Coisas
Aqui não se vendem gravatas às riscas.
Quer começar por apresentar o filme?
- O filme apresenta-se a ele próprio. A minha cabeça esvaziou-se. O filme saiu-me da cabeça e está registado. Não tenho a noção de conjunto, do que está feito. Se calhar daqui a uma semana já tenho; é que ainda não o vi.
Nesta fase de montagem não tem, paradoxalmente, uma ideia muito mais precisa? Há um visionamento do que foi feito.
- Mas é parcelar e descontínuo. Trabalha-lhe sobre parcelas e não sobre a totalidade.
Também se filma em parcelas. O filme corresponde ao que idealizou, ao que começou por existir na sua cabeça?
- Sim. É um filme cheio de peripécias que deveria ter sido feito em 92. Foi inicialmente pensado para ser rodado em Paris e depois andou em bolandas. Por razões que têm a ver com produção, orçamentos, etc, foi-me proposto que fosse feito em Évora. Mas achei que não dava, a minha relação com a cidade... Depois pensei no Porto; andei a ver lugares e chegou a ser escrita uma versão portuense. Mas faltaram-me alguns apoios locais, nomeadamente da parte de cenografia, e optei por Lisboa.
Não deixa de ser interessante que, apesar de todas as peripécias, Lisboa continue a ser a sua cidade; mesmo sendo uma cidade diferente da que filmou nas «Recordações da Casa Amarela».
- Sim, mas o filme tem muito pouco de Lisboa porque ao fim da primeira semana de rodagem levou uma grande volta. Apareceu-me um actor, muito bom actor, que vinha para fazer um papel pequenino; achei que seria uma pena desperdiçá-lo e resolvi confiar-lhe a parte que me estava destinada. Era para ser uma viagem numa carroça puxada por um burro, uma espécie de périplo joyciano com visita a vários lugares. Resolvi mandar tudo às urtigas e o périplo ser confortavelmente narrado.
Mas continua a ser um périplo joyciano, no sentido de atravessar a condição humana?
- Sim, sim. O filme é maioritariamente falado em francês. Ainda pensei em fazer uma versão portuguesa mas não pude contar com os actores com quem me apetecia trabalhar, não estavam disponíveis.
Voltando à essência do filme e ao périplo joyciano. Quais são, no filme e para si, os pontos chave do percurso?
- É preciso que eu faça um pequeno preâmbulo. O objectivo era fazer o filme para comprar uma casa, não sei se me faço entender, ganhar massaroca. A fórmula que me deu dinheiro foi um contrato, vantajoso financeiramente, que assinei com o meu produtor para fazer este filme.
Filma, então, para comprar casas?
- Fiz este filme para comprar uma casa. Pode ser que faça outro para comprar uma segunda residência. Portanto, parece haver da minha parte um certo interesse no chamado investimento imobiliário. Isto é uma coisa muito segura; o filme é mais duvidoso. Para já há um pequeno paradoxo: não faço a mais pequena concessão ao comércio, ao público, embora um filme seja um objecto comerciável, com um determinado valor enquanto mercadoria. Mas aí, já ganho muito pouco.
Como assim?
- Poderia ganhar se me fossem pagos os direito de autor, se houvesse uma sociedade que se ocupasse disso e não há. Posso dizer-lhe que até hoje, em direitos de autor, ganhei trezentos e quarenta escudos e tenho mesmo o recibozinho que vou emoldurar.
Mas vive-se hoje uma fase diferente no cinema português. Com este filme ganhou dinheiro para comprar uma casa.
- Ouça, se me pagam para poder comprar uma casa suponho que não é pelos meus lindos olhos... Suponho eu.
Nunca questiona o seu talento?
- Eu não sei se tenho talento, começo por aí. Não me ponho essa questão, nunca na vida, quero lá saber! A única coisa que faço questão... Como costumo dizer, é merda mas é a minha. Deixar as minhas marcas. Num filme, no mundo.
Mas esse é um processo que envolve prazer? Os filmes dão-lhe prazer?
- Não me dão nenhum particular prazer. A não ser episodicamente. Posso entusiasmar-me com determinados planos, porque sinto que há uma conjunção de factores múltiplos favoráveis a um bom resultado. Dá-me imenso prazer ver o jogo de actores e a relação que estabelecem com a luz e com o resto.
Faz filmes exclusivamente porque precisa de ganhar dinheiro, não os faria de outra forma?
- Não.
O que é que gosta de fazer?
- Nada. A sério.
O que é o seu ideal de um dia perfeito?
- [Hesita] Não sei se há dias perfeitos. Sou sensível aos ruídos, à luz, às pessoas, mas não sou antropocêntrico. Estou cada vez mais céptico em relação aos seres humanos.
Está desencantado?
- Eu nunca gosto de ser muito afirmativo... Digamos que estou pouco encantado. Desgosta-me a sociedade da qual me tento excluir na medida do possível. Mas isso tem um preço, não é muito agradável. Não tenho à minha volta as pessoas que queria.
Essa margem de desencanto foi-se agudizando com a idade? Deixou de ser ingénuo ?
- Não sei se perdi inteiramente a inocência. Se não perdi inteiramente estou em vias de. Mas tento preservar o meu lado infantil. O mundo é das crianças.
O princípio das crianças é o princípio do prazer.
- Não tenho tido muita convivência com crianças. Sinto-lhes a falta. Acho que é o meu mundo. A sua espantosa capacidade de curiosidade e a sua espantosa capacidade de verbalizar o que vêem, o que ouvem e o que sentem.
Olhando para si não se consegue imaginar como foi o João César Monteiro Criança.
- Venho de uma pequena cidade de província, uma pequena cidade chamada Figueira da Foz, e estabeleci logo uma reputação que não era boa, devo confessar. Diziam que tinha comprimidos atómicos dentro do corpo, que era muito endiabrado. E dizia-se pior ainda: que eu era o terror da cidade. Fazia, em suma, as piores patifarias, coisas mesmo atrozes. Uma vez pus uma cana na porta de saída do autocarro para as peixeiras caírem. Outra coisa que também me agradava muito era apalpar mamas, sobretudo a criadas. E por isso fui punido com um bofetão. Tinha sete, oito, nove anos.
Uma hiper-sexualidade?
- Não diria tanto. Seguramente era a sexualidade difusa da idade. Outra coisa que eu gostava muito de fazer era levantar saias às meninas. Fui suspenso do liceu quinze dias.
Dava-se com rapazes ou com raparigas?
- Com rapazes. As meninas era só para espreitar debaixo das saias.
Qual é para si a grande diferença entre ter uma amiga mulher e um amigo homem?
- Bom... A pergunta é embaraçosa. Como não tenho amigos, nem amigos homens nem amigas mulheres, isso coloca-me alguns embaraços. Aceito mal algumas expressões, como “gosta de mulheres, gosta de homens”. Não é verdade que goste de mulheres. É rigorosamente verdade que posso gostar de algumas mulheres. Poucas. E homens a mesma coisa. Mas isto não responde à questão da amizade. Tratando-se de amizade não há diferença nenhuma. Só que, às vezes, com as mulheres acontecem outras coisas que já não têm a ver com amizade. Têm a ver com desejo ou com paixão. Evito falar na palavra amor. A diferença entre amizade e amor é que o amor é sempre, sempre exclusivo.
É um homem de muitas paixões? O cepticismo de que falou também se estende ao campo amoroso?
- Sou sensível às fraquezas da carne e normalmente fico-me por aí. A minha rota é uma rota de gratidão, «Obrigadinho por este bocadinho». Vai-se além disso uma, duas vezes na vida. Sei do que estou a falar porque já tenho cinquenta e oito anos - embora não pareça... Homens, nada!
Transporta sempre essa sexualidade à flor da pele para os seus filmes?
- Ah! Pois concerteza.
Neste filme como se inscreve o desejo?
- O desejo está inscrito no corpo do filme e na cabeça das personagens masculinas.
Parece que na sua cabeça as mulheres não têm desejo, são só objectos de desejo.
- Trouxeram-me uma vaca francesa para este filme, o que é que poderia fazer? Não tenho culpa nenhuma. Os actores eram muito mais interessantes que as actrizes e isso conta. Digamos que este é o meu primeiro filme misógino. O que não quer dizer que suceda no próximo.
Na sua cabeça está sempre tudo a mudar.
- Ai isso está.
Ao cabo de uma semana de rodagem decidiu alterar tudo com a chegada de um actor francês.
- Repare que foi ele que decidiu. Se não fosse aquele actor...Foi ele que fez mudar o curso das coisas.
Mas foi você que orientou a mudança das coisas.
- Mas esse é o papel de um cineasta.
Qual é a sua atitude? Mudar diariamente, adaptando-se às circunstâncias?
- Exactamente. É um processo muito pouco egocêntrico, isto é, há um ego que não impõe nada, que se deixa visitar como uma fêmea e que recebe as coisas.
Eu diria que é terrivelmente egocêntrico, está nos seus filmes de todas as formas. Mas enquanto cineasta há aqui uma pequena incoerência. No começo da nossa conversa falámos de si enquanto general e da equipa que existe para executar as suas ordens; agora estamos a falar das sugestões da equipa e da sua relação com o general.
- Eu faço uma distinção entre equipa e actores. A um fotógrafo peço que seja feita uma fotografia assim e não assado; isto é acordado e não tem discussão. Este é um filme feito com um projector e o resto com luz natural. O som acordou-se que era directo. Isto são coisas traçadas desde o início do filme. O relacionamento com actores é de outra ordem. No meu caso recuso a palavra director de actores, não sei dirigir actores, não quero dirigir actores. É uma relação de cumplicidade e empatia para que as coisas funcionem. Ou não. Se não se estabelece uma troca não há funcionamento possível. Foi o que aconteceu com a vaca francesa que me foi impingida pelos produtores. Neste filme, por circunstâncias várias, houve um óptimo relacionamento.
É mais sensível ao talento ou à componente humana?
- Sou sensível às duas coisas, tenho preferência por uma humanidade talentosa. Ainda agora tive um susto com um actor. Sabia que era talentoso, simplesmente apareceu-me num estado inconcebível, a cair de bêbedo e sujo. A minha primeira reacção foi «Este tipo vai para Paris, já!», e cheguei a falar-lhe nisso. Depois dormi sobre o assunto e preparei-me para o aguentar três ou quatro dias, era um papel pequenino, podia transformar a personagem dele num bêbedo insuportável. No dia seguinte ele apareceu-me lavadinho, vi-o num primeiro plano, fulgurante, pensei que ia bem com o outro e poupava-me trabalho a mim porque era eu que ia fazer o papel...
Não gosta mesmo de trabalhar, pois não?
- Não tenho o direito de dizer que não gosto de trabalhar porque o meu trabalho num filme é privilegiado, sou omni-senhor. Nesse sentido gosto. O que acontece é que não estava em condições físicas de suportar a dureza de um filme. Adaptei-o à minha debilidade física e até, de certa maneira, psíquica. Fiz um filme em cinco semanas trabalhando quatro horas diariamente.
Qual é o seu esquema, ensaia as coisas, prepara-as minuciosamente?
- Nem sempre sai, mas tento filmar à primeira. As coisas estão devidamente preparadas, sobretudo neste filme com sequências bastante longas- alguns planos têm dez minutos. Para os actores é formidável, nem sequer têm aquele aparato da luz...
A luz e a música são elementos fundamentais nos seus filmes.
- Sob esse ponto de vista, este tem coisas fabulosas. Tive sorte, apanhei dias de nuvens com vento e, como os planos são longos, as variações luminosas são muito grandes.
Filmar com a luz natural...
- É o grande iluminador, o Nosso Senhor...
Isso prende-se com uma ligação maior à vida e às pessoas de todos os dias?
- Sobretudo permite rodar com uma grande rapidez. Chegámos a filmar vinte, vinte e cinco minutos por dia. É mais que nas telenovelas sem ter o ritmo das telenovelas. Há só um ângulo, que foi aquele que escolhi, e não há mais nada, não há rede.
As coisas já estão grandemente definidas quando chegam à montagem?
- A montagem de imagem fez-se numa semana. O som dá mais trabalho.
Voltando à luz e às pessoas. De que estímulos é que se alimenta para a sua construção, enquanto cineasta e enquanto pessoa?
- Onde vou beber? Tirando a parte alcoólica da questão, alimento-me do que fui sedimentando ao longo dos anos, das minhas memórias, das coisas com que me fui cultivando. Livros, músicas, filmes, bacalhau com batatas...
E observa muito as pessoas?
- Agora menos.
Não me diga que as personagens da «Comédia de Deus» ou da «Casa Amarela» saem todas desses livros, dessas músicas e desses filmes. Está com essas pessoas?
- Um bocadinho. Quer dizer, há umas camadas sociais que não aprecio assim muito. O que resta de certas camadas populares, certas tascas antigas...
Porquê essas camadas populares? É a procura da simplicidade?
- Há um certo modo de estar, que curiosamente não é preconceituoso, um certo à vontade, até no modo de expressão, por vezes grosseiro, que me agrada. Não é um modo simples, é um modo franco.
Todas as entrevistas suas que li foram feitas por homens; a sua linguagem era, por vezes, grosseira - para usar o seu termo-, e mais próxima daquela que é a sua linguagem fílmica.
- Mas eu posso ser extremamente delicado.
O que é que o faz ser delicado?
- A alteridade, isto é, o reconhecimento do outro.
Significa que se eu fosse um homem e usasse outras palavras...
- Não, significa que eu posso ser extremamente delicado quando sou afectuoso, quando há um embrião de afecto. Sou uma pessoa doce, de um modo geral. Mas também tenho fúrias.
Tem um conhecimento e um controlo de si na doçura e na agressividade?
- Normalmente controlo-me; ou faço as coisas deliberadamente. Quando não gosto de uma pessoa, cinco minutos depois dou-lhe a entender isso mesmo, para que não haja equívocos; e quando gosto, utilizo os meus estratagemas.
Vai treinando?
- Um bocadinho. Agora como descobri que sou actor, um péssimo actor, mas enfim...
Acha mesmo que pode dizer isso de si? Até já ganhou um prémio muito sério...
- Acho que não sou um bom actor.
E realizador?
- Acho-me francamente bom, atendendo ao que há para aí...
Agora é actor...
- Sim, faço os meus exercícios. E como criei uma personagem, dá-me um certo prazer, na vida real, de vez em quando, comportar-se como o Senhor João de Deus.
Mas ele não é uma parte de si, um dos seus heterónimos? Há o Max Monteiro- Actor, o João César Monteiro- Realizador, o João de Deus- Personagem...
- É um personagem com determinadas características, um ser livre. Praticamente tudo lhe é permitido. Utilizo-o como um teatro. Por vezes torna-se chocante. É verdade que isto incide sobretudo em meninas ou em senhoras.
E como é que elas reagem ao seu treino de Senhor João de Deus?
- Digamos que em cada dez há uma que marcha. As outras nove manifestam pouco interesse na personagem e a personagem não se torna demasiado insistente. Não vale a pena pregar no deserto.
Você é muito mais lúcido do que parece.
- Toda a gente que me conhece sabe isso. De maluco tenho muito pouco.
Gosta de representar, então.
- Mas não acha que o nosso quotidiano é muito cinzento? Eu raramente me aborreço. Um dos meus prazeres é olhar para as meninas, vê-las passar, cheirá-las, extasiar-me com elas.
É uma relação unilateral.
- Felizmente é uma relação unilateral, senão não tinha mãos a medir!
Esse é o seu primeiro pensamento? Estamos aqui na esplanada...
- Sim, pode dizer-se. Se eu fosse um sucesso total, tinha de abdicar, não fazia mais nada. Tenho de catar melhor a vizinhança, talvez haja alguma mãe solteira nas redondezas...
Poderia viver num outro país, numa outra cidade?
- Pensei em ir viver para o Porto. Noutro país nem pensar! Não me imagino a viver em Paris ou em Barcelona.
É assim tão português?
- Sim, sim.
Os nacionalismo preocupam-no?
- Os nacionalismo preocupam-me. E o Bundesbank também. Não sou um nacionalista, tenho é ligações com isto. Por acaso, não especialmente com Lisboa.
Não especialmente com Lisboa? Quase parece um contra-senso, depois de o ver e de o ler.
- Cheguei à conclusão de que podia viver no Porto. Não poderia viver, ou viveria mal, em Évora ou na Figueira da Foz.
Do que é que precisa nos sítios para lá viver?
- Preciso de uma casa.
Também pode ter uma casa em Évora.
- Uma segunda residência, para os fins de semana. Preciso de uma ou duas mulheres, não mais, e de crianças, que até já podem estar feitas.
E crianças um bocadinho mais crescidas? Raparigas tenras como as que apareceram nos seus filmes.
- Gosto de crianças crianças. As adolescentes da «Comédia [de Deus]» sabem mais do que eu, foram muito bem industriadas e não são assim tão novas como parecem. Não é que tenha um gosto especial por crianças...; gosto de algumas. Até suponho que tenho uma; por acaso é rapaz.
Se fosse rapariga mudava alguma coisa?
- Mudava porque se trataria de um outro ser.
O que é que tenta passar ao seu filho?
- Tenho uma boa relação com o meu filho. Neste momento não faço grande coisa com ele porque não o tenho visto. Mas gosto de levá-lo a passear, impingir-lhe umas coisas, o gosto pela leitura, desviá-lo da televisão na medida do possível _ o que é difícil para um pai hoje em dia. Temos alguns gostos comuns, não necessariamente cinematográficos.
Ele vê os seus filmes?
- Vê, não estou seguro de que goste de todos. Mas isso para mim não tem importância nenhuma.
Há alguém a quem mostre os seus filmes e cuja apreciação crítica seja relevante?
- Tenho imenso respeito por alguns críticos de cinema. Que já morreram. Aqui há uns dez anos atrás havia uma pessoa que tinha bastante importância a quem eu mostrava os argumentos que escrevia, o Carlos de Oliveira. Morreu e não encontrei substituto.
Não me diga que nunca se sente inseguro?
- Acho que sim. Num filme, por exemplo, é uma coisa que toda a equipa sente. Tenho uns truques. Normalmente passam por... Bom, não devia estar a revelar isto... Faço umas birras e não sei quê. O intuito é, quase sempre, ganhar tempo, se se trata de uma cena mal pensada ou qualquer coisa no género.
Além da insegurança, revela sentimentos como a sensibilidade extrema ou a comoção?
- Por vezes sinto-me empedernido, mas ainda me consigo comover.
Lembra-se da última vez que chorou?
- Lembro-me que chorei depois de ter sido agredido por três ou quatro polícias. Chorei de raiva e de humilhação. Ainda por cima foi uma história disparatada. Eu encontrei um tipo que é deputado do Partido Socialista, por acaso um rapaz do Porto, e entrei com ele em S. Bento, na Assembleia, a conversar; depois, ele deixou-me num corredor e eu andei para ali sozinho até que, de repente, me saltam três ou quatro polícias em cima.
E agridem-no sem você fazer nada?
- Exactamente.
Está a falar a sério?
- Estou a falar a sério. Chamei-lhes logo Filhos da Puta, uma expressão que utilizo muito. Gosto imenso da expressão Filho da Puta. Tenho uma engatilhada há anos. O meu sonho é ser julgado em tribunal e quando o juiz disser «levante-se o réu», a minha resposta é «levante-se você, seu filho da puta». Agora, como para chegar até ao tribunal é uma maçada, estou a pensar metê-la num filme.
Seria óptimo para si viver numa anarquia.
- Seria bom para todos. A anarquia é uma coisa muito ordenada.
Qual é o seu ideal de sociedade?
- Sou por uma transformação radical da sociedade, por meios violentos. Se pudessem ser pacíficos tanto melhor, mas já se sabe que assim não se vai lá. Vai haver uma nova revolução, mas não nos mesmos moldes das fracassadas revoluções.
Não se sabe é quando.
- Todo o sistema capitalista está agónico, é um sistema autofágico. A revolução será menos classista e, se calhar, serão os próprios ricos _ deixe-me usar esta linguagem simples _ que vão ter de a fazer. O mal estar está perfeitamente instalado na classe dominante. A classe dominada tem os problemas do costume, de sobrevivência, etc; a outra tem toda a estrutura familiar desfeita, os filhos tresmalhados... Se não lhe quiser chamar revolução chamo-lhe, pelo menos, reciclagem do sistema.
Consegue imaginar-se daqui a vinte anos, com ou sem essa revolução?
- Consigo. Imagino-me na mesma.
Há vinte anos imaginava que iria ser o que é hoje, fazer o que faz hoje?
- De maneira nenhuma. Fazia uns filmezecos, sem pretensões nenhumas. Eu não melhorei; os outros é que pioraram. Piorou o cinema. Emergi por desmérito dos outros, não tanto por mérito próprio.
Vai fazer o culto do antigo? Dantes é se faziam bons filmes, escreviam bons livros, compunham boas músicas. Não há coisas que agora se façam que aprecie?
- De um modo geral não. Não vou ao cinema. Gosto de um iraniano, o Kiarostami, até lhe mandei um telegrama a dar-lhe os parabéns pelo prémio [em Cannes]. Na poesia fiquei-me pelo Herberto Helder, e gosto do Joyce.
Nós começámos por falar de um périplo joyciano. Se tiver de procurar a essência de si, como o Ulisses, o que é que encontra?
- O que encontro é uma coisa muito confusa e muito diversificada. O ser humano é múltiplo, tremendamente contraditório e não gostaria de catalogá-lo em termos de Bem e de Mal.
Quem estipula as balizas de Bem e de Mal?
- Como sou evidentemente ateu, sou eu que estipulo as minhas balizas de Bem e de Mal.
Nunca se agarra a nada quando se sente desesperado?
- Agarro-me à Ana! [a namorada, que está ao lado]. E agarro-me a uma garrafa de whisky. Enquanto cineasta é a mesma coisa; só que não me agarro à Ana, agarro-me aos filmes. Não é importante ter uma mente sã; só é importante ter um corpo são. Odeio a ideia de ser imobilizado pela doença.
Tem medo da doença?
- Tenho medo por várias razões. Inclusivamente porque não tenho assistência social, os médicos são uma fortuna, os hospitais, como diria o Baudelaire, são matadouros, e, como tenho medo, nunca adoeço. Apanho umas bebedeiras e no dia seguinte estou bom.
Do que é que tem medo, além da doença?
- Para ser franco, da miséria, da fomeca, de não ter onde cair morto e não tenho medo de morrer.
Tudo isto vinha a propósito das noções de Bem e de Mal.
- Sim. As noções remetem para uma atitude moral, não exclusivamente da esfera pessoal, também toca o cinema. Para mim o cinema não tem nada a ver com a moral, mas sim com o que é sagrado e o que não é sagrado.
O seu cinema, curiosamente, está cheio de rituais. O que é sagrado para si?
Não é preciso ver programas de humor para andarmos entretidos nesta vidinha. A situação que ontem se passou com este que vos fala (sou eu, para que conste), tem tanto de hilariante, de caricato e de inverosímil que cheguei a pensar em agarrar num comando de televisão, se o tivesse ali, para aumentar o som. E é isto:
Uma tal de Sofia Buchholz escreveu esta coisa (http://31daarmada.blogs.sapo.pt/2094159.html?page=2#comentarios):
Hoje, fiz-me sócio do Benfica. Ontem (vi-te no estádio da Luz), é o lugar em que discuto, mais dois amigos, essa coisa de ser benfiquista. E pronto. É isso.
Teremos de esperar mais quantos séculos até que alguém se digne a admitir que o João Moutinho, apesar de ser bom, nunca será um grande jogador?
Bom, bom, mas bom mesmo, está o último post do Bruno Nogueira.
Por mim era cancelar imediatamente o cartão de sócio do animal e impedir a sua entrada no Estádio da Luz... para sempre. Se mesmo numa situação de roubo descarado, nunca entenderia que um adepto entrasse no relvado e agredisse (ou empurrasse, o que queiram) um fiscal de linha, muito menos entendo quando a acção é totalmente despropositada, visto que o referido fiscal de linha não cometeu roubo algum. Animais desta estirpe não devem nunca ser identificados como benfiquistas. Ponto final.
Que o Ricardo não tem qualidade nem categoria para jogar na Selecção, já toda a gente sabe; que o Ricardo iria sofrer golos decisivos pela sua incompetência, já toda a gente esperava e era uma questão de tempo. Mas eu não posso concordar com este atirar o Ricardo para uma fogueira que comunicação social e opinião pública decidiram fazer. Alguém, no seu perfeito juízo, é capaz de achar que os 3 golos são exclusiva responsabilidade do GR? No primeiro, quem é que não travou Podolsi? Quem é que deixou o Schweinsteiger cruzar metade do campo, desde a ala até ao poste mais distante para aparecer sozinho? No segundo, alguém marcou Klose? No terceiro, apesar de empurrado, Paulo Ferreira chegaria àquela bola? Marcação entre a bola e o jogador? Não deveria ser entre o jogador e a baliza? Sim, é evidente que se fosse um guarda-redes mais competente, pelo menos uma das 3 salvava, mas não me venham com merdas, não se descubra agora o bode expiatório que serve para expiar todas as nossas frustrações.

Isto é bom. Tão bom que é crime não ler. Dá 300 anos de ignorância. Com bom comportamento, talvez chegue metade da pena. Mas só em Portugal. Ou no Brasil.
Com um treinador chamado Flores, parece-me que tanto o Nuno Gomes (maria amélia) como o Di María têm razão para sorrir: a cumplicidade feminina com o treinador fá-los-á titulares, com toda a certeza...
must say that I was bored stiff because we couldn't get a grip on the match. When we wanted to play fast we were inaccurate, when we wanted to be accurate we were tedious. Eleven functionaries on each side trying not to make a mistake.
On a day like that nobody expects a visit from history, but in that office full of bureaucrats there was one crazy man capable of anything. A crazy Argentinian, to boot. It is important to consider the nature of that person because, from that day on, Maradona and Argentina became synonymous. We are talking about a country with a clearly extravagant relationship with football, a country which made a deity of a footballer with a decidedly extravagant relationship with football. And that afternoon, which began so boringly, Maradona made extravagant through football and through Argentinian character.
Divine intervention
It all began with a long slalom, which was Maradona's natural way of running with a ball. Just before he reached the area, he found only opposition legs in his way and, seeing no way forward, knocked the ball up to me and looked for the return.
The problem I had playing with Diego as a team-mate was that he turned you into a spectator and, when he passed you the ball, it took a moment to remember that you were like him - a footballer. Well, perhaps not like him, but a footballer none the less.
The fact is that when I woke up, I shook a leg to try to play the one-two but did it so unskilfully that the ball was knocked forward by my marker. Looking at it in perspective, it was a smart move on my part because if I had touched it Maradona would have been offside. The fact is that nobody recognised my singular contribution, partly because I fell to the ground so clumsily that it embarrasses me to remember.
Fortunately, the eyes of the people were not on me. Because from the ground myself, and the rest of the world, from wherever they were, saw that ball rise in slow motion and then begin to come down on the edge of the six-yard box where Peter Shilton and Maradona went to challenge for it in the air. There something happened which I couldn't understand but which was called a goal and had to be celebrated as wildly as such an unpleasant match, a World Cup, England deserved. Maradona ran and celebrated without much conviction, as if his cry contained a doubt within. Strange goal, strange cry - I still didn't understand much until I got to the huddle and found out why.
From my position I suspected that Diego could not have reached up there with his head but at no point did I see his hand, nor God's. Any ethical scruples? Twenty years on we can have them, but at that moment we only felt joy, relief, perhaps a forced sense of justice. It was England, let's not forget, and the Malvinas were fresh in the memory.
In the days before the game I said that we had "a good opportunity to confound the idiots" but that was just playing the intellectual. When emotions come into the equation, nearly all of us are idiots. Also we shouldn't forget that we were Argentinians, representatives of a country that rationalises with the word "exuberance" what in other places is called cheating.
The other goal
The office was now turned upside down but the crazy man had only just begun. Shortly afterwards he received a very difficult ball in the middle of the pitch with his back to goal. He turned, took off and got into a series of tight scrapes from which he escaped perfectly.
I was accompanying him level with the far post as if I were a television camera tracking him. Diego assures me that he meant to pass to me several times but there was always some obstacle that forced him to change plans. Just as well. I was dazzled and I thought it was impossible (it still seems that way to me) that in the middle of all those problems he would have had me in mind.
If he had passed me the ball as it seems Plan A called for, I would have grabbed it in my hand and applauded. Can you imagine? But let's not deceive ourselves, I am convinced that Diego was never going to release that ball. Throughout those 10 seconds and 10 touches, he changed his mind hundreds of times because that's how the mind of genius in action works.
That celebration that put intelligence, the body and the ball in tune was an act of genius - but also in the most profound way, in footballing terms, of being Argentinian. What Maradona was doing was making Argentinians' football dream a reality: we love the ball more than the game and, for that reason, the dribble more than the pass.
When the ball went into the net I knew, in that instant, we were present at a moment of great significance: Maradona had just put on Pele's crown. Aware of the historical moment in which I was living, I did something that humanity has still not recognised. I, ladies and gentlemen, took the ball out of the net where Maradona had put it. The focus, fortunately, was still elsewhere. In fact, 20 years on, the ball keeps going into the net time and again in the memories of those who love football . . . and there was me thinking I'd taken it out. Jorge Valdano
Um homem que está em vários cargos - e que, portanto, tem de falar sobre vários assuntos - está muito bem e muito protegido. Tendo de falar sobre vários assuntos, não fala em nenhum. É a velha conversa do tipo que fala e não diz nada. Mas este leva aura de salvador do futebol português, dizem eles. Quem é que diz? Pois, os mesmos de sempre. Diz-se que veio revolucionar o futebol português, que, finalmente, trouxe alguma verdade à mentira que grassa(va) por estes meios desportivos. O que é que ele fez até agora? Atirou com o Boavista para a segunda divisão (sem que o Marítimo, que, segundo as leis, cometeu as mesmas ilegalidades, fosse punido de igual forma) e castigou o clube corrupto com 6 pontos (num ano em que são totalmente irrelevantes para o contexto), igual punição que teve o Belenenses por jogar com um jogador que não podia jogar. O Loureiro salvador? Deixem-me rir. É mais um agarrado aos tachos. E consta que nem sabe cozinhar...
Acabo de chegar do Estádio. Ainda trago comigo a mistura de sentimentos que este dia, este jogo, esta despedida me trouxeram. Se, por um lado, assisti a uma celebração de um fantástico jogador, e o seu fim de carreira, por outro não param de assaltar-me as imagens a que, no fim do, jogo assisti. Imagens essas de um contraste absurdo, dignas, claro, de tudo o que o futebol pode oferecer: de Rui Costa, idolatrado até ao âmago por toda aquela gente, aplaudido, gritado o seu nome, cantadas as suas músicas mas também de Léo, de tronco nu, no meio do relvado, sozinho, encaminhando-se, a passos curtos, para o balneário. Não deixei de pensar - e ainda estamos para saber se será, de facto, assim - que aquela também era a noite de despedida do brasileiro e fiquei triste. Fiquei triste porque Léo, no jogo de hoje e quase sempre nos 3 anos que representou o Benfica, foi sempre o elemento que mais correu, mais quis vencer, mais lutou, menos erros cometeu. Durante estes 3 anos e hoje, no jogo de hoje, foi ele, como sempre, dos que mais carrega aquela camisola com orgulho.Há coisas muito fodidas nesta vida. Claro que há outras mais filhas da puta que estas, que são só fodidas, mas ainda assim... puta que pariu. Claro que a perda, a tristeza, a puta da nostalgia e a incompreensível morte são de um gajo se atirar pela janela, não fosse a janela ter uns olhos grandes de 8º andar, mas há coisas mais pequenas, menos evidentes, que nos fodem o juízo. Isto a propósito daquilo que ontem vivi, na minha própria casa. Tudo por culpa da filha da puta da preguiça. Ora bem, o caso é o seguinte: chegado a casa num final de tarde, deparo-me com a estúpida realidade de não ter absolutamente nada para comer. Não, não, não havia latas de atum, nem esparguete, nem sequer um pão castigado pelo tempo que desse para umas torradas mais duras que duras. Não entendeste leitor, não, nem tinha óleo nem douradinhos nem ervilhas nem favas nem uma merda de pacote de arroz; nem leite nem salsichas nem a puta de uma bolacha ressequida que esperasse ansiosa, dentro de uma caixa de biscoitos, atrás de atrás de atrás de uma merda qualquer na cozinha. Absolutamente nada. Entendeste? Mas sabes o que é mais grave, leitor? É que eu tinha uma coisa na cozinha: preguiça. E a puta fez o meu estômago roncar até não poder mais. Depois de sofrer estupidamente, deitei-me. Há gajos muito estúpidos. Alguém avise o meu cérebro que eu já sou adulto, se faz favor. Tenho 26 anos e tal, a meio caminho dos 27. Isto é idade para ter, pelo menos, algum amor ao bem-estar. E ódio à preguiça filha da puta.
Não há muitas formas de entender que envelhecemos. Mas há algumas. Poucas. Dessas, a que mais gosto, talvez por achá-la menos dolorosa e mais, digamos assim, artística ou bonita ou poética, é a forma que se revela nos livros. Nas linhas que sublinhámos nos livros. As frases que achámos de tal maneira perfeitas que tivemos de encontrar um lápis ou uma caneta e sublinhá-las. Com muito devoção, simplesmente sublinhá-las. E deixá-las ali, entregues e à espera de um novo leitor que chegue, ávido e sedento de leitura, àquelas mesmas palavras que nós um dia, num dia de chuva ou num dia sem chuva, achámos perfeitas para serem sublinhadas. Às vezes, e talvez demasiadas vezes, o leitor que chega é o mesmo leitor que partiu. Nós. E olhamos as linhas sublinhadas, perguntamo-nos a razão, tentamos descodificar dentro de nós o leitor antigo e procuramos compreender o que fez esse mesmo leitor amar de tal forma essas palavras para que as tivesse sublinhado. Raramente compreendemos. O leitor que as leu, as amou, as sublinhou, as devorou é já um leitor que deixou de nos pertencer. É nesse momento que envelhecemos e temos noção disso. Mas de uma forma tranquila, quase ternurenta, minto, ternurenta, compassiva, paternal até. Nasce-nos num lado da boca um esgar de afecto e passamos as linhas em busca de outras linhas. Talvez cheguemos a um ponto, a uma frase perfeita e voltemos a procurar por um lápis ou uma caneta, e sublinhemos, da mesma forma que o leitor antigo, outras linhas que o outro leitor não viu ou não quis ver ou, melhor do que tudo, não soube ver porque não lhe eram destinadas. E rimo-nos dos maravilhosos momentos que o leitor antigo deixou escapar, muito provavelmente – pensamos nós – por ingenuidade, por imaturidade, por desleixo, até por preguiça. Mas há sempre um novo leitor, que é mais velho, que vai rir de nós e das coisas que sublinhámos. Há sempre um novo lápis ou uma nova caneta que irão prolongar as mesmas linhas, descobrir outras, inventar novos momentos perfeitos no livro. E a vida, como a leitura, nunca pára para sublinhar por cima.
Do blogue "Benfiquistas desde pequeninos", um texto lúcido sobre o Benfica, escrito pelo escriba Pelicano:
«Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido. Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (“Unzinho e eu ganhava a sena acumulada”), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito “sim”, dito “não”, ido a Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste… Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é “Imaginário” – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou.
- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.
E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo. Por quê? Sua vida não foi melhor do que a minha?
- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia…
- Eu sei, eu sei… – disse alguém sentado do outro lado dele.
Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:
- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como mandei para o ataque com tanta precisão que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um “herói”, me atirei. Levei um chute na cabeça. Não pude mais ser goleiro. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INPS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…
- Ele chutaria para fora.
Quem falou foi outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.
- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…
- E o que aconteceu? – perguntamos os três em uníssono.
- Lembra aquele avião da Varig que caiu na chegada em Paris?
- Você…
- Morri com 28 anos.
Bem que tínhamos notado a sua palidez.
- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…
- Nem sair do gol naquela bola…
- E ter levado o chute na cabeça…
- Foi melhor – continuei – ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado…
- Você deve estar brincando – disse alguém sentado à minha esquerda.
Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.
- Quem é você?
- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.
Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As consequências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.
- Quem é você? – perguntei.
- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.
- E?
Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo.»
Luís Fernando Veríssimo, “Versões”, do livro “Novas comédias da Vida Privada”
Se há coisa que me põe capaz de saltar para a frente de um carro é a estupidez de um bom jogador. Então quando é a estupidez de um jogador assim-assim, fico capaz de meter a cabeça no forno. Vem isto a propósito de umas declarações a dar para o imbecil de um tal de Nélson, que - parece - joga na lateral direita da equipa do Benfica. Um tipo que foi contratado estava eu e uns amigos a beber copos às tantas da manhã. Alguém leu e telefonou, mandou mensagem? Já não me lembro. Alguém apareceu com a boa nova: "O Nélson é nosso!", disse alguém. Entreolhámo-nos, benfiquistas à volta de uma mesa com uma espiral de copos vazios de cerveja (talvez gin-tonic e whisky também por lá andassem), e fizemos a pergunta que, obviamente, se impunha: "Mas quem é esse gajo?". Era um gajo do Boavista. Esse tal de Nélson jogou o primeiro jogo e logo vimos nele o próximo Cafu, melhor, o Cafu com pé esquerdo. Aquilo era cruzamentos de esquerda, direita, nem sei se o homem não chegou a cruzar de cabeça. Todos de uma qualidade que dava para um gajo perguntar se estava a ver o Benfica ou o Milan. O homem fez um jogo em Villarreal tão bom tão bom que dava a sensação de que a conta bancária desse ano iria aumentar aí nuns 50 milhões de euros, no final da época. Na época seguinte, apareceu nos treinos do Seixal outro gajo: um tal de Nélson. Um gajo mais ou menos rápido, péssimo a defender, HORRÍVEL a cruzar e, acima de tudo, tinha uma qualidade excepcional: quando chegava ao meio-campo decidia adiantar a bola e começar a correr atrás dela. Geralmente ia cruzá-la 20 metros depois dos placards publicitários, ali entre o último centímetro de relvado do Estádio da Luz e a primeira cadeira vermelha onde, estranhamente, nunca estava ninguém sentado. Passou este tal de Nélson uma época inteira a tratar mal a bola e a reclamar com os colegas. Chegado o Verão, o desespero era tanto que para substituir esta aventesma, o Benfica foi buscar uma aventesma pior (mas que se julgava ser um bocadinho melhor), um tal de Luís Filipe. O outro, o Nélson, parecia estar tão deprimido que o "Record" chegou a noticiar (não se sabe se uma notícia fidedigna) que Chalana lhe apresentou um belíssimo Psicólogo, conhecido por recuperar cabeças de perdiz e cérebros de milhafre. Também tinha um bom currículo na arte de recuperar capacidades "cruzamentais" nos jogadores. Não se sabe se Nélson aceitou o repto, mas a verdade é que Luís Filipe saiu da equipa (diz-se que também começou, a partir daí, a frequentar as mesmas sessões) e lá começou o tal de Nélson a jogar. Assim-assim. Nem bom nem mau, estão a ver? Bem pelo contrário. Ora, estávamos nisto, neste assim-assim, uns dias sim, outros não, quando o tal de Nélson vem a público dizer isto: "Sou ambicioso e o desafio [jogar no estrangeiro] seria enorme. Mas sinto-me preparado, pois não tenho medo de jogar numa grande Liga da Europa". Mas isto agora é assim, é? Já não é só com os gajos bons (não digo muito bons, porque carne dessa os nossos dentes não sentem há muito tempo) que nos temos de preocupar? Agora até os assim-assim abandonam-nos por dá cá aquela palha? Eh pá metam-me lá. Eu levo uns amigos. Raios me partam se a gente quer "desafios" ou jogar em "Ligas da Europa". Não prometo resultados. Mas raios me partam todo aqui e agora se a gente queria sair do Benfica!
Sinceramente, começo a perder o interesse por certas coisas no futebol. Não que estivesse à espera de uma pena pesada para o F.C.Porto, porque não estava; até fiquei surpreendido que tenha aparecido a Liga a poder castigar o clube, mesmo que com uma pena absolutamente ridícula e bastante ajustada à realidade para que não suspeitemos dos reais interesses que estarão por detrás desta sentença (?). Enfim, acho que estou a começar a perder o interesse no futebol ou em certas coisas do futebol. E é uma junção de factos: um Benfica deprimente, sem lei, sem organização, sorumbático, com um Presidente que mente, engana, atraiçoa os adeptos, fá-los de parvos e sorri, sem que ninguém o questione das razões de tão evidente gozação com todos nós, que amamos e choramos e rimos e sofremos pelo Benfica. É este Benfica e esta merda deste país que tem uma justiça ajustada ao século XV, em que as leis estão desajustadas da realidade, em que os homens que as fazem, fazem-nas para salvaguardar futuros problemas. E então estamos nisto. Nesta lama, nesta água suja. Por um lado, o desencanto desde clube que morreu; por outro o desencanto de um país que teima em não acordar.
O que será que me dá
Digam-me uma coisa: vocês têm a certeza absoluta de que não estamos em 1994, acabámos de ganhar o campeonato e "isto" que pensamos que é a nossa situação não é só um pesadelo generalizado de todos os benfiquistas? Vocês têm a certeza de que, amanhã de manhã, não vamos acordar, olhar os jornais e ver que o Isaías, o Veloso, o Rui Costa (com 21 anos), o Schwarz, o Paneira, o João Pinto, o Mozer, o Kulkov, entre tantos outros fizeram um treino duro, em que trabalharam a finalização e as bolas paradas? Vocês têm a certeza de que não somos o Benfica, mas uma equipa medíocre que é eliminado pelo Getafe? Vá, deixem-se de merdas, digam-me que isto é um pesadelo. Vou acordar agora, beijar o cachecol e ficar preocupado porque o Damásio disse ontem que o Toni não é o treinador ideal para o Benfica; que o que precisamos é de um Artur Jorge e de uma limpeza de balneário. E vou rir-me da piada...
... apetece-me dizer que, pela primeira vez desde que chegou ao Benfica, o espanhol foi tacticamente perspicaz.
Esqueço-me tantas vezes do céu, longe que estou entre prédios sujos, pessoas e dias, que quando por um acaso o meu olhar sobe ao cimo dos telhados das horas olho-o como se fosse a primeira vez. Espanta-me sempre essa promessa de poema.
Tenho a certeza absoluta da inocência de camacho. No entanto, isso não o impedirá de ter de responder, no Julgamento de Nuremberga, pelo holocausto futebolístico que dizimou, cruelmente, milhões de Benfiquistas.
Título do "Record":
No desamor e na morte, dói tudo. Dói tanto, tanto, tanto que até as coisas que não temos doem. No meu caso, doem-me os ovários.
Na sala, estão quatro homens. Deitados. Alguns ligados à vida por tubos que vêm de cima até às veias. Sempre o sangue. E a falta dele. Olho-os a medo, culpado de estar de pé, culpado de respirar aparentemente bem, aparentemente sem precisar de tubos ligados às veias ou máscaras a cobrir a cara. Ninguém parece importar-se, além de mim, com a minha condição de saúde, supostamente impecável. Além de mim. Culpo-me por estar de pé ou culpo o mundo por estarem os outros deitados? Não encontro resposta.

Quanto a mim, Camacho nunca foi, nem será um bom treinador. Na sua primeira passagem pelo Benfica, não era um bom treinador. O que tinha era humildade e vontade de provar que tinha algum valor, uma vez que todos os lugares que tinha ocupado antes se tinham revelado autênticos fracassos. Chegado ao Benfica, e apoiado por uma grande maioria de adeptos, sentiu motivação e passou-a aos jogadores que conseguiram entender o que o treinador queria e tiveram alguns êxitos. Melhor, um êxito, num jogo em que tivemos sorte. Então... qual a diferença da primeira passagem de Camacho pelo Benfica para esta segunda aventura em terras lusitanas?
Não é muito complicado: Camacho continua o mesmo (mau) treinador. Além das questões que se prendem com o estudo intensivo e sabedoria do jogo (que não mudaram, continuam más), Camacho perdeu aquelas que eram as sua grandes virtudes: a garra, o querer, a disciplina, a liderança, a capacidade de motivação, a união. Porquê, pergunta-se. Haverá, certamente, várias justificações. Deixo aqui a minha:
Quando Camacho chegou ao Benfica era um treinador a perder prestígio. Depois de passagens sem êxito por dois clubes espanhóis e selecção espanhola, Juan Antonio precisava de mostrar serviço. Empenhou-se com unhas e dentes em mostrá-lo ao serviço do Benfica, com abnegação, espírito de luta, garra (afinal, as características que revelou sempre como jogador). Mesmo assim, apesar dessa vontade toda, não conseguia resultados que satisfizessem os adeptos, não fosse dar-se o caso de uma tarde de Maio em que viria a defrontar um FC Porto que - e nunca é demais lembrá-lo - pensava 3 dias à frente desse dia, na final da champions league. Com muita sorte à mistura, lá ganhou a Taça e o povo, sedento de títulos e odiando Mourinho, proclamou aos sete ventos que estava encontrado o novo Rei do Benfica, capaz de lutar até - imagine-se - contra o poderoso Porto de Mourinho, campeão europeu. O Rei, seguindo uma linha de traições digna de qualquer monarquia, deixou o povo nas ruas e lá foi ele para Castela, reinar no clube do coração. O povo chorou, chorou-o, pediu o seu regresso. Afinal, as nossas tão típicas saudade e nostalgia. Mas teve o Rei capacidade para REALmente governar? Não teve. Desculpou-se com o povo, com os nobres e saiu do trono. Terá sido por causa da nobreza, pela boçalidade do povo ou terá sido por o Rei ir (ser) nu? Aceitam-se duelos.
Numa noite de nevoeiro, em que o luso Santos perdia a batalha em terras do Douro, estava o Rei Camacho muito sossegado em mui nobre descanso, quando o povo e seu ícone máximo (Vieira) lusitano clamou por ele. E ele veio. Mas terá vindo humilde e com vontade de governar esta terra com esforço, garra, altruísmo? Pois está claro que não! O Rei veio inchado, afinal já REALmente governara. Enquanto os seus súbditos lhe beijaram os pés, andava o Rei feliz e espirituoso, mas quando o povo se apercebeu das suas incapacidades claras de líder gritaram-lhe à janela do castelo que queriam mais do seu Rei, que queriam ver aquele Rei que os abandonara uns anos atrás. O Rei, muito indignado com tal descrença nas suas capacidades, fechou-se no quarto, cabisbaixo, ausente, numa auto-comiseração sem precedentes, furioso com a vida e com aquele povo que o não entendia. O povo está hoje lá fora, em redor do castelo, a pedir que o Rei volte para terras de Castela e, ele, o Rei espera apenas que adormeçam os súbditos para sair de cavalo desta terra sombria.

De facto, é um novo fenómeno esta forma de apresentar a equipa. Ferguson apresenta um 442 altamente ofensivo, com dois alas de ataque, dois avançados móveis, e dois médios, sendo que apenas um (Carrick, ou Hargreaves, como substituto) é um médio defensivo. À frente de Carrick, Anderson, um jogador fabuloso mas que ninguém pensava ser capaz de ser o segundo jogador de meio-campo. PALMAS PARA FERGUSON E QUEIRÓS! Grande equipa, processos interiorizados nas transições, os alas (Ronaldo, Giggs) recuam em harmónico quando a equipa perde a bola, os avançados (Tevez, Rooney) pressionam logo na primeira fase de construção do adversário, permitindo assim que a equipa suba e pressione toda em bloco, criando pouco ar para que o adversário respire. Se a equipa adversária sobe no terreno, o Manchester recua, sempre em bloco, para o seu meio-campo para depois lançar os contra-ataques mortíferos. Não sei se vai ganhar a Champions League este ano, mas já não há dúvidas: é a equipa mais espectacular do planeta! Ainda por cima numa época em que se elogiam tanto as questões defensivas, é de elogiar quem apenas tem um jogador com essas características, o que vem provar que um futebol, quando bem jogado, é um jogo colectivo: ataque e defesa, todos os 10 em sintonia, recuo e avanço, um harmónico perfeito.
Quanto ao valor do rapaz romeno não digo nada porque não o conheço. É importante deixarmos que, pelo menos, os jogadores joguem, antes de criticarmos a qualidade dos mesmos.

Uma primeira parte vergonhosa. Digna de um Sertanense ou de um Abrantes. É isto que o Benfica tem para oferecer aos seus adeptos, depois de lhes pedir que compareçam? Para a próxima estão lá 10.000 e depois 5.000 até ficar só a família do Mantorras e o Adu a aquecer, na linha lateral.
Este jogo trouxe-nos (indirectamente) um bom motivo de análise. A diferença do futebol jogado de uma parte para a outra, traz (MAIS UMA VEZ, BURRO CAMACHO) mais uma vez o confronto de estilos e modelos de jogo. O 433, impossível com estes jogadores, contra o 442, bem mais coerente. Alguém levantou uma questão interessante: em 442 Rui Costa terá de ser preterido? Em minha opinião, não, mas colocá-lo no banco em certos jogos acho que não é heresia nenhuma, pelo contrário, Rui Costa tem de começar a ser poupado se quisermos que ele chegue até ao final da época com capacidade para desequilibrar. Em casa, a solução passa por aproveitar (CASO CAMACHO TIVESSE MAIS DO QUE UMA PUTA DE UM NEURÓNIO) o (quanto a mim, bom) trabalho em torno do losango que Fernando Santos realizou. Petit (Binya) ao centro, Katsou como interior direito, Rodríguez (mais vertical), Rui, Cardozo e Adu (acho que está na altura de lançar o americano. Como Camacho gosta de vê-lo a correr, mas do lado de fora, Nuno Gomes para segundo ponta-de-lança). Em casa, esta equipa é a melhor. Um 442 com dois médios mais defensivos e outros dois ofensivos. Nesta táctica, a capacidade de Rodriguez ser tacticamente disciplinado para ajudar o Léo e os dois médios mais defensivos é a chave. Ganharíamos poder de fogo, dinâmica para nos chegarmos à frente com mais perigo e forçaríamos o adversário a ter de recuar o trinco para posições mais defensivas, abrindo espaço para que Rui Costa (preferencialmente), Katsou e Petit pudessem aparecer a desequilibrar, os trincos mais em segundas bolas, o Rui em jogadas de progressão. Colocar Petit (Binya) e Katsouranis de perfil parece, cada vez mais, um erro crasso. O grego sobe de produção se puder subir no terreno e não ficar preso, "colado" ao trinco (hoje, com a saída de Rui Costa, notou-se a melhoria do seu jogo quando pôde ter menos amarras ao centro defensivo da equipa). Este jogo, em ida de férias, parece ter vindo na melhor altura. Dá as bases para se compreenderem as diversas opções que o plantel tem. Será que Camacho entendeu alguma coisa? Ou, no próximo jogo, voltará a apostar no seu perro e imbecil 433? Eu diria que vai continuar a marrar, qual touro de Pamplona, mas, se por um brilhante milagre, Camacho tiver hoje entendido os jogadores que tem, poderá (digo poderá) ter-se aberto uma janela de esperança sobre esta época, até agora, desastrosa. Jogadores de qualidade temos, não muitos, mas suficientes para fazermos bem melhor. Sem dúvida que a má época é responsabilidade de Camacho, por não entender as qualidades e defeitos dos jogadores que treina (ou arbitra peladinhas, não sei se treina de facto).
A questão Adu: começa a ser angustiante. Lá foi o homem aquecer 30 minutos para jogar... 10. E será que El Gordito não se lembra de outra, além dessa de o colocar na faixa esquerda? Será complicado entender que deve testar Adu como segundo ponta de lança, móvel, sobre toda a área ofensiva? Tocou 3 ou 4 vezes na bola. Numa, viu que não podia subir, e recuou para Léo, noutra fez um bom passe para o centro da área, onde estava Nuno Gomes e outra, em velocidade, fez um excelente drible e acaba por ser puxado, sem que se possa considerar penalty. Que água na boca para ver Adu jogar na Luz aí uns... hmmmm peço 25,30 minutos? Será muito? Peço 45 minutos, vá.
Di Maria, que eu tenho criticado por ser sempre primeira opção em relação a Adu, virou o jogo. Entrou muito bem, é sem dúvida um jogador com talento, e parece estar a aprender a ser jogador de equipa. De qualquer forma, o seu habitat natural é na esquerda, apesar de hoje se ter destacado à direita, com duas excelentes assistências (uma deu golo, outra Cardozo falhou). Posicionar os jogadores onde eles rendem mais e pensar uma ideia colectiva onde cada um, individualmente, renda o máximo, e a equipa, colectivamente, saiba aproveitar as várias características e qualidades dos seus jogadores. O futebol é isto. Avisem lá o Camacho.
Não há melhor exemplo que explique o fanatismo e a irracionalidade dos adeptos de futebol (e do seu clube) do que a forma de funcionar do Benfica actual. Que importa se a equipa joga aos tropeções, sem leis, sem uma ideia minimamente construída sobre a evolução da bola em campo, que importa se Camacho erra consecutiva e permanentemente no pensamento do jogo, que importa se desloca Rui Costa para extremo direito, se joga com Luís Filipe a titular, se escolhe Maxi Pereira para acelerar o jogo à direita, que importa se Adu é imaturo para o espanhol e Di Maria não, se não entendeu a lição mais básica da equipa que é a de que Cardozo não deve nem pode jogar sozinho, feito gigantone perdido no mundo de anões, na frente de ataque… se a bola, caprichosa, teima em furar as redes adversárias a cinco minutos do fim, numa ousadia sádica e brincalhona? Sim, que importa tudo isso, se o Benfica ganha?
Camacho – já se sabe – não é nenhum génio do futebol, não o foi como jogador, não é como treinador. Camacho é, aliás, muito pouco genial em tudo o que faz, a forma emotiva e aos soluços com que gere o jogo do banco prova-o, irrefutavelmente. Corro o risco de dizer que – na teoria – eu saberia colocar as peças no rectângulo de jogo (no FM sou um génio, tenho posições e setinhas construídas de forma a que a equipa funcione na perfeição, a liberdade nas alas própria do perfume sul-americano, atacantes possantes ao estilo italiano, um criativo na zona de magia, laterais alemães, guarda-redes checo, futebol de eleição) de uma maneira muito mais inteligente do que aquela que, semana a semana, o espanhol teima em fazer, mas… que importa? Se, de repente, um guarda-redes sai desvairado da baliza, se de repente uma bola ressalta e pára na zona de penalty e encontra um central desajeitado de frente para ela e de costas para a baliza, se esse central tem cabeça de melão e calcanhar de força, se a bola vai (não sem antes sofrer um desvio para o cantinho das redes por parte do tal guardião) para a baliza, que importa? O golo foi consumado, a multidão saltou, saltaram os cachecóis, saltou aquele velho sentado no sofá, o prédio saltou, o país saltou, saltou o empate para a vitória. Importa a táctica, num momento desses? Importa. Mais cedo ou mais tarde, a táctica vai exigir explicações, mostrar-se ofendida por tão desinteressado desdém com que a brindam, com que Camacho a brinda, semana após semana. Pode, então, criticar-se Camacho? Arrisco, com a permissão dos benfiquistas, a heresia:
O plantel do Benfica resume-se a isto: três ou quatro jogadores experientes, um génio, quatro ou cinco jogadores de talento ainda por lapidar e vinte jogadores medíocres. Suficiente? Insuficiente, mas a vontade (dê-se essa valia ao espanhol) e uma luz mística do Espírito Santo têm suprido as óbvias limitações do plantel. Lembro-me várias vezes de treinadores com equipas medíocres que conseguiram ter grandes êxitos e tenho a esperança de que este seja o caso, mas não é. Camacho não consegue aproveitar o (pouco) que tem. Olhando para os jogadores à disposição, uma ideia nasce logo e chama-se 4-4-2. Com um ponta-de-lança como Cardozo e outro como Nuno Gomes, com Bergessio (eu, ao contrário da maioria, acredito neste argentino) e ainda com Mantorras, com Rui Costa com 35 anos – ou seja, necessitado de uma boa solidez atrás de si e ao mesmo tempo de largura e gente na frente para espalhar a sua arte – com um extremo esquerdo que deambula em diagonais como Rodríguez, com o génio enlatado na juventude de Adu e Di Maria (e, quem sabe, de Coentrão), com defesas sólidos e laterais ofensivos (penso em Nelson para a direita; Léo, esse, não necessita de apresentações), que sistema, meu santo protector, que sistema melhor do que o belíssimo 4-4-2, clássico ou em losango? Mas não. Camacho aposta numa espécie de 3-3-2-1. 3-3-2-1? Eu explico: 3 (Léo, David Luís e Luisão; Luís Filipe é invisível, não existe, ou quando existe é para fazer passes geniais para os atacantes adversários ou os deixar correr sozinhos até à linha de fundo) 3 (Petit, Katsouranis e Maxi Pereira (sim, Maxi é muito mais um médio defensivo no esquema de Camacho do que um extremo direito, anda para ali, a tapar buracos e a não fazer o que se lhe exige e que ele não pode dar, que é abrir na ala direita) 2 (Rodríguez e Rui Costa, deambulam os dois, e têm salvo a equipa) 1 (umas vezes Cardozo, outras Nuno Gomes, parece que a Camacho causa aversão jogarem os dois, quando obviamente são jogadores que necessitam um do outro, um porque precisa de ter alguém ao seu lado que recolha as bolas que cabeceia, outro porque sempre rendeu mais com um atacante fixo ao lado). A lógica se mandasse (mas atenção… ela foi desprezada) dir-nos-ia para aplicarmos a este grupo de jogadores um 4-4-2, mas Camacho descobriu o 3-3-2-1 e parece que vem para ficar. Tenhamos pena e compaixão. Reze-se para que a luz divina continue a iluminar estes homens, até ao dia (que não estará longe) em que a bola não entra nos últimos cinco minutos. Fica a pergunta: e nesse momento, o que fazer? Será que importa?
Lembro-me que era Sábado. Não havia no dia nada de novo. A sala estava quieta, com os vestígios de Sexta-feira em cima de uma mesa. Se parasse e olhasse com atenção, poderia adivinhar pequenos gestos que tinham sido feitos na noite anterior: o movimento dos braços e mãos a segurar cigarros, da boca para o ar, do ar para o cinzeiro, pousando a cinza na cama de vidro; uma capa de um disco parada, em cima de um sofá (o disco saindo da capa, pelas mãos levado ao gira-discos, pelo ar enchendo a sala de som); três copos com uma réstia de vinho no fundo, um no chão, outros dois juntos em frente à travessa que - imagino - seria de um bolo de chocolate; livros de poesia no chão e imaginar os livros abertos, na mão de alguém, enquanto as palavras ordenavam silêncio a quem ouvisse. Era Sábado, mas a sala estava ainda Sexta-feira. Sentei-me no sofá e fiquei imaginando mais e mais movimentos, gestos, pequenas conversas, a disposição das cadeiras, as pessoas levantando os pratos, recolhendo a cinza dos cinzeiros, arrumando os discos, limpando os copos, despedindo-se, e alguém que, em silêncio, fechou a Sexta-feira naquela sala. Levantei-me, olhei em volta. Assinei a parede: Sábado, e fui tomar banho.
Pode por vezes parecer que o “monstruário” não desaparece. Pode parecer que o voo é rasante àquilo que fica entre as costelas, para mais tarde se revelar. O ritmo descoordenado, arritmia em solfejo, mas o dom de sangue ninguém lho pode tirar. Entre murmúrios, antes de nascer, caminhou resistente para um sol que já não era. E parece que não tem fim essa música ecoando, batendo asas no dentro de dentro que é ele por dentro. Um som. Um tiro. E então pode ser que o monstro obituário tenha chegado ao fim da linha. Mas não há cura para este compassado entristecer na noite que, por dentro, diz segredos a quem quer ouvir.
Era Dezembro e toda a gente falava numa «provável precisão de presentes». Eu não entendia a precisão provável, mas entendia a palavra «presentes». A árvore grande no canto parecia-me um monstro com mil bolas nas mil mãos e pernas finas, juntas, dentro de um vaso. Era provável que se precisasse de presentes, mas a comida ainda não estava na mesa. Eu olhava as bolas vermelhas nas mãos do monstro e toda a gente ria e falava em coisas que tinham santos, Jesus, e o menino sobre as palhas deitado. Era provável que precisasse de uma cama nova, mas o cabrito – ao que se sabe – estava de morrer. Depois dos corpos estarem bem nutridos com doces, deus e a provável azia dos enfeites vinícolas, eis que alguém relembrou a mesa que urgia a “provável precisão de presentes». Eu entendi a última palavra e fui-me sentar debaixo do monstro a comer alguns dos seus – seres de barrete vermelho que sabiam a chocolate. Quando os presentes jaziam em cima de cadeiras e um cemitério de papéis e laços inundava o chão, foram todos para a cama dormir mal e sonhar com os presentes que deviam ter recebido, reflectindo sobre o desconhecimento triste que todos os outros tinham de cada um. Era provável que a precisão fosse outra, pensei. Mas como eu não conhecia as palavras «provável» e «precisão», brinquei com o carrinho azul até de manhã.

O atentado inqualificável por parte de uma nova elite moralista, que emerge por todos os lados do globo, chegou a Portugal. Afinal não estamos na cauda do mundo. E se fazemos leis contra os fumadores, que as façamos ainda mais rígidas, discriminatórias e hipócritas!


Num país a cair de podre em vários domínios governativos, não podia ser outro o vencedor: um ditadorzeco podre e com falta de equilíbrio na hora de sentar o rabinho na cadeira.
A insatisfação reinante em relação aos sucessivos governos desde 1974 e a total desconfiança nas capacidades sinceras dos políticos em fazer realmente deste país algo mais do que um macaco da república das bananas com a gravatinha da União Europeia, vieram provar-nos (como se não soubessemos já!) que até um medíocre ditador pode "ganhar" a Pessoa, Aristides de Sousa Mendes, D. João II, Camões, Infante D. Henrique, entre outros.
É lógico que nestas votações os mais votados costumam ser os mais recentes. Tem lógica que assim seja. E é por isso que nos três primeiros lugares ficaram três personalidades do século XX Português (excelente 3º lugar para Aristides: tinha ideia que pouca gente o conhecia em Portugal...pelos vistos, nem tanto assim).
A escolha do homem de Santa Comba Dão não demonstra grande inteligência ou cultura história por parte de muitos portugueses, mas vem revelar uma tendência: as pessoas preferem despotismo a insegurança; ordem a anarquia social. É preocupante a escolha, não o é a motivação.
Há ainda um factor que me preocupa nesta democracia, e vem do lado comunista: Odete Santos é um papagaio contínuo. É de uma "peixeirada", como diz o Rui, atroz. É ridícula. Mas nem é isso que me preocupa mais. Acho profundamente irritante e incongruente que uma mulher que supostamente apela aos instintos democráticos dos portugueses se levante - na hora do anúncio do primeiro classificado - e diga esta coisa aberrante: "É proibido o incentivo público ao fascismo!!!". Se Cunhal ganhasse... não seria proibido o incentivo público ao comunismo? É que ainda ninguém se esqueceu de Estaline. Gulag, Sibéria, 18 milhões de mortos... está recordada, Odete Otária?
O grande despautério da democracia é este mesmo: votar até num homem que não permitiria uma votação deste tipo. É assim o jogo. Se o quisermos jogar, jogamos; se não... volta-se ao Estado Novo e começa-se uma vez mais a lutar contra todo o tipo de atentado Às liberdades individuais. A História é cíclica e a estupidez eterna...

Estilo
– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos? (…)
Herberto Helder, in Os Passos em Volta, 1963


MEMORIA DE LA CARNE
Contigo aprendi coisas tão simples como



«A guerra acabou George Steiner, um dos últimos casos de cultura e civilidade que interessa ler com atenção, escreveu recentemente um breve ensaio. Sobre a idéia da Europa, intitulado "A Idéia da Europa". Ambição estimável: mostrar como a Europa possui uma unidade cultural e até espiritual que a distingue dos outros cantos do globo. Para Steiner, a Europa, a sua Europa (que, de certa forma, é minha também), surge como herança maior de Atenas ou Jerusalém, ou seja, como herança maior do pensamento racional e das grandes teologias judaico-cristãs. É igualmente um espaço que é possível calcorrear a pé, permitindo um confronto permanente com praças ou pracetas, ruas ou avenidas, que transportam no nome um pedaço de história ou memória. Como se houvesse em cada esquina a sombra inapagável de um passado de mortos. Mas a Europa é também a Europa dos "cafés": ao contrário do "pub" inglês ou do bar americano, os cafés da Europa não são apenas locais utilitários de bebida ou refeição. São espaços de encontro, romance, discussão ou criação. Espaços de fumo e bebida. Vadiagem, malandragem. E em cada café da Europa existe também a presença invisível dos que o habitaram: Kraus em Viena; Pessoa em Lisboa, Sartre em Paris; e porque a ficção se mistura tantas vezes com a realidade, os gangsters de Isaac Babel nos cafés de Odessa. Porque a Europa dos cafés estende-se da Lisboa de Pessoa à Odessa de Babel. Leio o pequeno livro de Steiner e não posso deixar de sentir uma certa nostalgia. A descrição do autor talvez seja útil para entender a Europa. Mas que Europa? A Europa do passado? Sem dúvida. Mas sobre a Europa do presente, o sábio George está equivocado. Não apenas pelo declínio cultural que a Europa conheceu depois da Segunda Guerra Mundial, quando o "espírito do tempo" emigrou para Nova York, e não mais para Londres ou Paris. Mas porque na Europa, e sobretudo na Europa dos cafés, dificilmente encontramos o ambiente físico e espiritual que Steiner retrata. A vida intelectual é hoje essencialmente solitária e privada, onde os escribas vão cultivando os seus feudos, e os seus ódios, sob a luz triste da existência suburbana. E sobre beber ou fumar, a maioria dos cafés do continente já foi abolindo o último vício, esperando-se que se ocupe agora do primeiro. Os cafés da Europa serão, a prazo, jardins infantis. O "espírito do tempo" não emigrou apenas para outras paragens. Ele foi destruindo uma cultura de adultos, entregando as rédeas do mundo à ideologia patética da juventude. Não admira, por isso, que o último passo tenha sido dado nos últimos dias: uma empresa irlandesa publicou um anúncio de emprego. E estabeleceu: fumantes escusam de se candidatar. De acordo com o diretor da empresa, pessoas que fumam não revelam a inteligência necessária para trabalhar no covil irlandês. E cheiram mal. E são insuportáveis para terceiros. O gesto indignou algumas consciências políticas e uma eurodeputada britânica resolveu levar o caso à Comissão Européia, que pastoreia e vigia a vida do continente. Será legítimo excluir do trabalho alguém que fuma? A Comissão respondeu afirmativamente: a Europa proíbe a discriminação no emprego com base na raça ou etnia; na deficiência; na idade; na orientação sexual; na religião ou nas crenças. Mas não necessariamente quando uma empresa faz juízos objetivos sobre escolhas individuais. O problema já não está na mera possibilidade de proteger os não-fumantes do vício de terceiros, disponibilizando espaço próprio para os últimos. O problema está, tão só, na mera existência dos viciosos, que devem ser erradicados da paisagem comum. Por favor, escusam de me enviar mensagens indignadas. A guerra acabou e, de certa forma, vocês, fanáticos, venceram. A luta contra o tabaco nunca foi uma luta pela saúde dos "passivos" (o que seria compreensível). Foi simplesmente uma luta contra a liberdade individual em nome de uma utopia sanitária: os fanáticos não desejam apenas que o fumo não os perturbe; desejam que a mera existência de um fumante também não. É a intolerância levada ao extremo e servida numa retórica simpática e humanista. E agora com cobertura legal. A prazo, essa luta não irá ficar apenas pelo fumo: pessoas gordas; pessoas que bebem; pessoas que desenvolvem atividades sexuais promíscuas; pessoas inestéticas; pessoas que não se adaptam à cartilha higiênica das patrulhas serão enxotadas, como ratazanas da espécie, de qualquer presença visível numa sociedade crescentemente dominada pelo culto da saúde. Seremos como as tribos primitivas, elevando o corpo a um novo deus. Caprichosos e cruéis. George Steiner, no mesmo ensaio, afirma que a Europa só não morrerá se souber preservar as suas "autonomias sociais": línguas, tradições, liberdades, excentricidades. E, citando o célebre dito de Aby Warburg, relembra que "Deus está nos detalhes". Pobre George. Pobres de nós. De que vale o otimismo de um sábio quando os bárbaros são recebidos como heróis?» João Pereira Coutinho, Folha Online |

Amigos, tenhamos esperança. O Benfica jogou de camisola vermelha e calções brancos. Logo, subiu a produção de jogo. É irrefutável: o Benfica joga com o equipamento tradicional, joga bem (ou quase). Forçado, Fernando Santos abdicou do conservador sistema de dois trincos e... ganhou com isso. Karagounis e Nuno Assis à frente do competente Katsouranis; Simão e Paulo Jorge nas alas em apoio ao (pela primeira vez titular) mexicano Kikín Fonseca. Se Fonseca não demonstrou capacidade (falta de entrosamento? desadaptação ao futebol europeu?) para ser titular do Benfica, Karagounis (de rejeitado a titular) mostrou que é um jogador dificilmente abandonável por qualquer treinador com cérebro. A princípio meio perdido em campo, sem saber muito bem se era um 6, um 8 ou 10, rapidamente o grego descobriu a sua melhor zona de acção e fez jogar a equipa, com a mais-valia de soltar Nuno Assis para um grande exibição. Gosto de coração de Karagounis. Além da capacidade técnica, tem um jogar potente, de vontade, de garra, que encaixa nas características históricas do jogo benfiquista. É um elemento importante para a época, mesmo que nem sempre jogue de início. Já se sabe que Rui Costa - quando em boas condições - será o dono do lugar 10, mas parece-me que Karagounis não é, nunca foi e não será um playmaker; antes, um 8, um elemento de defesa e ataque, soltando o 10, um Maniche, um Tiago, um Lampard. Não tenho grandes dúvidas de que é essa a sua posição. Assim Fernando Santos tenha cérebro. Quanto à equipa do Benfica, no todo, não fez um jogo deslumbrante, mas jogou o suficiente (ou mais?) para ganhar, e por mais de um golo. Precupante, talvez, a incapacidade para finalizar na segunda parte. É certo que Simão vem em crescendo (aquela perdida no final do jogo prova-o), que os níveis de motivação não estavam altos, mas - por amor do santo!?!? - tanta produção para um único golo? É pouco. Queremos mais. Quim (6) - Seguro. Com a confiança do treinador, o internacional português está moralizado. E moralizado, Quim é um grande guarda-redes. Sem muito trabalho, quando foi preciso aplicou-se e esteve bem. Alcides (5) - Uma exibição esquizofrénica. Se é certo que o brasileiro subiu muitas vezes no terreno, dando profundidade ao ataque encarnado, não é menos certo que perdeu algumas bolas e falhou dois golos (um deles escandaloso). Bipolar. Luisão (8) - Se não tivesse feito mais nada, o único golo do jogo dar-lhe-ia razão para uma nota positiva, mas Luisão fez mais. Muito mais. Intransponível é o adjectivo. Excelente jogo (mais um). Em grande forma, o internacional brasileiro. Anderson (6) - Competente. Sem deslumbrar, fez o seu trabalho, sem histerias. Parece, de qualquer forma, menos interventivo que o Anderson da época passada. O jogo do Bessa pode ter deixado marcas. Léo (7) - Tal como Alcides, uma exibição bipolar. Na primeira parte, defendeu mal e não atacou. Na segunda parte, uma exibição perfeita. Como o que fez na segunda parte supera e muito o que não fez na primeira parte, uma nota acima da média. Com Simão, faz da ala esquerda, um lugar de magia, velocidade e perigo. É um grande jogador. Pena não ter 20 anos. Katsouranis (6) - É um bom jogador, não há dúvidas sobre isso, mas denotou algum cansaço. Recuperou muitas bolas, mas nem sempre as entregou da melhor forma. Importante, no entanto, vê-lo mais jogos a jogar só, na posição de trinco. O Benfica parece ganhar com um único homem a jogar nessa posição. Um deles terá de ser preterido. Karagounis (7) - Forte, decidido, pragmático, boa capacidade técnica. O grego que saltou da depressão para o campo de futebol, trouxe ao Benfica bom poder de luta e visão de jogo. É um jogador de progressão. O gladiador é importante para o Benfica 2006/2007. Só um cérebro morto não o compreende. Nuno Assis (8) - Tantas vezes incompreendido, Assis mostrou-se tal qual é: um bom 10; um bom tecnicista, com excelente visão de jogo, bom passe e (surpreendentemente!) excelente forma. Correu quilómetros; fez jogar quilómetros. A alternativa a Rui Costa ou ... vice-versa. Excelente exibição. Paulo Jorge (6) - A garra do costume, a entrega, a abnegação, mas também a mesma falta de eficácia. Muito mal na concretização mais uma vez (após passe de Nuno Assis), Paulo Jorge manchou a correria e dignidade que manteve durante todo o jogo. Parece ser, de qualquer forma, melhor opção que Manu. Simão (7) - Ainda sem o ritmo que se lhe exige, Simão revolucionou o futebol encarnado. É um jogador de eleição, e o Glorioso precisa dele. Excelente nas bolas paradas (uma delas deu o único golo do jogo), a subir no um-para-um, corre para o jogo contra o Manchester. O capitão está de volta. Pena não ter marcado. No último minuto, então, era só encostar... Kikín Fonseca (5) - Fraco. Lutou, mas sem demonstrar capacidade para fazer frente aos centrais do Nacional e... a Nuno Gomes e Miccoli. Falta-lhe capacidade para surpreender. Pode ser que não esteja ainda habituado ao futebol português. Ou não. Miccoli (3) - Pouco tempo em campo. Lutou, está mais leve, mas longe do grande jogador que é. Um remate que um defesa madeirense interceptou e pouco mais... Mantorras (3) - Pouco tempo, também. Conseguiu, ainda assim, fazer mais do que o mexicano: uma cabeçada em direcção à baliza. O São Pedro desta vez não empolgou o público. Miguelito (2) - Nervoso, perdeu algumas bolas; esteve, no entanto, bem em dois cruzamentos. Precisa de minutos. |

Katharine Clifton: My darling. I'm waiting for you. How long is the day in the dark? Or a week? The fire is gone, and I'm horribly cold. I really should drag myself outside but then there'd be the sun. I'm afraid I waste the light on the paintings, not writing these words. We die. We die rich with lovers and tribes, tastes we have swallowed, bodies we've entered and swum up like rivers. Fears we've hidden in - like this wretched cave. I want all this marked on my body. Where the real countries are. Not boundaries drawn on mapswith the names of powerful men. I know you'll come carry me out to the Palace of Winds. That's what I've wanted: to walk in such a place with you. With friends, on an earth without maps. The lamp has gone out and I'm writing in the darkness. |

Quero voar - mas saem da lama garras de chão que me prendem os tornozelos. Quero morrer - mas descem das nuvens braços de angústia que me seguram pelos cabelos. E assim suspenso no clamor da tempestade como um saco de problemas - tapo os olhos com as lágrimas para não ver as algemas. (Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade) |

Olor de solitario y soledad, cama deshecha, cegados ceniceros en esta tarde de domingo, helado soplo de noviembre en el cristal y un vaso medio lleno de cansancio. Te escribo por hacer algo más inútil aún que pensar en silencio o imaginar tu voz, o escuchar una música herida de recuerdos, o pedir al teléfono un absurdo milagro. «Este es el corrido del caballo blanco que en un día domingo feliz arrancara.» Este es el corrido pero nadie canta y un muerto con mi nombre, vestido con mis trajes, me saluda y observa por los cuartos vacíos, me mira en la distancia como si fuera un niño y acaricia en sus dedos un rastro de ternura. Sobre su frente inmóvil va cayendo tu nombre y humedece sus labios una lluvia perdida. Olor de soledad y humo de aniversario mientras busco, dolorosamente trato de recordar, tus dos ojos insomnes con su vaho de mendigo, devorando su luz, ahogando su locura. Tus dos ojos como picos de presa que se clavan y rasgan y desgarran la piel de nuestro amor. Soplo de embriagado recuerdo, agria melancolía rescoldo que tu lengua aún enciende en estas horas de strip-tease solitario en que celebro en tu derrota todas las derrotas. Un año después y tu pelo, tu largo pelo ardiendo desbocado entre mis manos, clavado para siempre en esta almohada, recorriendo esta casa, sus rincones y puertas, como un viento insaciable que buscase su fin. Un año después de ya no verte, definitivamente talando en tu memoria, qué real sigues siendo, qué difícil herirte. La sosegada certidumbre de esta mesa en que escribo puede tener la pasión estremecida de tu piel y la ropa que el sillón desordena puede ahora ocultar el temblor de tus pechos. Sobre tu sexo abierto y tus muslos de arena, sobre tus manos ciegas que persiguen la noche, qué triste es el cuchillo, qué aciaga su hoja. Un muerto con mi nombre y mis uñas mordidas, un cadáver grotesco, me dicta estas palabras, me señala en los cuadros, en la pared manchada, el destino de hoy, de este día cualquiera, al borde de mi vida, al borde del invierno, al borde de otro año que empieza con tu ausencia, al borde de mis ojos y tu voz que ahora escucho. Un año después de ya no verte, mientras te escribo, odiando hasta la tinta, en esta tarde de noviembre, olor de solitario y soledad, helado soplo en el cristal vacío. Un muerto. |

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo." |

2001 .: Medalha de Prata por equipas no Campeonato da Europa de Duatlo (Mafra - POR) - Juniores Femininos; .: 18ª no Campeonato da Europa de Triatlo (Carlsbad - CZE) - Juniores Femininos; 2002 .: 4º Lugar no Campeonato do Mundo de Triatlo (Cancun - MEX) - Juniores Femininos; .: 34ª Classificada na Taça do Mundo de Tizjausvaros (HUN); .: 29ª Classificada na Taça do Mundo de Nice (FRA); .: 12ª Classificada na Taça do Mundo do Funchal (POR); .: Medalha de Bronze no Campeonato da Europa de Triatlo (Gyor - HUN) - Juniores Femininos; .: Medalha de Bronze no Campeonato da Europa de Duatlo (Zeitz - GER) - Juniores Femininos; 2003 .: 9ª Classificada na Taça do Mundo de São Petersburgo (EUA); .: 10ª Classificada na Taça do Mundo de Ishigaki (JPN); .: 9ª Classificada na Taça do Mundo do Funchal (POR); .: 3ª Classificada na Taça do Mundo do Rio de Janeiro (BRA); .: 3ª Classificada na Taça do Mundo de Cancun (MEX); .: Vencedora da Taça do Mundo de Madrid (ESP); .: Vencedora do Triatlo Internacional do Estoril (POR); .: 2ª Classificada no Triatlo Internacional da Praia da Vitória (POR); .: 5ª Classificada nos Jogos Mundias de Verão - Santos (BRA); .: Medalha de Prata no Campeonato da Europa por Equipas Juniores Femininos - Carlsbad (CZE); .: Medalha de Bronze no Campeonato do Mundo de Triatlo Juniores Femininos - Queenstown (NZL); .: Campeã do Mundo de Duatlo Juniores Femininas - Affoltern (SUI); .: Campeã da Europa de Triatlo Juniores Femininas - Carlsbad (CZE); 2004 .: Campeã Nacional de Triatlo 2004; .: Vencedora da Taça do Mundo do Rio de Janeiro (BRA); .: Vencedora da Taça do Mundo de Madrid (ESP); .: 8ª Classificada nos Jogos Olimpicos Atenas 2004; .: Campeã da Europa de Triatlo Sub23 Feminina - Tiszaujvaros (HUN); .: 5ª Classificada no Campeonato de Mundo Elite - Funchal (POR); .: Campeã da Europa de Triatlo Elite Feminina - Valência (ESP); 2005 .: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de New Plymouth (NZL); .: Campeã da Europa de Triatlo Elite Feminina - Lausanne (SUI); .: Campeã da Europa de Triatlo Sub23 Feminina - Sófia (BUL); .: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Pequim (CHN); .: 4ª Classificada nos Campeonatos do Mundo de Triatlo de Gamagori (JPN); .: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Madrid (ESP); .: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Mazatlán (MEX); 2006 .: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Corner Brook (CAN); .: 5ª Classificada no Life Time Fitness Triathlon (USA); .: Campeã da Europa de Triatlo Sub23 Feminina - Rijeka (CRT); .: Campeã da Europa de Triatlo Elite Feminina - Autun (FRA); .: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Madrid (ESP); .: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Mazatlán (MEX); .: Vencedora da Taça da Europa de Triatlo do Estoril (POR); .: 3º Lugar no Campeonato Nacional de Corta Mato Longo - Guimarães (POR); .: Vencedora da Taça do Mundo de Triatlo de Aqaba (JRD); Vanessa Fernandes é uma atleta de excelência. Pelas medalhas, prémios e vitórias, mas também por ter em si valores como a humildade, o respeito, a educação e a simplicidade. Esses não se treinam. É por isso que é uma campeã. É do Benfica e tem 20 anos. |
| Já o poema começa ondulando por entre as palavras e a saliva dos afectos procura já o seu destino. Caminho no interior das suas veredas. amparo, sôfrego, os seus estilhaços; reagir é amar por dentro. longe, vejo o olhar onde se encontraram, um dia, sábio e aprendiz. Cada gesto a génese; livres caminham os dias dentro do tempo em que o tempo é mais verdadeiro; inicio, repetidamente, rua após rua a mesma forma de ternura. São, afinal, os mesmos olhos incrédulos latejando sintomas vermelhos entre genéticas que espantam o mundo. indiferentes, seguimos reagindo ao tic tac do relógio imóveis na comoção dos instantes. há em nós a eterna dúvida de sermos “apenas” homens. Ricardo Silveirinha ("22 de Agosto - Dia de anos do meu Pai") |

Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia Dizer “ Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor, ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo ele que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: a primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste. Nuno Júdice In Pedro Lembrando Inês |

Maruja Torres é uma escritora e cronista espanhola. Conheci-a através dos seus escritos no jornal "El País", nesses tempos idos em que trabalhei com extintores na belíssima, linda, única, deslumbrante, fascinante Salamanca. O nome dela, apesar destes anos de distância, nunca me saiu da cabeça. Impossível. A escrita era de tal forma arrebatadora e pungente que nem necessário foi escrevinhar o seu nome num papelinho, assim à deixa-cá-ver-se-escrevo-isto-para-depois-não-me-esquecer. Numa pesquisa sobre a autora, deparo-me com este título de um livro seu: Hombres de lluvia. É preciso dizer mais alguma coisa? |
«Nada. Ninguém pode impedir que seja assim. Um dia, serei velho, terei uma colecção de queixas físicas, maiores e menores, e lerei o meu nome na capa de antologias, ao lado de nomes que, hoje, toda a gente desconhece. Terei cabelos brancos, já tenho, e pouco interessa imaginar se serão as costas a cansar-se primeiro, se será o estômago que quererá desistir; interessa apenas a esperança de, ainda nessa altura, querer ser velho, mais velho, e ter a sabedoria imensa de recusar ser antigo. Interessa saber olhar para esses nomes futuros e ser capaz de lê-los, que é o mesmo do que dizer: ser capaz de procurar no seu interior. Eles não precisarão de mim para nada, mas eu dependerei deles para tudo, para continuar vivo.
Acordei atordoado com o conteúdo do sonho que tivera, mas, simultaneamente, com uma plenitude própria de ter recebido uma mensagem que me era destinada.
Se o atordoamento tem justificação (quantos vezes acordamos de um sonho petrificados com o final do mesmo?), já a ideia de os sonhos serem constantes mensagens que o cérebro nos envia com a intenção de nos poupar sofrimentos (neste caso?), ou outro tipo de mensagens, deixou-me primeiro em êxtase, seguindo-se, rapidíssima, a total estupefacção.
Resumindo: acordei e tive duas sensações: estava atordoado pelo conteúdo do sonho e resignado pela forma como chegou até à minha consciência.
O irónico é que, acabado o período autista que surge quando abrimos os olhos, os papéis mudaram de lado.
Do atordoamento provocado pela mensagem propriamente dita, passei a uma compreensão e aceitação do conteúdo; por outro lado, a sensação de plenitude por saber o meu cérebro a funcionar correctamente, deu lugar à indignação e incompreensão.
Como pode o cérebro, animal vicioso e depravado, enviar mensagens directamente para os nossos sonhos, sem aviso prévio? E serão fiáveis essas mensagens? O que é que o cérebro sabe, que eu não sei? Tudo isto é perturbante…
Tendo em conta que o cérebro (entidade divina do corpo) faz parte de mim, e que sou constantemente surpreendido através dos sonhos, o que se pode (e deve) concluir é que eu não sei tudo sobre mim. Conclusão óbvia, dirão alguns. Não tão óbvia assim. Vejamos:
Qual será a credibilidade de um cérebro para pôr e dispor de nós, conforme entende? Achará o dito que nós não o conhecemos já de ginjeira? Aqueles sonhos todos trocados, aquilo é coisa que se apresente por parte de Sua Excelência, toda-a-poderosa Massa Cinzenta?
Não me deixo enganar. Aquelas vacas amarelas em cima da televisão, os amigos com corpos de cobra, os jardins da minha cidade inundados pelas ondas do mar em noites húmidas, a ex-namorada a dar-me beijos… Vou confiar neste tipo?
Não. Não, não e não. O exercício que vai revirar as entranhas já está no prelo: antes de adormecer, pensar em coisas totalmente normais: namorados no jardim aos beijos; vacas a pastar; uma mulher, em casa, a mudar canais; alguém que diz a outro: “Amo-te”.
Coisas comezinhas. O quotidiano. Nem mais nem menos. Quero ver se o gajo continua a mandar atrozes mensagens, enquanto descanso…
Esta foi a última vez que acordei a meio da noite para escrever sobre o cérebro. Acabou-se. Preciso de dormir, o corpo está cansado, não quero saber de mim mais do que aquilo que sei, não quero medos nem imaginações, não quero coisas impossíveis.
Ela levantava-se da mesa, olhava-me enquanto ajeitava o cabelo dos olhos, sorria (juro que o Sol lhe dourava a face) e dava-me um beijo.
Cabrão do cérebro. Não basta já a realidade?

Estou em frente da televisão. Um programa da tarde tem como convidados especiais três actores dos “Morangos com Açúcar”. Os ganhos revertem para uma instituição. Na tela aparecem três palavras: Erodito, Estabilisar e Exímio. - Qual destas palavras está bem escrita? – pergunta a entrevistadora. - Hummm … - depois de 10 segundos, a actriz convidada: - Erodito! - Não – diz Leonor, preocupada com as criancinhas que vêem o dinheiro por um canudo. - Ah! Já sei – a entrevistada teve um visão de génio – Exímio! Pois, pois, é isso! Erodito está mal escrito. É erodiCto, com c… A câmara filma o actor que se encontra ao lado desta Simone de Beauvoir da Falagueira. O ser ar é de pura descrença. Como é óbvio, por uma questão de educação, não vou revelar a identidade desta brilhante actriz. Não seria digno. |

Carlos do Carmo |

Partir É Morrer Um Pouco
Adeus parceiros das farras
Dos copos e das noitadas
Adeus sombras da cidade
Adeus langor das guitarras
Canto de esperanças frustradas
Alvorada de saudade.
Meu coração como louco
Quer desgarrar no meu peito
Transforma em soluço a voz
Partir é morrer um pouco
A alma de certo jeito
A expirar dentro de nós.
Voam mágoas em pedaços
Como aves que se não cansam
Ilusões esparsas no ar.
Partir é estender os braços
Aos sonhos que não se alcançam
Cujo destino é ficar.
Deixo a minh’alma no cais
De longe alcanço sinais
Feitos de pranto a correr.
Quem morre não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer!
Quem morre não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer!

Gaivota Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar. Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração. Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse. Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração. Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro. Que perfeito coração morreria no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração. Alexandre O'Neill |
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Casa - "Surpresa. Após tanto deste amor, supunha tê-lo espalhado pelo mundo."- Giuseppe Ungaretti
Questão: Se "o poeta acaba sempre por encontrar as palavras que nos encaixam", como diz a azuki, o que faz com que esse mesmo poeta tenha essa capacidade? Nasce o trabalho do poeta através do seu especial talento ou, antes, de muito trabalho? Ou das duas? É da transpiração que vem a obra-prima ou da inalcançável transcendência?

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Drinking
a women laughs
in front of the sea
(I love her laughter).
Dancing and singing
on a roof,
In front of the sea
(a silent sea).
Her hands
(I love her hands)
are birds
hugging the night.
Her eyes (deep magic eyes)
(in front of the sea)
are melting
(dancing and singing).
Our eyes (hugging the night)
are melting
in front of the sea.
My words
(like birds)
dance
inside her heart.
She dance
(like birds)
inside my words.
Our hearts
(like words)
fly
above the sea.
And a bottle of Gin
make her say
that she loves me...
Ricardo Silveirinha
A MAL CASADA (1987)
Dizes-me que Juan Luis não te compreende,
que só pensa nos seus computadores
e que não faz caso de ti de noite.
Dizes-me que os teus filhos não te ajudam,
que só te dão problemas, que se aborrecem
com tudo e que estás farta de aturá-los.
Dizes-me que os teus pais estão velhos
que se tornaram tacanhos e egoístas
e que já não és a sua menina como dantes.
Dizes-me que já fizeste trinta e cinco
e que não é fácil começar de novo,
que os únicos homens que conhecessão os colegas de Juan na IBM
e não gostas de executivos.
E eu, o que é que eu faço nesta história?
Que queres que eu faça? Que mate alguém?
Que dê um golpe de estado libertário?
Amei-te como um louco. Não o nego
mas isso foi há muito, quando o mundo
era uma reluzente madrugada
que não quiseste compartilhar comigo.
A nostalgia é um passatempo grosseiro.
Volta a ser a que foste. Vai ao ginásio,
Pinta-te mais, disfarça as tuas rugas
e veste roupa sexy, não sejas tonta,
que talvez Juan Luis te volte a mimar,
e os teus filhos vão para um acampamento
e os teus pais morram.
Luis Alberto de Cuenca

Um filme onde nada é o que parece. A começar pelo elenco. Lemos os nomes dos actores e ficamos com aquele amargo de boca, aquela sensação de estarmos perante mais um cansativo jogo de namorados, clichés e beijinhos no final com o plano a afastar-se. Não podíamos estar mais enganados. O filme “Closer” de Mike Nichols é tudo menos um filme de Domingo à tarde para repousar o cérebro. De tanto nos “ofender” no nosso suposto belo romantismo, chegamos ao final destroçados, cansados e – ironicamente – repletos de uma sensação de reconforto. É no jogo entre o desvario das emoções e a crueza das soluções que todo o filme se sustenta. Aquele que domina afinal é o dominado. O que ama afinal não ama. O amor, esse, serve de cobaia para uma coisa maior – a realidade; e esse facto (o amor não reinar, antes servir) é uma revelação e uma balde de água fria nesta nossa mania de sermos muito leais, muito fiéis, muito romântico-patéticos. Julia Roberts faz o melhor dos papéis. Nem parece a mesma. Afinal, Julia pode ser chamada de actriz. Natalie Portman, para além da beleza cinematográfica mais fascinante dos últimos tempos, é belíssima. Actriz, actriz, actriz. Um portento de representação. Jude Law, o mais fraco; ainda assim, capaz de transportar as emoções e cruezas da personagem. Clive Owen deslumbrante. Em todos os sentidos. Quem quiser ver o filme, que veja. Não vou fazer sinopses nem resumos alargados. O filme merece ser visto por quem se quer desiludir da desilusão. |
| A final do Campeonato do Mundo é, desde ontem, uma impossibilidade. Apetecia-me dizer tanta coisa sobre o jogo, mas não... Não digo nada. É certo que um objectivo enorme se gorou ontem à noite. Mas o sonho - ah o sonho! -, esse já ninguém mo tira... |

Que não haja confusões: eu amo o Futebol. Dos pés à cabeça, de cima para baixo, de baixo para cima, de dentro para fora, amo o futebol. O jogo, as tácticas, o xadrez psicológico, o xadrez físico, o público, as bandeiras, as conversas de café, as (des)ilusões, as paixões, o erro do árbitro, o penalty «à Panenka», o penalty «bem marcado», a basculação, o pressing alto, a revienga, o golo. Amo o golo. Por todas estas razões, talvez tenha cometido uma heresia quando me veio à cabeça que todo este «circo» em redor do Mundial de Futebol seja, em perspectiva, um pouco exagerado. Bem sei que todos queremos ser campeões do Mundo, mas – que raio! – não estaremos a deixar o país e os governantes entregues a si próprios? A sensação que dá é que andam uns tontinhos a passar leis «por debaixo dos panos» enquanto a malta rejubila com os golos do Maniche e companheiros (eu não sei o que me deu para dizer estas barbaridades). O país tirou férias? Alguém no seu perfeito juízo estará com a cabeça em território nacional? Falo por mim: a medida do meu tempo é o jogo de Portugal. Um atrás de outro. Pelo meio, são dias em que se festeja a última vitória e se anseia por outra. Não há mais para além disso; talvez um sonho cumprido, outro desfeito, uma boa almoçarada, um filme, uma conversa às tantas, uns copos bebidos… mas no fundo, lá no fundinho, a certeza de um jogo dentro de um dia, de dois, a cabeça fazendo contas, esquemas mentais (ora, o Deco não joga, vai o Figo para o meio, ou jogamos com o Tiago e o Figo vai para a ala?), o dia que não chega, ocupar espaço lendo um livro, tomando mais um banho, brincar com a cadela. Não sei o que me deu para tamanha barbaridade intelectual, mas, de facto, lembrei-me de me perguntar se não estaríamos a levar o Mundial como a única salvação possível, o único motivo para respirar. A malta está cá? Deu sinal de vida? É certo que quando passo na rua as pessoas continuam o seu caminho, falam, bebem cafés, fingem que a cabeça delas acompanha os passos, mas depois as bandeiras nas janelas, um olhar suspeito (vai para casa ver o «Missão na Alemanha»), o barulho do patriotismo ecoando nas ruas, e é tempo para perguntar: O país tirou férias? Haverá Ministros cá no burgo? Secretários de Estado? Funcionários? Senhoras da limpeza, trabalhadores? (Eu não sei o que me deu, juro) … Pergunto-me como andarão os que não gostam de futebol. Por um lado, felizes – o país é deles! -, por outro angustiados – deve ser horrível não ter com quem falar, improvisar uma conversa sobre Cinema e alguém começar a dizer que o Lynch deve jogar nas alas porque, apesar do seu carácter sombrio e confuso, quando quer sabe limpar e jogar simples; alguém que se lembra de um Tarantino, exímio guarda-redes, com golpes arriscados, estilo América do Sul; Almodóvar como roupeiro e Jacques Tati deambulando pelo meio-campo adversário. E isto durante semanas! O pobre do homem que não gosta de futebol cheio de espaço no país e a companhia que não existe, ou que é aborrecida. Ah! Se a Jules Rimet não estiver nas nossas mãos daqui a duas semanas, meus amigos, vamos encontrar um país em ruínas… |