e abusado por ditadores de toda a espécie, que em nome da liberdade ‘real’ se propuseram a ‘libertar’ os seres humanos rumo ao caminho da autonomia e do bem. Mas não é preciso citar casos extremos: as versões de paternalismo «soft», que a Europa importou com vigor, são o melhor exemplo deste vírus. A liberdade, na cabeça do nosso escol político, não significa agir sem coacção. Significa agir com a voz do dono.
Um dos exemplos mais explícitos do abuso está, naturalmente, no combate ao tabaco. Claro que o combate ao tabaco seria impensável sem o declínio das teologias tradicionais: se Deus não existe, o corpo é tudo o que nos resta. Não é por acaso que Lisboa se prepara para receber uma exposição macabra, feita com cadáveres chineses, onde é possível admirar (com nojo) os efeitos do fumo no organismo. E não é por acaso que a Alemanha nazi — um regime totalitário e ateu — se notabilizou nas campanhas antitabágicas, que sobreviveram ao Reich e são hoje repetidas por papagaios sem vergonha. Mas o combate aos fumadores, e as medidas iliberais que o Parlamento aprovou sem um espirro de hesitação, é também a forma mais velha de negar aos seres humanos o que é autenticamente deles: a possibilidade de viverem por sua conta e risco, assumindo as rédeas da sua própria mortalidade

Monday, May 07, 2007

When A Blind Man Cries












If you're leaving close the door.

I'm not expecting people anymore.

Hear me grieving, I'm lying on the floor.

Whether I'm drunk or dead I really ain't too sure.

I'm a blind man, I'm a blind man and my world is pale.

When a blind man cries, Lord, you know there ain't no sadder tale.


Had a friend once in a room,

had a good time but it ended much too soon.

In a cold month in that room

we found a reason for the things we had to do.

I'm a blind man, I'm a blind man, now my room is cold.

When a blind man cries, Lord, you know he feels it from his soul.



Deep Purple

Friday, May 04, 2007

Os Sonhadores (Les Innocents), 2003, Bernardo Bertolucci

Nunca um filme me parecera mais certeiro e corrosivo, no que à discrepância entre ideologia e acção concerne. O mundo está cheio de falsos salvadores; gente muito inteligente, muito preocupada, com referências barbudas na parede do quarto, vermelhos insinuantes lembrando passados bélicos, enquanto espera o cheque do papá no final do mês.
Em “Sonhadores”, de Bertolucci, é isso que se vê, e se revê. E revemo-nos. Não há forma de assobiarmos para o lado. Aqueles somos nós; nascidos de uma voz interior que busca a verdade, influenciados por lutas da geração anterior, temo-nos como heróis dos nossos dias, fugindo ao sistema que já nos fugiu. E então fingimos. Sentados nas poltronas da classe burguesa em ruínas, fumamos muitos cigarros, e dizemos coisas inteligentes para disfarçar a nossa total vacuidade de objectivos. Conhecemos a fundo o Maio heróico, e o Abril de epopeia floral, mas nunca os vivemos; lemos muito sobre as lutas nas montanhas, e até fantasiamos sobre a possibilidade de humanidade, mas não sabemos o que isso quer dizer; Sim! Dylan, Doors, Joplin, Hendrix! No quarto, ouvimo-los embevecidos e achamos – com ternurenta ingenuidade! – que um dia. Achamos que um dia.
Bertolucci traz-nos o cenário perfeito: Paris, 68. O ícone da luta. Uma família de classe alta, em casarão burguês, vive os seus dias, alheada da realidade das ruas. Um pai, escritor, escreve para si e para a sua inteligência. A mãe não existe; é território do vácuo, entregue à lida da casa, ao amor (ou nem isso!) aos filhos, e fidelidade ao marido. Os filhos, irmãos siameses, dedicam os dias a um mundo de ilusão, entretidos em jogos de poder e sedução, muito em desacordo com o pai, embora feitos da mesma matéria, e copiando-o descaradamente, ainda que o não saibam. Até que um dia.
Vendo-se a sós – os pais desapareceram, a luta das ruas é coisa para operários! – os irmãos bebem vinhos caros da garrafeira do papá e gastam o dinheiro que este lhes deixou. Saem de casa para a Cinemateca, e desta para casa. O cinema permite-lhes a ilusão da memória. Conhecem um americano, e levam-no para casa. Sempre vem da terra de Hawks, e é perfeito para a consolidação da superioridade gaulesa sobre a estupidez do Tio Sam. Mas enganam-se. Às constantes referências cinematográficas, o americano (tranquilo) responde-lhes com outras (interessante a discussão à volta de Keaton e Chaplin).
Os dias não passam disto. Os nossos sonhadores envolvendo-se, física e mentalmente, em jogos. Jogos de ruínas, jogos de emoções em ruínas, de ideias em ruínas. Até que um dia.
O americano traz a luz à discussão. Pergunta ao francês o que fazem os posters de Mao e Che na parede, visto que a luta das ruas lhe é totalmente desinteressante. O francês não quer ouvir. Prefere ler muito, e beber os vinhos do pai. Até que um dia.
Quando a francesa, vendo o cheque que os pais lhes haviam deixado enquanto dormiam, decide uma morte em conjunto – sem que os outros saibam – o inevitável acontece: uma pedra parte as vidraças da casa senhorial, e eles acordam. Todos. Não havia volta a dar. Teriam, inevitavelmente, de tomar posição. Saem e uma manifestação na rua. Envolvem-se na multidão e, extasiados pela massa humana que os rodeia, fazem desaparecer o seu estatuto de classe burguesa e fundem-se na luta operária pela liberdade. O francês, toldado por anos de inactividade, o que quer é confrontação e violência. Agride os polícias, foge, e o filme acaba ao som de um herói musical americano, enquanto a polícia avança sobre os detractores.
No entanto, um pouco antes, o americano dissera ao francês: A violência não é solução. Não podemos usar as mesmas armas deles. As nossas armas são a inteligência e o coração.
Quem diria? Um americano a dar lições de moral a um francês. O mundo estava em ruínas.
O mundo está em ruínas. Passaram por nós 39 anos. Nós somos aqueles. Nós somos os sonhadores em sonho alheio. Perdidos por uma falta de sonho tangível gritante, repescamos os sonhos dos outros, e somos sonhadores em segunda mão. Os ideais dos nossos pais são os nossos e, tal como eles, perdemos a luta. Perdemos os sonhos.

Tuesday, April 24, 2007







Prefiro as críticas de cinema, as crónicas e os desvarios virtuais do Pedro Mexia aos seus poemas. Acho aquela poesia urbana interessante, mas longe de seduzir à exaustão. No entanto – e é sinal que me marcou de alguma forma – retenho trechos de poemas, ideias, pensamentos desse “Eliot e outras observações”. Uma observação mais recorrente é daquele poema que diz que até as linhas traçadas sobre a porta do metro podem dar companhia aos homens sós. Está bem desvendado, o enigma. Numa ou duas frases fica descodificada a solidão, assim, sem meias tintas, sem lugar para a explicação.

Os homens que vão habitando os cubículos do metro, alugando viagens esporádicas de 30 minutos, 10 minutos, 5 minutos, são pessoas com medo. Umas fingem dormir, com a cabeça tombando em soluços, outras lêem, descolando a retina enquanto o pulsar metódico do trem nos carris vai embalando a manhã, outros olham. No vazio, olham. As portas do fundo, o reflexo na janela, as tais linhas do metro sobre as portas, as unhas, a magnifica arquitectura dos pés, a estrondosa arte com que foi fabricado o tecto. Limpam as calças com uma mão rasante, vêem as horas segundo a segundo, coçam-se, atam os sapatos, descobrem uma borbulha interessantíssima no braço esquerdo – que os distrai o tempo exacto até saírem dali, fugirem, verem o céu, poderem olhar de frente as coisas, os animais, as pessoas como eles, que de repente esqueceram as unhas, os pés, a arquitectura do metal dos bancos, o jornal, o sono, a dor. Esqueceram-se de repente que tinham e têm medo. Sempre.

Thursday, March 29, 2007
























Há uma livraria que não é uma livraria (um bazar? um sítio perdido? Um alfarrabista?) que visito regularmente que me dá uma sensação de um mundo perdido, há muitos, muitos, muitos anos. Não tem os jornais e revistas arrumados de forma ordenada, não tem uma montra apelativa, nem tem sequer um cheiro dignificante – cheira a mofo e a mijo de gato. A característica olfactiva vem – acredito – de um acumular de anos de desordem total, em que as coisas parecem atiradas todas para um canto (até os jornais diários têm ar de estar ali há muitos anos!), em que o gato vagueia por cima de tudo, descarregando as suas necessidades ao acaso, em que a própria dona – mulher sentada lendo livros por detrás do caos – encaixa, naquele quadro abstracto de matizes mil e poeira infinita.
Eu frequento aquele sítio – dizia – em dias cinzentos, quando a ordem natural das coisas me cansa, e eu preciso do cheiro de mijo a gato e livros esquecidos para que a minha desordem natural consiga sobreviver. Há a questão de comprar livros do Émile Zola ou do Kerouac a um euro, livros fascinantes em que viajei ainda mais por partir para eles com a sensação boa de quase os ter achado (e achei!), mas é mais do que isso: quando ali entro o mundo deixa de existir como mundo, a mulher não é uma mulher (é um conceito), o gato não é um gato (é um elemento que vagueia) os livros não são livros (são viagens à espera) e eu não sou eu – sou uma personagem de um romance londrino, nebuloso e poético, atirado contra a força do tempo parado. Quando eu ali entro, o mundo faz o favor de esperar.

Monday, March 26, 2007

Os meus 10 GRANDES PORTUGUESES







































O GRANDE (CROMO) PORTUGUÊS

Num país a cair de podre em vários domínios governativos, não podia ser outro o vencedor: um ditadorzeco podre e com falta de equilíbrio na hora de sentar o rabinho na cadeira.
A insatisfação reinante em relação aos sucessivos governos desde 1974 e a total desconfiança nas capacidades sinceras dos políticos em fazer realmente deste país algo mais do que um macaco da república das bananas com a gravatinha da União Europeia, vieram provar-nos (como se não soubessemos já!) que até um medíocre ditador pode "ganhar" a Pessoa, Aristides de Sousa Mendes, D. João II, Camões, Infante D. Henrique, entre outros.
É lógico que nestas votações os mais votados costumam ser os mais recentes. Tem lógica que assim seja. E é por isso que nos três primeiros lugares ficaram três personalidades do século XX Português (excelente 3º lugar para Aristides: tinha ideia que pouca gente o conhecia em Portugal...pelos vistos, nem tanto assim).

A escolha do homem de Santa Comba Dão não demonstra grande inteligência ou cultura história por parte de muitos portugueses, mas vem revelar uma tendência: as pessoas preferem despotismo a insegurança; ordem a anarquia social. É preocupante a escolha, não o é a motivação.

Há ainda um factor que me preocupa nesta democracia, e vem do lado comunista: Odete Santos é um papagaio contínuo. É de uma "peixeirada", como diz o Rui, atroz. É ridícula. Mas nem é isso que me preocupa mais. Acho profundamente irritante e incongruente que uma mulher que supostamente apela aos instintos democráticos dos portugueses se levante - na hora do anúncio do primeiro classificado - e diga esta coisa aberrante: "É proibido o incentivo público ao fascismo!!!". Se Cunhal ganhasse... não seria proibido o incentivo público ao comunismo? É que ainda ninguém se esqueceu de Estaline. Gulag, Sibéria, 18 milhões de mortos... está recordada, Odete Otária?

O grande despautério da democracia é este mesmo: votar até num homem que não permitiria uma votação deste tipo. É assim o jogo. Se o quisermos jogar, jogamos; se não... volta-se ao Estado Novo e começa-se uma vez mais a lutar contra todo o tipo de atentado Às liberdades individuais. A História é cíclica e a estupidez eterna...

Thursday, March 22, 2007


Estilo






– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos? (…)

Herberto Helder, in Os Passos em Volta, 1963

Sunday, February 25, 2007

O Senhor Ventura, 1943, Miguel Torga




O alentejano rude, corajoso e sonhador que parte para Lisboa é um homem para o qual o espaço que o envolve é já demasiado pequeno para o mundo que possui no interior do seu sangue. Há um oceano de vontades no coração daquele homem. Não é – como alguém quis fazer entender – um Portugal desanimado nas suas entranhas e animado para uma diáspora. Este homem, se personifica alguma coisa, personifica, antes, a ideia de um país com uma alma demasiadamente grande para o território que ocupa. Transborda-se-lhe alma. Não é um ser frio, agarrado aos ideais e às loucuras; é um emotivo tolo, um louco em busca do que os seus sonhos imaginam. Há nele um canto mais alto, uma vontade suprema, a fisiologia de um guerrilheiro, enquanto vagueia por terras orientais, forjando, matando, consolando, amando. Este homem é como nós e não é como nós: o seu espírito envolve-se com a realidade num todo, paradoxo realista de que a nossa vida (a de todos) se distancia. O contacto feroz entre o real e o sangue, neste Senhor Ventura, ultrapassa-nos, comove-nos, humilha-nos. Nós não somos o Senhor Ventura. Para o bem e para o mal. E no entanto, que vontade de o sermos…
Ao longo do livro a ideia de que a personagem é linear adensa-se até meio; a partir daí notamos a sua total volatilidade, o seu humanismo desenfreado, mal construído, incongruente. Dilacerante, desconcertante. O Senhor Ventura desconchava toda a possibilidade de perfil exemplificativo: é um louco cirandando ao ritmo das suas loucuras, um anjo viril, um assomo de bestialidade e poesia.
Não há, no livro, outro trecho que de forma tão certeira nos apresente o Senhor Ventura do que aquele em que o autor nos revela a estupefacção de Tatiana – mulher inteligente, mas desprovida de emoção e generosidade – ao entender a substância de que é feito o alentejano da diáspora:
“A mulher olhou-o demoradamente. Não era fácil de compreender semelhante mistura de ferocidade e traficância, grandeza e lealdade. A sua inteligência fina, perspicaz, esbarrava diante de tamanho muro. Não quisera ou não pudera amá-lo. E sem amor não se podia entender nenhuma criatura.”

Repito: e sem amor não se podia entender nenhuma criatura.

Saturday, February 24, 2007

Eu ouvi aquele tipo falar, falar, falar. Durante duas horas ouvi o tipo falar. Dissertou sobre a política nacional, autarquias perdidas por clara ingenuidade diplomática, congressos, discussões, parvoíces, troca-tintas, insultos, depressões, conflitos e muito che guevara para sobremesa, que fica sempre bem.
Quando a conversa acabou, não acabou. Seguiu os seus meandros obscuros, incidiu-se sobre a política internacional, gente com tachos, pequenos latifúndios, grandes latifúndios, pobreza em massa, massa sem pobreza, quejandos que tais e muita, mas muita, eu disse muita, retórica verborreica, que é como quem diz diarreia pela boca. Aos rodos.
A minha barba fez questão de se mostrar desconfortável e eu fingi que compreendia tudo, aceitava tudo, concordava com tudo, e ia fumando cigarros agarrado ao volante, para que alguma coisa me lembrasse que o mundo não era aquilo.
Do outro lado do real, uma música insinuava-se. Começava com uma batida suave, samba em progressão, depois uma guitarra de acordes descoordenados, anjos lambendo as cordas, uma voz quente, feminina, um grito ancestral, e o mundo de repente tão perfeito outra vez, o mundo no seu início. A estrada é o melhor refúgio.

Sunday, February 18, 2007

A Rosa de Hiroxima





Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroxima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.


Vinicius de Moraes

MEMORIA DE LA CARNE

Por la noche, con la luz apagada,
miraba a través de los cristales,
entre los conocidos huecos de la persiana.
Como un rito o una extraña costumbre,
la escena se repetía, día tras día,
igual siempre a sí misma.
Frente a frente, su ventana,
la veía aparecer y bajo la tenue claridad de la luz,
lentamente, irse haciendo desnuda.
Sus ropas caían sobre la silla,
primero grandes, luego más pequeñas,
hasta llegar al ocre color de su cuerpo.
Andando o sentada, sus movimientos tenían
la inútil inocencia del que no se cree observado
y la imprevista ternura del cansancio.
Cuando todo volvía a la oscuridad,
los apresurados golpes del corazón
se aquietaban, con una sosegada prontitud.
De quien así ocultamente deseé,
nunca supe su nombre
y el romper de su risa es aún el vacío.
Sin embargo, allí, en la perdida frontera de los catorce
[años,
por encima del Latín imposible
y de los misteriosos números de la Química,
el temblor detenido de mis manos,
la turbia fijeza de mis ojos sobre ella, permanecen,
dando fe de aquel tiempo, memoria de la carne.

De "A través del tiempo", Juan Luis Panero

Tuesday, December 19, 2006

Ruy Belo

Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste nestes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente














Mas que sei eu

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha


Ruy Belo

Thursday, November 30, 2006

Como assim ó meu deus de Vasconcelos?





A morte de Mário Cesariny não é apenas a morte de um homem. Não é apenas a morte de um poeta, a morte de um pintor ou a morte de um rebelde. A morte de Cesariny traz consigo a sombra sobre um período profundamente criativo na poesia e nas ideologias entre os meios intelectuais (e não só) de um país que gritava, de entre os escombros de ideias mortas ou apenas revestidas de boçalidades.
Cesariny, dos surrealistas foi sempre o mais surrealista; de entre os homens foi sempre o mais homem – ainda que haja pessoas a confundir a homossexualidade com o estatuto de um ser, como género. De entre os bélicos, o mais bélico e – por que não? – de entre os mais belos, o mais belo. Com sentidos vários e em várias direcções.
Por isso, a morte de Cesariny não é apenas um poema morto, um quadro não visto, uma conversa a menos no Gelo em fogo que também já desapareceu como conceito.
A morte de Mário («como assim Cesariny, como assim ó meu deus de Vaconcelos?») é a morte de uma ideia.

Tuesday, November 28, 2006

Princesa




Percorrer sozinho a cidade, sem pressa. Subir escadas, ver varandas, descer ruelas, entrar em becos, abrir-me ao azul numa reentrância que serve de janela para o rio. O Tejo sempre presente, às vezes apenas um rectângulo ao comprido, por entre paredes lambidas por fantasmas molhados que são a roupa. Não há meio desta cidade ser organizada. Ela "canta sonhos" por isso mesmo - é a sua morfologia de princesa titubeante que lhe dá a graça...

Sunday, September 24, 2006

Não podia concordar mais...


«A guerra acabou George Steiner, um dos últimos casos de cultura e civilidade que interessa ler com atenção, escreveu recentemente um breve ensaio. Sobre a idéia da Europa, intitulado "A Idéia da Europa". Ambição estimável: mostrar como a Europa possui uma unidade cultural e até espiritual que a distingue dos outros cantos do globo. Para Steiner, a Europa, a sua Europa (que, de certa forma, é minha também), surge como herança maior de Atenas ou Jerusalém, ou seja, como herança maior do pensamento racional e das grandes teologias judaico-cristãs. É igualmente um espaço que é possível calcorrear a pé, permitindo um confronto permanente com praças ou pracetas, ruas ou avenidas, que transportam no nome um pedaço de história ou memória. Como se houvesse em cada esquina a sombra inapagável de um passado de mortos.

Mas a Europa é também a Europa dos "cafés": ao contrário do "pub" inglês ou do bar americano, os cafés da Europa não são apenas locais utilitários de bebida ou refeição. São espaços de encontro, romance, discussão ou criação. Espaços de fumo e bebida. Vadiagem, malandragem. E em cada café da Europa existe também a presença invisível dos que o habitaram: Kraus em Viena; Pessoa em Lisboa, Sartre em Paris; e porque a ficção se mistura tantas vezes com a realidade, os gangsters de Isaac Babel nos cafés de Odessa. Porque a Europa dos cafés estende-se da Lisboa de Pessoa à Odessa de Babel.

Leio o pequeno livro de Steiner e não posso deixar de sentir uma certa nostalgia. A descrição do autor talvez seja útil para entender a Europa. Mas que Europa? A Europa do passado? Sem dúvida. Mas sobre a Europa do presente, o sábio George está equivocado. Não apenas pelo declínio cultural que a Europa conheceu depois da Segunda Guerra Mundial, quando o "espírito do tempo" emigrou para Nova York, e não mais para Londres ou Paris. Mas porque na Europa, e sobretudo na Europa dos cafés, dificilmente encontramos o ambiente físico e espiritual que Steiner retrata. A vida intelectual é hoje essencialmente solitária e privada, onde os escribas vão cultivando os seus feudos, e os seus ódios, sob a luz triste da existência suburbana. E sobre beber ou fumar, a maioria dos cafés do continente já foi abolindo o último vício, esperando-se que se ocupe agora do primeiro. Os cafés da Europa serão, a prazo, jardins infantis.

O "espírito do tempo" não emigrou apenas para outras paragens. Ele foi destruindo uma cultura de adultos, entregando as rédeas do mundo à ideologia patética da juventude. Não admira, por isso, que o último passo tenha sido dado nos últimos dias: uma empresa irlandesa publicou um anúncio de emprego. E estabeleceu: fumantes escusam de se candidatar. De acordo com o diretor da empresa, pessoas que fumam não revelam a inteligência necessária para trabalhar no covil irlandês. E cheiram mal. E são insuportáveis para terceiros.

O gesto indignou algumas consciências políticas e uma eurodeputada britânica resolveu levar o caso à Comissão Européia, que pastoreia e vigia a vida do continente. Será legítimo excluir do trabalho alguém que fuma? A Comissão respondeu afirmativamente: a Europa proíbe a discriminação no emprego com base na raça ou etnia; na deficiência; na idade; na orientação sexual; na religião ou nas crenças. Mas não necessariamente quando uma empresa faz juízos objetivos sobre escolhas individuais. O problema já não está na mera possibilidade de proteger os não-fumantes do vício de terceiros, disponibilizando espaço próprio para os últimos. O problema está, tão só, na mera existência dos viciosos, que devem ser erradicados da paisagem comum.

Por favor, escusam de me enviar mensagens indignadas. A guerra acabou e, de certa forma, vocês, fanáticos, venceram. A luta contra o tabaco nunca foi uma luta pela saúde dos "passivos" (o que seria compreensível). Foi simplesmente uma luta contra a liberdade individual em nome de uma utopia sanitária: os fanáticos não desejam apenas que o fumo não os perturbe; desejam que a mera existência de um fumante também não. É a intolerância levada ao extremo e servida numa retórica simpática e humanista. E agora com cobertura legal.

A prazo, essa luta não irá ficar apenas pelo fumo: pessoas gordas; pessoas que bebem; pessoas que desenvolvem atividades sexuais promíscuas; pessoas inestéticas; pessoas que não se adaptam à cartilha higiênica das patrulhas serão enxotadas, como ratazanas da espécie, de qualquer presença visível numa sociedade crescentemente dominada pelo culto da saúde. Seremos como as tribos primitivas, elevando o corpo a um novo deus. Caprichosos e cruéis.

George Steiner, no mesmo ensaio, afirma que a Europa só não morrerá se souber preservar as suas "autonomias sociais": línguas, tradições, liberdades, excentricidades. E, citando o célebre dito de Aby Warburg, relembra que "Deus está nos detalhes".

Pobre George. Pobres de nós. De que vale o otimismo de um sábio quando os bárbaros são recebidos como heróis?»

João Pereira Coutinho, Folha Online

Tuesday, September 19, 2006

Alguém se esqueceu da filha na maternidade... (3)



(Leelee Sobieski/Helen Hunt)


Monday, September 18, 2006

SL Benfica - 1 Nacional - 0




Amigos, tenhamos esperança. O Benfica jogou de camisola vermelha e calções brancos. Logo, subiu a produção de jogo. É irrefutável: o Benfica joga com o equipamento tradicional, joga bem (ou quase).
Forçado, Fernando Santos abdicou do conservador sistema de dois trincos e... ganhou com isso. Karagounis e Nuno Assis à frente do competente Katsouranis; Simão e Paulo Jorge nas alas em apoio ao (pela primeira vez titular) mexicano Kikín Fonseca.
Se Fonseca não demonstrou capacidade (falta de entrosamento? desadaptação ao futebol europeu?) para ser titular do Benfica, Karagounis (de rejeitado a titular) mostrou que é um jogador dificilmente abandonável por qualquer treinador com cérebro. A princípio meio perdido em campo, sem saber muito bem se era um 6, um 8 ou 10, rapidamente o grego descobriu a sua melhor zona de acção e fez jogar a equipa, com a mais-valia de soltar Nuno Assis para um grande exibição.

Gosto de coração de Karagounis. Além da capacidade técnica, tem um jogar potente, de vontade, de garra, que encaixa nas características históricas do jogo benfiquista. É um elemento importante para a época, mesmo que nem sempre jogue de início. Já se sabe que Rui Costa - quando em boas condições - será o dono do lugar 10, mas parece-me que Karagounis não é, nunca foi e não será um playmaker; antes, um 8, um elemento de defesa e ataque, soltando o 10, um Maniche, um Tiago, um Lampard. Não tenho grandes dúvidas de que é essa a sua posição. Assim Fernando Santos tenha cérebro.
Quanto à equipa do Benfica, no todo, não fez um jogo deslumbrante, mas jogou o suficiente (ou mais?) para ganhar, e por mais de um golo. Precupante, talvez, a incapacidade para finalizar na segunda parte. É certo que Simão vem em crescendo (aquela perdida no final do jogo prova-o), que os níveis de motivação não estavam altos, mas - por amor do santo!?!? - tanta produção para um único golo? É pouco. Queremos mais.

Quim (6) - Seguro. Com a confiança do treinador, o internacional português está moralizado. E moralizado, Quim é um grande guarda-redes. Sem muito trabalho, quando foi preciso aplicou-se e esteve bem.

Alcides (5) - Uma exibição esquizofrénica. Se é certo que o brasileiro subiu muitas vezes no terreno, dando profundidade ao ataque encarnado, não é menos certo que perdeu algumas bolas e falhou dois golos (um deles escandaloso). Bipolar.

Luisão (8) - Se não tivesse feito mais nada, o único golo do jogo dar-lhe-ia razão para uma nota positiva, mas Luisão fez mais. Muito mais. Intransponível é o adjectivo. Excelente jogo (mais um). Em grande forma, o internacional brasileiro.

Anderson (6) - Competente. Sem deslumbrar, fez o seu trabalho, sem histerias. Parece, de qualquer forma, menos interventivo que o Anderson da época passada. O jogo do Bessa pode ter deixado marcas.

Léo (7) - Tal como Alcides, uma exibição bipolar. Na primeira parte, defendeu mal e não atacou. Na segunda parte, uma exibição perfeita. Como o que fez na segunda parte supera e muito o que não fez na primeira parte, uma nota acima da média. Com Simão, faz da ala esquerda, um lugar de magia, velocidade e perigo. É um grande jogador. Pena não ter 20 anos.

Katsouranis (6) - É um bom jogador, não há dúvidas sobre isso, mas denotou algum cansaço. Recuperou muitas bolas, mas nem sempre as entregou da melhor forma. Importante, no entanto, vê-lo mais jogos a jogar só, na posição de trinco. O Benfica parece ganhar com um único homem a jogar nessa posição. Um deles terá de ser preterido.

Karagounis (7) - Forte, decidido, pragmático, boa capacidade técnica. O grego que saltou da depressão para o campo de futebol, trouxe ao Benfica bom poder de luta e visão de jogo. É um jogador de progressão. O gladiador é importante para o Benfica 2006/2007. Só um cérebro morto não o compreende.

Nuno Assis (8) - Tantas vezes incompreendido, Assis mostrou-se tal qual é: um bom 10; um bom tecnicista, com excelente visão de jogo, bom passe e (surpreendentemente!) excelente forma. Correu quilómetros; fez jogar quilómetros. A alternativa a Rui Costa ou ... vice-versa. Excelente exibição.

Paulo Jorge (6) - A garra do costume, a entrega, a abnegação, mas também a mesma falta de eficácia. Muito mal na concretização mais uma vez (após passe de Nuno Assis), Paulo Jorge manchou a correria e dignidade que manteve durante todo o jogo. Parece ser, de qualquer forma, melhor opção que Manu.

Simão (7) - Ainda sem o ritmo que se lhe exige, Simão revolucionou o futebol encarnado. É um jogador de eleição, e o Glorioso precisa dele. Excelente nas bolas paradas (uma delas deu o único golo do jogo), a subir no um-para-um, corre para o jogo contra o Manchester. O capitão está de volta. Pena não ter marcado. No último minuto, então, era só encostar...

Kikín Fonseca (5) - Fraco. Lutou, mas sem demonstrar capacidade para fazer frente aos centrais do Nacional e... a Nuno Gomes e Miccoli. Falta-lhe capacidade para surpreender. Pode ser que não esteja ainda habituado ao futebol português. Ou não.

Miccoli (3) - Pouco tempo em campo. Lutou, está mais leve, mas longe do grande jogador que é. Um remate que um defesa madeirense interceptou e pouco mais...

Mantorras (3) - Pouco tempo, também. Conseguiu, ainda assim, fazer mais do que o mexicano: uma cabeçada em direcção à baliza. O São Pedro desta vez não empolgou o público.

Miguelito (2) - Nervoso, perdeu algumas bolas; esteve, no entanto, bem em dois cruzamentos. Precisa de minutos.

Sunday, September 17, 2006

The English Patient, 1996, Anthony Minghella




Katharine Clifton: My darling. I'm waiting for you. How long is the day in the dark? Or a week? The fire is gone, and I'm horribly cold. I really should drag myself outside but then there'd be the sun. I'm afraid I waste the light on the paintings, not writing these words. We die. We die rich with lovers and tribes, tastes we have swallowed, bodies we've entered and swum up like rivers. Fears we've hidden in - like this wretched cave. I want all this marked on my body. Where the real countries are. Not boundaries drawn on mapswith the names of powerful men. I know you'll come carry me out to the Palace of Winds. That's what I've wanted: to walk in such a place with you. With friends, on an earth without maps. The lamp has gone out and I'm writing in the darkness.

Sunday, September 03, 2006

Quero Voar, José Gomes Ferreira





Quero voar
- mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
- mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
- tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas.

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade)

É Talvez O Último Dia Da Minha Vida, Alberto Caeiro




É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

Thursday, August 31, 2006

Guess Who´s Coming To Dinner, 1967, Stanley Kramer





(Spencer Tracy, Sidney Poitier, Katharine Hepburn)

Un año después de ya no verte, Juan Luis Panero





Olor de solitario y soledad, cama deshecha,
cegados ceniceros en esta tarde de domingo,
helado soplo de noviembre en el cristal
y un vaso medio lleno de cansancio.
Te escribo por hacer algo más inútil aún
que pensar en silencio o imaginar tu voz,
o escuchar una música herida de recuerdos,
o pedir al teléfono un absurdo milagro.
«Este es el corrido del caballo blanco
que en un día domingo feliz arrancara.»
Este es el corrido pero nadie canta
y un muerto con mi nombre, vestido con mis trajes,
me saluda y observa por los cuartos vacíos,
me mira en la distancia como si fuera un niño
y acaricia en sus dedos un rastro de ternura.
Sobre su frente inmóvil va cayendo tu nombre
y humedece sus labios una lluvia perdida.
Olor de soledad y humo de aniversario
mientras busco, dolorosamente trato de recordar,
tus dos ojos insomnes con su vaho de mendigo,
devorando su luz, ahogando su locura.
Tus dos ojos como picos de presa que se clavan
y rasgan y desgarran la piel de nuestro amor.
Soplo de embriagado recuerdo, agria melancolía
rescoldo que tu lengua aún enciende
en estas horas de strip-tease solitario
en que celebro en tu derrota todas las derrotas.
Un año después y tu pelo, tu largo pelo
ardiendo desbocado entre mis manos,
clavado para siempre en esta almohada,
recorriendo esta casa, sus rincones y puertas,
como un viento insaciable que buscase su fin.
Un año después de ya no verte,
definitivamente talando en tu memoria,
qué real sigues siendo, qué difícil herirte.
La sosegada certidumbre de esta mesa en que escribo
puede tener la pasión estremecida de tu piel
y la ropa que el sillón desordena
puede ahora ocultar el temblor de tus pechos.
Sobre tu sexo abierto y tus muslos de arena,
sobre tus manos ciegas que persiguen la noche,
qué triste es el cuchillo, qué aciaga su hoja.
Un muerto con mi nombre y mis uñas mordidas,
un cadáver grotesco, me dicta estas palabras,
me señala en los cuadros, en la pared manchada,
el destino de hoy, de este día cualquiera,
al borde de mi vida, al borde del invierno,
al borde de otro año que empieza con tu ausencia,
al borde de mis ojos y tu voz que ahora escucho.
Un año después de ya no verte,
mientras te escribo, odiando hasta la tinta,
en esta tarde de noviembre, olor de solitario y soledad,
helado soplo en el cristal vacío. Un muerto.

Clarice Lispector (1920-1977)





"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

Monday, August 28, 2006

Há mulheres que nos fascinam (2)





2001
.: Medalha de Prata por equipas no Campeonato da Europa de Duatlo (Mafra - POR) - Juniores Femininos;
.: 18ª no Campeonato da Europa de Triatlo (Carlsbad - CZE) - Juniores Femininos;

2002
.: 4º Lugar no Campeonato do Mundo de Triatlo (Cancun - MEX) - Juniores Femininos;
.: 34ª Classificada na Taça do Mundo de Tizjausvaros (HUN);
.: 29ª Classificada na Taça do Mundo de Nice (FRA);
.: 12ª Classificada na Taça do Mundo do Funchal (POR);
.: Medalha de Bronze no Campeonato da Europa de Triatlo (Gyor - HUN) - Juniores Femininos;
.: Medalha de Bronze no Campeonato da Europa de Duatlo (Zeitz - GER) - Juniores Femininos;
2003
.: 9ª Classificada na Taça do Mundo de São Petersburgo (EUA);
.: 10ª Classificada na Taça do Mundo de Ishigaki (JPN);
.: 9ª Classificada na Taça do Mundo do Funchal (POR);
.: 3ª Classificada na Taça do Mundo do Rio de Janeiro (BRA);
.: 3ª Classificada na Taça do Mundo de Cancun (MEX);
.: Vencedora da Taça do Mundo de Madrid (ESP);
.: Vencedora do Triatlo Internacional do Estoril (POR);
.: 2ª Classificada no Triatlo Internacional da Praia da Vitória (POR);
.: 5ª Classificada nos Jogos Mundias de Verão - Santos (BRA);
.: Medalha de Prata no Campeonato da Europa por Equipas Juniores Femininos - Carlsbad (CZE);
.: Medalha de Bronze no Campeonato do Mundo de Triatlo Juniores Femininos - Queenstown (NZL);
.: Campeã do Mundo de Duatlo Juniores Femininas - Affoltern (SUI);
.: Campeã da Europa de Triatlo Juniores Femininas - Carlsbad (CZE);

2004
.: Campeã Nacional de Triatlo 2004;
.: Vencedora da Taça do Mundo do Rio de Janeiro (BRA);
.: Vencedora da Taça do Mundo de Madrid (ESP);
.: 8ª Classificada nos Jogos Olimpicos Atenas 2004;
.: Campeã da Europa de Triatlo Sub23 Feminina - Tiszaujvaros (HUN);
.: 5ª Classificada no Campeonato de Mundo Elite - Funchal (POR);
.: Campeã da Europa de Triatlo Elite Feminina - Valência (ESP);

2005
.: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de New Plymouth (NZL);
.: Campeã da Europa de Triatlo Elite Feminina - Lausanne (SUI);
.: Campeã da Europa de Triatlo Sub23 Feminina - Sófia (BUL);
.: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Pequim (CHN);
.: 4ª Classificada nos Campeonatos do Mundo de Triatlo de Gamagori (JPN);
.: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Madrid (ESP);
.: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Mazatlán (MEX);

2006
.: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Corner Brook (CAN);
.: 5ª Classificada no Life Time Fitness Triathlon (USA);
.: Campeã da Europa de Triatlo Sub23 Feminina - Rijeka (CRT);
.: Campeã da Europa de Triatlo Elite Feminina - Autun (FRA);
.: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Madrid (ESP);
.: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Mazatlán (MEX);
.: Vencedora da Taça da Europa de Triatlo do Estoril (POR);
.: 3º Lugar no Campeonato Nacional de Corta Mato Longo - Guimarães (POR);
.: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Aqaba (JRD);


Vanessa Fernandes é uma atleta de excelência. Pelas medalhas, prémios e vitórias, mas também por ter em si valores como a humildade, o respeito, a educação e a simplicidade. Esses não se treinam. É por isso que é uma campeã.

É do Benfica e tem 20 anos.

Tuesday, August 22, 2006

Poema - Pai

Já o poema começa
ondulando por entre as palavras e
a saliva dos afectos procura já
o seu destino.

Caminho no interior das suas veredas.
amparo, sôfrego, os seus estilhaços;
reagir é amar por dentro.
longe, vejo o olhar
onde se encontraram, um dia,
sábio e aprendiz.

Cada gesto
a génese;
livres caminham os dias
dentro do tempo
em que o tempo é mais verdadeiro;
inicio, repetidamente,
rua após rua
a mesma forma de ternura.

São, afinal, os mesmos olhos
incrédulos
latejando sintomas
vermelhos
entre genéticas que espantam o mundo.
indiferentes, seguimos
reagindo ao tic tac do relógio
imóveis
na comoção dos instantes.
há em nós
a eterna dúvida de sermos “apenas” homens.

Ricardo Silveirinha ("22 de Agosto - Dia de anos do meu Pai")

Wednesday, August 16, 2006

Les Innocents, 2003, Bernardo Bertolucci




Charlie and the Chocolate Factory, 2005, Tim Burton




Sunday, August 13, 2006

98.1

Rádio Marginal - O FM mais perto do Mar

Para quem quiser deitar a cabeça, fechar as luzes, abrir as janelas, ver a lua
ou
para quem quiser passear de carro à noite
ou
ao final da tarde
ou
para quem não quiser estar preocupado em mudar a rádio de 5 em 5 minutos...


Defeito: só alcança a zona de Lisboa.

Alternativa: net. Não é a melhor, mas é a que existe.



Por mim, ou meto uma cama no escritório ou levo o computador para o carro.
Ou então vou para Lisboa todos os dias ao final da tarde.
Fica a memória. Boa memória.


Friday, July 28, 2006

Pedro, Lembrando Inês



Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
Dizer “ Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor,
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
ele que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice
In Pedro Lembrando Inês

Wednesday, July 26, 2006

Rembrandt van Rijn (1606-1669)



Philosopher in Meditation 1632 (110 Kb); Oil on wood, 28 x 34 cm (11 x 13 1/2"); Musee du Louvre, Paris

Há mulheres que nos fascinam




Maruja Torres é uma escritora e cronista espanhola. Conheci-a através dos seus escritos no jornal "El País", nesses tempos idos em que trabalhei com extintores na belíssima, linda, única, deslumbrante, fascinante Salamanca.
O nome dela, apesar destes anos de distância, nunca me saiu da cabeça. Impossível. A escrita era de tal forma arrebatadora e pungente que nem necessário foi escrevinhar o seu nome num papelinho, assim à deixa-cá-ver-se-escrevo-isto-para-depois-não-me-esquecer.

Numa pesquisa sobre a autora, deparo-me com este título de um livro seu: Hombres de lluvia.

É preciso dizer mais alguma coisa?

O incrível futuro

«Nada. Ninguém pode impedir que seja assim. Um dia, serei velho, terei uma colecção de queixas físicas, maiores e menores, e lerei o meu nome na capa de antologias, ao lado de nomes que, hoje, toda a gente desconhece. Terei cabelos brancos, já tenho, e pouco interessa imaginar se serão as costas a cansar-se primeiro, se será o estômago que quererá desistir; interessa apenas a esperança de, ainda nessa altura, querer ser velho, mais velho, e ter a sabedoria imensa de recusar ser antigo. Interessa saber olhar para esses nomes futuros e ser capaz de lê-los, que é o mesmo do que dizer: ser capaz de procurar no seu interior. Eles não precisarão de mim para nada, mas eu dependerei deles para tudo, para continuar vivo.
Hoje, alguns desses escritores estão na pré-primária que há no outro lado da rua onde vivo. Cruzo-me com eles muitas vezes. Têm chapéus amarelos, presos com elásticos por baixo do queixo, e atravessam na passadeira, de mãos dadas, em filas de dois, quando a educadora de infância decide levá-los a passear. Hoje, muitos desses escritores ainda não nasceram. Neste momento preciso, há namorados a imaginarem nomes para os filhos que não sabem se vão ter: se for menino, se for menina. É mais difícil encontrar nomes para rapazes, dizem. (…)»

- José Luís Peixoto (Jornal de Letras)


«Há muitas coisas que percebo que não sou, mas dizer exactamente o que sou não consigo. Tento, dia a dia, ganhar o título de ser uma pessoa. E já não é pouco.»

- José Luís Peixoto (Notícias Magazine)


«Penso que o amor é muito difícil. Existem muitos obstáculos a que possa ser o absoluto que é. A palavra amor é uma palavra muito gasta, muito usada, e muitas vezes mal usada, e eu quando falo de amor faço-o no sentido absoluto... há uma série de outros sentimentos aos quais também se chama amor e que não o são. No amor é preciso que duas pessoas sejam uma e isso não é fácil de encontrar. E, uma vez encontrado, não é fácil de fazer permanecer.»

- José Luís Peixoto (Notícias Magazine)

Monday, July 24, 2006

Poética do desespero sem nome




Lamber feridas. Encostar o coração à boca e gritá-lo disparado, como um míssil, para junto de ti.

Saturday, July 22, 2006



Acordei atordoado com o conteúdo do sonho que tivera, mas, simultaneamente, com uma plenitude própria de ter recebido uma mensagem que me era destinada.
Se o atordoamento tem justificação (quantos vezes acordamos de um sonho petrificados com o final do mesmo?), já a ideia de os sonhos serem constantes mensagens que o cérebro nos envia com a intenção de nos poupar sofrimentos (neste caso?), ou outro tipo de mensagens, deixou-me primeiro em êxtase, seguindo-se, rapidíssima, a total estupefacção.
Resumindo: acordei e tive duas sensações: estava atordoado pelo conteúdo do sonho e resignado pela forma como chegou até à minha consciência.
O irónico é que, acabado o período autista que surge quando abrimos os olhos, os papéis mudaram de lado.
Do atordoamento provocado pela mensagem propriamente dita, passei a uma compreensão e aceitação do conteúdo; por outro lado, a sensação de plenitude por saber o meu cérebro a funcionar correctamente, deu lugar à indignação e incompreensão.
Como pode o cérebro, animal vicioso e depravado, enviar mensagens directamente para os nossos sonhos, sem aviso prévio? E serão fiáveis essas mensagens? O que é que o cérebro sabe, que eu não sei? Tudo isto é perturbante…
Tendo em conta que o cérebro (entidade divina do corpo) faz parte de mim, e que sou constantemente surpreendido através dos sonhos, o que se pode (e deve) concluir é que eu não sei tudo sobre mim. Conclusão óbvia, dirão alguns. Não tão óbvia assim. Vejamos:
Qual será a credibilidade de um cérebro para pôr e dispor de nós, conforme entende? Achará o dito que nós não o conhecemos já de ginjeira? Aqueles sonhos todos trocados, aquilo é coisa que se apresente por parte de Sua Excelência, toda-a-poderosa Massa Cinzenta?
Não me deixo enganar. Aquelas vacas amarelas em cima da televisão, os amigos com corpos de cobra, os jardins da minha cidade inundados pelas ondas do mar em noites húmidas, a ex-namorada a dar-me beijos… Vou confiar neste tipo?
Não. Não, não e não. O exercício que vai revirar as entranhas já está no prelo: antes de adormecer, pensar em coisas totalmente normais: namorados no jardim aos beijos; vacas a pastar; uma mulher, em casa, a mudar canais; alguém que diz a outro: “Amo-te”.
Coisas comezinhas. O quotidiano. Nem mais nem menos. Quero ver se o gajo continua a mandar atrozes mensagens, enquanto descanso…
Esta foi a última vez que acordei a meio da noite para escrever sobre o cérebro. Acabou-se. Preciso de dormir, o corpo está cansado, não quero saber de mim mais do que aquilo que sei, não quero medos nem imaginações, não quero coisas impossíveis.

Ela levantava-se da mesa, olhava-me enquanto ajeitava o cabelo dos olhos, sorria (juro que o Sol lhe dourava a face) e dava-me um beijo.

Cabrão do cérebro. Não basta já a realidade?

Importa-se de repetir?



Estou em frente da televisão. Um programa da tarde tem como convidados especiais três actores dos “Morangos com Açúcar”. Os ganhos revertem para uma instituição. Na tela aparecem três palavras: Erodito, Estabilisar e Exímio.

- Qual destas palavras está bem escrita? – pergunta a entrevistadora.
- Hummm … - depois de 10 segundos, a actriz convidada: - Erodito!
- Não – diz Leonor, preocupada com as criancinhas que vêem o dinheiro por um canudo.
- Ah! Já sei – a entrevistada teve um visão de génio – Exímio! Pois, pois, é isso! Erodito está mal escrito. É erodiCto, com c…
A câmara filma o actor que se encontra ao lado desta Simone de Beauvoir da Falagueira. O ser ar é de pura descrença.

Como é óbvio, por uma questão de educação, não vou revelar a identidade desta brilhante actriz. Não seria digno.

Friday, July 21, 2006

Praga

Segue a viagem virtual a acompanhar o Sérgio. Cidade de muitas belezas, é, nos ditos do nosso viajante, a cidade com mais mulheres bonitas por metro quadrado. Esta informação nada tem de fútil; é, antes, um tratado à beleza e ao sublime...

Na última foto, não é despiciendo o galo, em primeiro plano. Digamos que é uma tentativa (mais ou menos patriota) por parte do autor deste blogue de relacionar os países. Numa abordagem psicológica, poderemos até falar em tentativa de estar mais próximo do viajante Sérgio e da cidade em causa. Quem não tem cão, caça com galo...


Thursday, July 20, 2006

Por morrer uma andorinha...



Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera

Como vês não estou mudado
E nem sequer descontente
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado

Eu já estava habituado
A que não fosses sincera
Por isso eu não fico à espera
De uma emoção que eu não tinha
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era

Vivo a vida como dantes
Não tenho menos nem mais
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distantes

Horas, minutos, instantes
Seguem a ordem austera
Ninguem se agarre à quimera
Do que o destino encaminha
Pois por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera

Carlos do Carmo

José Carlos Ary dos Santos


Partir É Morrer Um Pouco

Adeus parceiros das farras
Dos copos e das noitadas
Adeus sombras da cidade
Adeus langor das guitarras
Canto de esperanças frustradas
Alvorada de saudade.

Meu coração como louco
Quer desgarrar no meu peito
Transforma em soluço a voz
Partir é morrer um pouco
A alma de certo jeito
A expirar dentro de nós.

Voam mágoas em pedaços
Como aves que se não cansam
Ilusões esparsas no ar.
Partir é estender os braços
Aos sonhos que não se alcançam
Cujo destino é ficar.

Deixo a minh’alma no cais
De longe alcanço sinais
Feitos de pranto a correr.
Quem morre não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer!

Quem morre não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer!



Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

Wednesday, July 19, 2006

O Poeta é um ser transcendental?



Casa - "Surpresa. Após tanto deste amor, supunha tê-lo espalhado pelo mundo."

- Giuseppe Ungaretti

Questão: Se "o poeta acaba sempre por encontrar as palavras que nos encaixam", como diz a azuki, o que faz com que esse mesmo poeta tenha essa capacidade? Nasce o trabalho do poeta através do seu especial talento ou, antes, de muito trabalho? Ou das duas? É da transpiração que vem a obra-prima ou da inalcançável transcendência?



Tuesday, July 18, 2006

Não, não é uma pintura antiga, é o Brad Pitt fazendo de Aquiles. E depois?


De um blogue não engravatado (Leitura Partilhada), um texto interessante, um dia depois de ter visto pela primeira vez o filme "Troy" e, mais uma vez contra preconceitos, ter gostado bastante do filme, ao ponto de achar que está bastante bem conseguida a (sempre) difícil tarefa de passar um livro destes para cinema:

INTIMAMENTE ESTAMOS TODOS DO LADO DOS TROIANOS Homero é inquestionavelmente um grande poeta, isso não se pode negar. Mas, devo cair aqui em uma heresia: para mim, a Odisséia é muito superior à Ilíada. A Ilíada tem algo de ignóbil, o tema de cantar a ira de um homem. Podemos salvar Homero supondo que se preferimos Heitor é porque ele também preferia Heitor. Creio que visto assim… por que todo mundo sente simpatia por Tróia e por Heitor e ninguém sente simpatia pelos gregos? É porque são melhor mostrados os troianos. Podemos supor que Homero, mesmo sendo grego, estava intimamente de lado dos troianos. Se todo mundo leu a Ilíada do ponto de vista de Tróia é porque o autor também a escreveu do ponto de vista de Tróia. Não creio que se equivocasse. Todos queriam descender dos troianos e ninguém quis descender de Aquiles. Posso lhe dar um dado bastante curioso: estava lendo a História dos reis da Noruega, de Snorri Sturluson, e há uma referência a Thor, o deus do trovão, e este homem escreve no século XIII, na Islândia, e diz que Thor era, sem dúvida alguma, proveniente de Héc-Thor. Todos queriam ser troianos, mesmo esse homem, ali no distante norte, queria que seus deuses fossem troianos. E depois, sempre que se fala de Odin se diz que veio de Tróia. Todos sentiam atração por Tróia. Não lhes ocorria dizer que eram parentes de Aquiles ou de Agamenon.

Jorge Luis Borges

Monday, July 17, 2006

Budapest

Ao meu amigo Sérgio, que por esta altura vagueia pelas ruas magiares de Budapeste, uma pequena comemoração da vida:






Saturday, July 15, 2006

Nalini-Poem



Drinking
a women laughs
in front of the sea
(I love her laughter).

Dancing and singing
on a roof,
In front of the sea
(a silent sea).

Her hands
(I love her hands)
are birds
hugging the night.

Her eyes (deep magic eyes)
(in front of the sea)
are melting
(dancing and singing).

Our eyes (hugging the night)
are melting
in front of the sea.

My words
(like birds)
dance
inside her heart.

She dance
(like birds)
inside my words.

Our hearts
(like words)
fly
above the sea.

And a bottle of Gin
make her say
that she loves me...


Ricardo Silveirinha

Firenze

É este o sítio que eu quero conhecer. Esperemos que em Dezembro...


Wednesday, July 12, 2006

Sunday, 1926, Edward Hopper



Do livro "El otro Sueño", 1987

A MAL CASADA (1987)

Dizes-me que Juan Luis não te compreende,
que só pensa nos seus computadores
e que não faz caso de ti de noite.
Dizes-me que os teus filhos não te ajudam,
que só te dão problemas, que se aborrecem
com tudo e que estás farta de aturá-los.
Dizes-me que os teus pais estão velhos
que se tornaram tacanhos e egoístas
e que já não és a sua menina como dantes.
Dizes-me que já fizeste trinta e cinco
e que não é fácil começar de novo,
que os únicos homens que conheces

são os colegas de Juan na IBM
e não gostas de executivos.
E eu, o que é que eu faço nesta história?
Que queres que eu faça? Que mate alguém?
Que dê um golpe de estado libertário?
Amei-te como um louco. Não o nego
mas isso foi há muito, quando o mundo
era uma reluzente madrugada
que não quiseste compartilhar comigo.
A nostalgia é um passatempo grosseiro.
Volta a ser a que foste. Vai ao ginásio,
Pinta-te mais, disfarça as tuas rugas
e veste roupa sexy, não sejas tonta,
que talvez Juan Luis te volte a mimar,
e os teus filhos vão para um acampamento
e os teus pais morram.

Luis Alberto de Cuenca

Tuesday, July 11, 2006

Closer, 2004, Mike Nichols



Um filme onde nada é o que parece. A começar pelo elenco. Lemos os nomes dos actores e ficamos com aquele amargo de boca, aquela sensação de estarmos perante mais um cansativo jogo de namorados, clichés e beijinhos no final com o plano a afastar-se.
Não podíamos estar mais enganados. O filme “Closer” de Mike Nichols é tudo menos um filme de Domingo à tarde para repousar o cérebro. De tanto nos “ofender” no nosso suposto belo romantismo, chegamos ao final destroçados, cansados e – ironicamente – repletos de uma sensação de reconforto. É no jogo entre o desvario das emoções e a crueza das soluções que todo o filme se sustenta. Aquele que domina afinal é o dominado. O que ama afinal não ama. O amor, esse, serve de cobaia para uma coisa maior – a realidade; e esse facto (o amor não reinar, antes servir) é uma revelação e uma balde de água fria nesta nossa mania de sermos muito leais, muito fiéis, muito romântico-patéticos.
Julia Roberts faz o melhor dos papéis. Nem parece a mesma. Afinal, Julia pode ser chamada de actriz. Natalie Portman, para além da beleza cinematográfica mais fascinante dos últimos tempos, é belíssima. Actriz, actriz, actriz. Um portento de representação. Jude Law, o mais fraco; ainda assim, capaz de transportar as emoções e cruezas da personagem. Clive Owen deslumbrante. Em todos os sentidos.
Quem quiser ver o filme, que veja. Não vou fazer sinopses nem resumos alargados. O filme merece ser visto por quem se quer desiludir da desilusão.

Monday, July 10, 2006

A melhor invenção do Mundo (só comparável ao futebol)


Ingredientes:

q.b. água tónica

1 casca de limão

40 ml gin

1 rodela limão

Preparação: Esfregue a parte verde de uma casca de limão nas paredes internas de um copo alto. Deite muitas pedras de gelo e o gin. Complete com água tónica. Decore com uma rodela de limão.


Thursday, July 06, 2006

We had a dream...

A final do Campeonato do Mundo é, desde ontem, uma impossibilidade. Apetecia-me dizer tanta coisa sobre o jogo, mas não...
Não digo nada. É certo que um objectivo enorme se gorou ontem à noite. Mas o sonho - ah o sonho! -, esse já ninguém mo tira...

Thursday, June 29, 2006

Jules Rimet, nós queremos-Te!



Que não haja confusões: eu amo o Futebol. Dos pés à cabeça, de cima para baixo, de baixo para cima, de dentro para fora, amo o futebol. O jogo, as tácticas, o xadrez psicológico, o xadrez físico, o público, as bandeiras, as conversas de café, as (des)ilusões, as paixões, o erro do árbitro, o penalty «à Panenka», o penalty «bem marcado», a basculação, o pressing alto, a revienga, o golo. Amo o golo. Por todas estas razões, talvez tenha cometido uma heresia quando me veio à cabeça que todo este «circo» em redor do Mundial de Futebol seja, em perspectiva, um pouco exagerado. Bem sei que todos queremos ser campeões do Mundo, mas – que raio! – não estaremos a deixar o país e os governantes entregues a si próprios? A sensação que dá é que andam uns tontinhos a passar leis «por debaixo dos panos» enquanto a malta rejubila com os golos do Maniche e companheiros (eu não sei o que me deu para dizer estas barbaridades). O país tirou férias? Alguém no seu perfeito juízo estará com a cabeça em território nacional? Falo por mim: a medida do meu tempo é o jogo de Portugal. Um atrás de outro. Pelo meio, são dias em que se festeja a última vitória e se anseia por outra. Não há mais para além disso; talvez um sonho cumprido, outro desfeito, uma boa almoçarada, um filme, uma conversa às tantas, uns copos bebidos… mas no fundo, lá no fundinho, a certeza de um jogo dentro de um dia, de dois, a cabeça fazendo contas, esquemas mentais (ora, o Deco não joga, vai o Figo para o meio, ou jogamos com o Tiago e o Figo vai para a ala?), o dia que não chega, ocupar espaço lendo um livro, tomando mais um banho, brincar com a cadela.
Não sei o que me deu para tamanha barbaridade intelectual, mas, de facto, lembrei-me de me perguntar se não estaríamos a levar o Mundial como a única salvação possível, o único motivo para respirar. A malta está cá? Deu sinal de vida? É certo que quando passo na rua as pessoas continuam o seu caminho, falam, bebem cafés, fingem que a cabeça delas acompanha os passos, mas depois as bandeiras nas janelas, um olhar suspeito (vai para casa ver o «Missão na Alemanha»), o barulho do patriotismo ecoando nas ruas, e é tempo para perguntar: O país tirou férias? Haverá Ministros cá no burgo? Secretários de Estado? Funcionários? Senhoras da limpeza, trabalhadores? (Eu não sei o que me deu, juro) …
Pergunto-me como andarão os que não gostam de futebol. Por um lado, felizes – o país é deles! -, por outro angustiados – deve ser horrível não ter com quem falar, improvisar uma conversa sobre Cinema e alguém começar a dizer que o Lynch deve jogar nas alas porque, apesar do seu carácter sombrio e confuso, quando quer sabe limpar e jogar simples; alguém que se lembra de um Tarantino, exímio guarda-redes, com golpes arriscados, estilo América do Sul; Almodóvar como roupeiro e Jacques Tati deambulando pelo meio-campo adversário. E isto durante semanas! O pobre do homem que não gosta de futebol cheio de espaço no país e a companhia que não existe, ou que é aborrecida. Ah! Se a Jules Rimet não estiver nas nossas mãos daqui a duas semanas, meus amigos, vamos encontrar um país em ruínas…

Tuesday, June 13, 2006

Pérola